Opinião

Hortalices - A última horta das Ribes

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Há muito que me intrigava aquela horta. Apesar de eu ter vivido ali perto, nos primeiros anos da minha existência sanjoanense, a horta ao lado da primeira rotunda da Avenida Arantes Oliveira, a seguir ao mercado, era, para mim, uma incógnita. Eu sabia que aquela zona fora, em tempos, abundante em hortas. Ainda tenho na memória a imagem de um vizinho agricultor, de enxada ao ombro, a caminhar junto ao estádio Conde Dias Garcia. No ângulo delimitado pela Rua Alexandre Herculano e pela Av. Arantes Oliveira havia várias hortas arrendadas. Chamavam-lhe os “talhões”. A água vinha de uma mina, empresava num tanque e abastecia toda aquela pequena encosta até ao fundo do vale. Era ali o lugar das Ribes. Das pessoas que interroguei, poucas foram as que nomearam o lugar, que também se estendia para o lado da Piscina Municipal. Segundo um mapa dos anos 50, que me foi disponibilizado pelo professor Daniel Neto, aquela que é hoje a Av. Arantes Oliveira tinha o nome de Rua das Ribes. Hoje, este nome está confinado à rua da piscina.
Regressemos à tal rotunda e àquela pequena aglomeração, onde pontifica a Casa do Campo, a casa branca com a horta ao lado. Mora ali o senhor José Martins. No momento da minha chegada, tentava ele pôr cobro ao “arejo” que dera nos tomateiros. Não é o único a queixar-se… A horta do Sr. José é um regalo para a vista: couves, cebolas, alhos franceses, abóboras, melancias, melões… Os tomateiros são a exceção, numa horta a respirar saúde e exuberância. A água de rega vem da vala que ali corre, água clara, filha da mina antiga. A água tem memória e ainda sabe o caminho para a última horta das Ribes.
Ao redor da casa e da horta, o cerco de betão vai-se apertando. A Av. Arantes Oliveira está quase fechada a norte, a Rua dos Combatentes fechou-se mesmo, a Rua Alexandre Herculano começou a crescer para o lado das antigas hortas de talhões. Lá em cima, na Oliva, vão crescendo espetos de betão. O plano de pormenor Oliva-Corgas não perdoa. O senhor José tem perfeita consciência do que vai acontecer. “Um dia destes, isto vai tudo abaixo.” Mas nem isso lhe tira o entusiasmo. A última horta das Ribes vai morrer fecunda e farta. O que não queremos é que, com ela, morra a memória do lugar, das pessoas e das atividades que ali passaram. A mudança dos nomes não pode significar a morte da memória.

 

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