
A persistente e sucessiva intempérie que se tem abatido sobre o país também atingiu a minha horta. As ervilhas definham, as favas estão encolhidas, o alho francês não engorda, em suma, é uma seca! Ou melhor, uma molha!
Refleti aturadamente sobre uma forma de escapar à intempérie. Uma estufa? Não vale a pena, porque apareceria sempre por aí alguma Kristin, um Leonardo ou uma Marta que se encarregariam de atirar aquilo pelos ares. Cobri-la com um búnquer de betão? Seria um contrassenso, porque as plantas gostam de luz e de ar e rapidamente definhariam.
A imaginação continuou a funcionar. Que tal enviar a horta para o espaço? E como estou em maré de cientistas, lembrei-me de um homem que talvez me pudesse ajudar: o Eng. Fernando Carvalho Rodrigues, “pai” do primeiro satélite português, o POSAT 1. Aquela caixinha de 58x35X35 cm, já estava completamente atafulhada de instrumentos da mais variada ordem, mas talvez se arranjasse espaço para uma ervilha, ou talvez uma semente de nabo ou de couve… ou de morango, que dizem ter a semente mais pequena de entre as plantas comestíveis ou com frutos comestíveis.
Tentei chegar à fala com o Eng. Carvalho Rodrigues. Imaginava-o encafuado nalgum laboratório astronómico ou debaixo do telescópio a observar as estrelas, mas acabei por descobrir que vive retirado na aldeia de Casal de Cinza, no distrito da Guarda, em harmonia com a natureza. No seu passeio da RTP, vi-o com a jornalista Fátima Campos Ferreira, a confraternizar com manadas de vacas e de cavalos e com os burros de uma récua de comilões. E ouvi-lhe contar as histórias bem-humoradas, nomeadamente a de um boi novo cortejado pelas vacas, ou do burro Leibniz, que lhe rói as manetes do jipe quando mete a cabeça para comer guloseimas.
Na falta do Eng. Carvalho Rodrigues em pessoa, socorri-me de outras fontes de informação. Seria possível refazer a minha horta no espaço? A resposta é positiva: já existem hortas no espaço. Na Estação Espacial Internacional, já foram cultivados legumes como a alface, a mostarda, a couve chinesa, e ainda tomates, malaguetas e pimentos. Não sendo uma horta por aí além, exige a aplicação de tecnologias bastante mais complexas do que a estrumação dos meus canteiros. As vantagens são óbvias, as plantas produzem oxigénio, reduzem o dióxido de carbono e diversificam a dieta dos astronautas. Caso avancem projetos de longas viagens espaciais, essa será uma solução inevitável. Se entregassem essa missão ao Eng. Carvalho Rodrigues estou certo que ele nos lembraria que “a regra do universo é fazer vida”, sem esquecer que “o que se fizer, tem que ser bem feito”.
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