Opinião

fotografias com HISTÓRIA com fotografias - Museus e Casa da Memória

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A ideia de se criar um museu em São João da Madeira é bem mais antiga do que possamos imaginar. Foi António Henriques, grande entusiasta dos ideais do progresso, quem primeiro percebeu a necessidade de se criar nesta terra um espaço para preservação da memória coletiva e fez dela uma das bandeiras do GPS – Grupo Patriótico Sanjoanense – movimento que fundou no início da década de 1920, com o objetivo primeiro de alcançar a independência administrativa da sua terra.
Sem conseguir pôr a ideia em prática durante o período em que foi presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira, mandato iniciado em 1939 e interrompido em 1946, o projeto ficou na gaveta.
Só de lá saiu no final do século XX, depois de a autarquia sanjoanense ter adquirido o espólio e o edifício da “Empresa Industrial de Chapelaria, Lda.”, transformando-o no Museu da Chapelaria, que é o único museu da Península Ibérica dedicado ao fabrico do chapéu e “um dos principais ícones culturais de São João da Madeira”.
Foi inaugurado a 22 de junho de 2005, pelo Presidente da República Jorge Sampaio e, de então para cá, recebeu muitos milhares de visitantes, promoveu inúmeras exposições e tem sido distinguido com vários prémios, pela Associação Portuguesa de Museologia.
Onze anos depois, é inaugurado o Museu do Calçado. Instalado na histórica Torre da Oliva, onde já funcionava, embrionariamente, desde 2012. A nova estrutura foi, igualmente, uma aposta ganha. E, se considerarmos que, na mesma torre, existe um “mini museu” dedicado à metalúrgica “Indústrias A. J. Oliveira; Filhos & C.ª, Lda.” – Oliva – e que a Associação Desportiva Sanjoanense tenciona criar um espaço semelhante, para preservação e divulgação da sua história, então podemos dizer que a velha aspiração de António Henriques foi – em boa parte – alcançada.
Em boa parte, sim. Porque a nossa memória coletiva está longe de se esgotar nestas estruturas.

O palacete de Manuel Nicolau da Costa, vulgo “Rei da Farinha”, foi adquirido pela Câmara Municipal de São João da Madeira, em 1985. Durante três décadas, albergou o Centro de Arte de São João da Madeira, encontrando-se, atualmente, vago e em adiantado estado de degradação. Os trabalhos de reabilitação do edifício estavam previstos para finais de 2021, mas, até agora, ainda não foi apontada uma data para o arranque da obra. Para muitos, seria o espaço ideal para se tornar na CASA DA MEMÓRIA de São João da Madeira

No início do mês de dezembro de 2014, a vereadora do Partido Socialista de São João da Madeira, Teresa Correia, apresentou, em reunião de Câmara, uma proposta que visava a criação da “Casa da Fotografia e da Imagem” para receber o espólio do artista Carlos Costa. A proposta, que Teresa Correia sustentou com a afirmação “uma terra que não cuida da sua memória, também não sabe cuidar do seu presente e do seu futuro”, foi aprovada por unanimidade.
No entanto, dez anos depois, nada foi feito nesse sentido. E não foi por falta de bons exemplos. Bem perto de nós, há dois casos que podiam ter inspirado os autarcas sanjoanenses: em 1993, a Câmara Municipal de Vila do Conde adquiriu o espólio da “Fotografia Adriano”, considerando-o “património de interesse público”; em 2012, foi criada a Casa da Imagem, em Vila Nova de Gaia, um espaço cultural de prática e mediação artísticas, dedicada à investigação sobre a imagem, sendo sua principal missão “a mediação, o estudo, a interpretação, a conservação e a exposição do Fundo Fotográfico Teófilo Rego”.
Curiosamente, o fotógrafo Teófilo Rego era amigo íntimo de Carlos Costa e ambos foram cofundadores da “Associação Fotográfica do Porto”, em 1951.
Se a tal “Casa da Fotografia e da Imagem” tivesse sido criada, ou se vier a ser, não serviria/servirá o propósito inicialmente desenhado neste tratado. A memória coletiva de São João da Madeira vai muito para além das fotografias e dos filmes de Carlos Costa, como vai para além das imagens produzidas pelos outros fotógrafos, profissionais ou amadores, que contribuíram – e continuam a contribuir – para a nossa história.
A memória coletiva de São João da Madeira é composta também dos símbolos, narrações e produções de vária ordem que participam da construção identitária da nossa gente.
Dito isto, o que nos parece é que aquilo que falta em São João da Madeira é uma CASA DA MEMÓRIA, à imagem das que foram criadas em várias cidades do País, de que são exemplo as de Coimbra, Matosinhos, Guimarães, Famalicão, Amarante e tantas outras estruturadas por iniciativa das câmaras municipais. Um espaço onde coubessem os nossos fotógrafos, os nossos escritores, jornalistas, músicos, artistas plásticos, sem esquecer aqueles que, não pertencendo a nenhum destes grupos, contribuíram para o nosso desenvolvimento económico, como os nossos emigrantes, empresários, comerciantes e operários.
Uma CASA DA MEMÓRIA que permita à comunidade sanjoanense conhecer o seu passado, fortalecendo, dessa forma, a sua identidade e promovendo a valorização da sua cultura.
Um espaço que funcione como centro de interpretação e de conhecimento, onde seja possível aprender sobre a nossa história e a nossa cultura, de forma interativa e acessível.
Um espaço onde estejam, também, as PESSOAS.

 

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