
S. João da Madeira tornou-se notável na segunda metade do século XIX, pelo cunho industrioso das suas gentes. Até aí, a pequena povoação que surgiu e se desenvolveu na cercadura da via militar romana que por aqui passava, viveu numa letargia que a deixou ao sabor das definições territoriais de quem tinha o poder de decidir.
Integrada nas Terras de Santa Maria, logo a seguir à fundação da nacionalidade, S. João “que diziam de Madeira” foi freguesia da Feira, até ter sido decretada, pelo príncipe regente D. João VI, em setembro de 1801, a sua anexação ao concelho de Oliveira de Azeméis.
Esta dependência, aceite sem reservas por mais de meio século, começou a causar descontentamento na população sanjoanense, que via as suas legítimas aspirações serem, sistematicamente, ignoradas ou refutadas. Quem primeiro pôs, publicamente, o dedo na ferida foi Pinho Leal, autor da monumental obra corográfica “Portugal Antigo e Moderno”, publicada em 1873. Referindo-se a S. João da Madeira, o militar historiador diz a dado passo: “Ao génio empreendedor, ao amor do trabalho, á energia e coragem de seus habitantes, deve S. João da Madeira o prodigioso desenvolvimento da sua população e dos seus melhoramentos materiais e morais. A agricultura, o comércio e a indústria prosperam aqui a olhos vistos, e S. João da Madeira, que, ainda há 30 anos, era uma pequena aldeia, está hoje uma bonita e grande povoação, maior e mais rica do que muitas vilas de Portugal. (…) Antes de pouco tempo vai ser ligada com o caminho de ferro do Norte, por um ramal de estrada (de uns 2 km de distância) que a põe em comunicação com a estrada de Ovar a Oliveira de Azeméis. (Ramal que já podia e devia estar feito – visto a sua insignificante despesa – se as influências de campanário e a rivalidade de Oliveira de Azeméis não tivesse há dois anos atuado pelos interesses de alguns contra os do comum.)”
Este ramal, construído anos mais tarde, compreendia aquelas que são, atualmente, a Avenida do Brasil e Rua D. Afonso Henriques, extremidade sul, em território sanjoanense, e Rua Manuel Ferreira da Silva Brandão, em toda a sua extensão, dentro do território cucujanense, desembocando na estrada que liga Oliveira de Azeméis a Ovar e a S. Jacinto (EN 327).
Com a implantação da República Portuguesa, em 5 de outubro de 1910, o povo sanjoanense sentiu-se com mais legitimidade para reivindicar o que lhe era devido e, sobretudo, reclamar a sua soberania. Por essa altura, como foi reconhecido por Bento Carqueja, que coordenou os “Anais do Município de Oliveira de Azeméis”, S. João da Madeira era “sem dúvida, a freguesia mais industrial do concelho, especialmente pela indústria dos chapéus”. Mas foi preciso esperar até ao início da terceira década do século XX, para que aquele descontentamento se transformasse no movimento organizado que levou à tão desejada emancipação.
O denominado Grupo Patriótico Sanjoanense, liderado por António Henriques, corporizou os anseios de todo um povo e o jornal “O Regional”, criado em 1922 por aqueles “rapazes com sangue a estuar nas veias, ansioso do progresso constante de S. João da Madeira”, foi o seu porta-voz. Os resultados não se fizeram esperar. A 5 de julho de 1924, pela Lei n.º L617, S. João da Madeira passava à categoria de Vila.
O galardão que o povo reclamava – a sua “carta de alforria” – haveria de lhe ser conferido, dois anos depois, a 11 de outubro, pelo Governo da República.
Para se perceber o impacto que a decisão governamental teve no seio da população de S. João da Madeira, que esteve representada na capital por algumas das figuras com mais peso na sociedade sanjoanense, é necessário mergulhar nas páginas da edição do jornal “O Regional” n.º 126, de 24 de outubro de 1926, cuja capa é aqui reproduzida.
Sem os meios, à época, para fazer a reportagem fotográfica que o momento exigia, ficam os textos que nos deixaram os “repórteres” de ocasião, A. P. e, com toda a certeza, António de Lima Correia, diretor do “quinzenário, independente, literário e noticioso”. Não são como as imagens, que dizem valer mais do que mil palavras, mas, pelo menos, hão de valer por uma dúzia de fotografias. Seguem-se alguns excertos (em português atualizado):
“S. João da Madeira – A Nossa Terra – a povoação mais florescente do distrito de Aveiro, um dos centros fabris mais progressivos de Portugal, que há dois dias ainda fora elevada à categoria de vila, acaba de ser desanexada do concelho de Oliveira de Azeméis (…), conquistando agora a sua autonomia administrativa, realiza assim uma das suas mais ardentes aspirações, o seu sonho dourado de há tantos anos.”;
“Aproveitando-se do seu prestígio moral (Renato Araújo), da sua influência e relações pessoais e auxiliado por outros sanjoanenses, (…) telegrafa de Lisboa a António Henriques comunicando-lhe que tudo corria bem, e pedindo que uma Comissão de sanjoanenses seguisse imediatamente para a capital, a fim de, na presença do ministro do Interior corroborar o pedido já formulado, reclamando que fosse feita justiça ao povo de S. João da Madeira. Essa comissão organiza-se e é composta dos srs. Genuíno Silva, dr. Joaquim Milheiro, António Henriques, Manuel Costa, Inocêncio Leal, José Correia e padre Almeida e Pinho, agregando-se-lhe em Lisboa o sr. Augusto Palmares. Nela estão representadas todas as forças vivas de S. João da Madeira, o comércio, a indústria, a agricultura, incluindo a autoridade civil e eclesiástica.”;
“(…) por isso vem ali com os seus conterrâneos agradecer o ato de justiça que o governo acabava de praticar em benefício da sua terra. Respondendo ao brilhante discurso do dr. Renato d’Araújo, o sr. Almirante Jaime Afreixo, (..) disse que o povo sanjoanense, ali representado, nada tinha que agradecer (…) não era um favor, mas um ato de inteira justiça, que o governo fizera.”;
“A Comissão regressara de Lisboa no rápido da tarde, sendo carinhosamente recebida em Ovar por um grupo de sanjoanenses que, ansiosos, ali a esperavam. Ao chegar a S. João da Madeira, uma multidão enorme de povo com a banda de música à frente manifestara-se então em ruidosas aclamações, saudando o nosso concelho (…). Viva S. João da Madeira!”.
Nota: Atrasado por imperativos da redação
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2 pensamentos sobre “fotografias com HISTÓRIA com fotografias - O 11 de Outubro de 1926”
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