Paul Krugman, economista americano de renome, prémio Nobel da Economia em 2008, pelo que disse numa entrevista ao Jornal de Negócios, parece acreditar em milagres.
Este economista afirmou que “Portugal é uma espécie de milagre económico”, manifestando-se profundamente admirado como o nosso País saiu “tão bem” da crise da dívida soberana de 2009. Crise que obrigou diversos países, sobretudo na área do euro, entre eles o nosso, com problemas financeiros, a recorrerem a empréstimos externos, para garantirem o cumprimento dos seus compromissos. A sua surpresa é tal que, em conversas sobre o Portugal, arranha a cabeça e questiona “como é que eles fizeram isto”.
António Costa estava na Alemanha a comemorar o 50.º aniversário do PS, mas atento ao que se vai dizendo por cá, de imediato se referiu, numa intervenção no mesmo dia (terça-feira), ao comentário do economista, dizendo que, para quem não era crente (só para esses? [perguntamos nós]), a explicação para o resultado estava nas “boas políticas”.
Para nós, que não acreditamos em milagres, nem somos crentes nas “boas políticas” do Governo, achamos que falta trazer para a equação das contas certas, um polinómio que se chama sofrimento do povo. Sem isto não será possível calcular a incógnita, ou seja, teremos uma equação impossível. Estamos muito admirados, como é que homens muito mais inteligentes que nós, como Krugman e Costa, se esqueceram deste importante polinómio.
O tal “milagre económico” consistiu num programa de austeridade de grande severidade, imposto pela tróica, com aceitação do governo PS/Sócrates e aplicado pelo governo PSD-CDS/Passos, que fez incidir sobre os trabalhadores e pensionistas um conjunto de penalizações como:
- os cortes dos subsídios de férias e de natal;
- os cortes nos vencimentos dos trabalhadores da administração pública;
- o aumento do IRS;
- a sobretaxa de 3,5 %, contribuição extraordinária de solidariedade (CES);
- o aumento da idade legal da reforma para 66 anos e quatro meses;
- o aumento do horário de trabalho para os funcionários públicos sem a devida compensação salarial;
- a aplicação do factor de sustentabilidade às reformas;
- o aumento da taxa do IVA do gás e da electricidade, a partir de 2011, de 6% para 23%;
- etc.
Referimos alguns sacrifícios directos sobre a população, mas ficamos longe de os termos referido todos. Por outro lado, não mencionamos os efeitos de todas estas politicas sobre as pequenas e médias empresas que, após este tratamento da tróica, faliram aos milhares.
Segundo António Costa, vamos chegar ao final deste ano “com finanças públicas saudáveis” e teremos “um superavit no nosso orçamento”, mas para nada serve o dito superavit para quem:
- tem precariedade no emprego;
- tem baixos salários e baixas pensões;
- tem emprego, todos os dias tem trabalho, mas o salário baixo mantem-no pobre;
- não tem médico de família, espera longos meses por uma consulta de especialidade ou uma cirurgia;
- passa imensas dificuldades porque a renda da casa lhe leva uma parte excessiva do salário;
- entrou em depressão, por causa dos juros no crédito à habitação;
- quer estudar na universidade mas os pais têm baixos recursos;
- quer sair de casa dos pais e constituir família, mas não tem salário para pagar uma renda;
- e de tantas coisas mais.
Que raio de milagre é este que traz, para uma grande parte da população, uma qualidade de vida tão fraca? Achamos impossível que haja um santo milagreiro que possa “criar” tanta injustiça e defenda tanto os privilégios dos grupos económicos - bancos, sectores da energia eléctrica e petrolífera, sector da grande distribuição, e outros – permitindo que fiquem intocáveis os seus lucros extraordinários e obscenos, em parte promovidos pelas políticas monetárias da Senhora Christine Lagarde - presidente do Banco Central Europeu.
Não nos acreditamos que tenha havido um milagre, mas estamos convencidos que há um logro que esconde a parte negativa dos resultados da economia portuguesa!
À MARGEM DE TUDO
Há um desastre humanitário na Palestina que é urgente parar. Estamos a assistir a uma matança inaceitável. Gaza está transformada num “campo de morte” sem paralelo. Por favor ouçam António Guterres e, como Vinicius escreveu no poema A Rosa de Hiroxima, “Pensem nas crianças / Mudas telepáticas / Pensem nas meninas / Cegas inexactas / Pensem nas mulheres…”
Pensem que amanhã poderemos ser nós, os nossos filhos e os nossos netos, mas pensem mesmo!
O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
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