
Com os últimos grãos de milho, de cevada e de trigo que conservara do naufrágio do “Virgínia”, Robinson plantou o seu primeiro campo cultivado. Desde o dia do naufrágio, aquele fatídico 29 de setembro de 1759, Robinson já tentara construir o malogrado “Evasão”, barco que o poderia libertar da prisão insular, já experimentara as delícias emolientes do charco de lama tépida e já arrumara na gruta tudo o que conseguira salvar do “Virgínia”, incluindo quarenta barris de pólvora negra. Alimentos não lhe faltavam: a ilha tinha cabras, bons locais de pesca e fruta abundante.
Mesmo com as facilidades que a natureza lhe dava, Robinson construiu todo um sistema de vida. Apesar de ser o único habitante da ilha, escreveu a “Constituição da Ilha Speranza”, construiu uma cabana e uma cerca para o rebanho e montou o sistema defensivo. Mas o momento mais esperado era o da colheita de cereais. A cevada e o trigo prosperavam, dando-lhe a alegria de cozer a primeira fornada de pão. Com os grãos de arroz sobrantes, lançou-se ainda na aventura de semear um arrozal, construindo um pequeno dique num ribeiro.
Um dia, a vida de Robinson sofreu uma reviravolta. A chegada de um índio, fugido de uma cerimónia de canibalismo, deu-lhe mais motivos para viver. Do “projeto educativo” do índio Sexta-feira, nome com que Robinson o batizou, fazia parte, em primeiro lugar, a aprendizagem da língua inglesa, em segundo lugar, a prática das tarefas agrícolas, “desbravar o terreno, lavrar, semear, transplantar, sachar, ceifar, colher, bater, moer, amassar e cozer pão”. Sexta-feira foi um bom aluno. A “empresa agrícola” de Robinson e do seu criado prosperava a olhos vistos. Mas, tal como na vida de muitas empresas agrícolas, há sempre a possibilidade de um imprevisto, uma Kristin, um Leonardo ou uma Marta, que deitam tudo a perder. Neste caso não foi uma tempestade: foi um gesto irrefletido, associado a uma falha do sistema de segurança. A explosão dos tais quarenta barris de pólvora negra, que Robinson guardara de forma imprevidente no interior da gruta, fizeram ir pelos ares quase tudo o que tinham construído.
A partir daqui, a história muda de rumo, porque o aluno Sexta-feira passa a professor de Robinson, ensinando-o a libertar-se da civilização e a viver em harmonia com a natureza. Quem quiser saber mais, pode ler a obra “Sexta-feira ou a vida selvagem”, de Michel Tournier (1971), que recria, a seu modo, a história de “Robinson Crusoe”, contada por Daniel Defoe (1719). Duas boas leituras, alternativas à atividade agrícola, em dias de vento e chuva, como os muitos que tem havido.
Ir para o conteúdo

