
Toda a gente sabe o que é um manjerico e até me arrisco a dizer que esta “planta dos namorados” é a mais popular da tradição portuguesa. É certo que conta com a ajuda de três santos, porque está associada aos ditos António, João e Pedro. Como não há tradição sem poesia, o manjerico deve ser a planta mais versejada nas nossas quadras populares. Só Fernando Pessoa, à sua conta, tem cinco quadras. E como há o hábito de colocar uma quadra no cravo do vaso de manjerico, é natural que muitas delas se refiram à planta que lhe serve de suporte.
Mas a família do manjerico, (Ocimum minimum), planta originária do Médio Oriente, não se fica por aquelas folhas miudinhas às quais, diz a tradição, não devemos encostarmos o nariz. Além do manjerico há o manjericão (Ocimum basilicum L.), planta da mesma família e com propriedades idênticas, apesar das diferenças de tamanho e da cor da folha. Ao manjericão, talvez por ter a mania das grandezas, também lhe chamam basílico, do grego “basiliskos”, que significava “rei”, ou “real”. Devido à intensidade do seu cheiro, ela foi considerada uma planta real, indo aí buscar o seu nome. Nas línguas românicas, apenas o Português utiliza as palavras “manjerico” e “manjericão”, cuja origem não consegui descortinar. Os espanhóis foram cheirar manjericos à língua árabe e chamam-lhe “albahaca”, a que não é estranha a palavra portuguesa “alfavaca”, que designa o manjericão nalgumas zonas do país. A maior parte das restantes línguas europeias partem da raiz “basilic”.
Quanto a propriedades, nada como enumerá-las: a começar pela culinária, onde os italianos e os franceses são campeões. O célebre molho “pesto”, de origem genovesa, tem no manjericão o ingrediente essencial. Quanto aos franceses, misturam-no com a salada de tomate e, segundo eles dizem, também “casa bem” com queijos frescos.
Na farmacopeia tradicional apontam-lhe qualidades digestivas, respiratórias, calmantes, anti-inflamatórias, antioxidantes, imunitárias, diuréticas e cutâneas. Ou seja, com uma simples planta, temos uma farmácia sempre à mão. Se é problema o facto de o manjerico apenas sobreviver entre a primavera e o outono, a solução está no manjericão que, bem protegido e devidamente tratado, consegue sobreviver o ano inteiro.
Comecei falando de quadras e com uma quadra termino, do senhor Fernando António Nogueira Pessoa, nascido a 13 de junho de 1888 e duplamente afilhado do Santo, porque “Fernando de Bulhões” e “António, frade franciscano” são uma e a mesma Pessoa.
Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar...
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.
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