Opinião

fotografias com HISTÓRIA com fotografias - Monumento ao Esforço Sanjoanense

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A ideia de um monumento consagrador do esforço sanjoanense, terá começado a bailar no espírito de Belmiro António da Silva, no início da década de 40, do século passado.

Homem sempre atento ao progresso da sua terra, cujos interesses colocava acima de tudo, Belmiro Silva integrou e liderou algumas das mais importantes comissões de Sanjoanenses, criadas para levar a cabo obras de interesse coletivo, designadamente as do Parque da Nossa Senhora dos Milagres, do Pavilhão dos Desportos e do Estádio Conde Dias Garcia.
Para melhor entendimento e enquadramento do assunto que aqui trazemos hoje, convém dizer que uma das principais atividades de Belmiro Silva foi desenvolvida no jornal O Regional, praticamente desde o seu surgimento, deixando nele uma marca indelével com a sua colaboração constante, bairrista e altamente influente.
Em 1939, depois de ter estado no atelier de Henrique Moreira, na qualidade de membro da comissão promotora da homenagem ao Conde Dias Garcia, de que também faziam parte Manuel Nicolau da Costa, dr. Joaquim Milheiro, Ramiro Leão, Francisco Lopes Simões e Manuel Leite da Silva Garcia, Belmiro Silva revelou ao escultor a sua intenção de tudo fazer para ver ser erigido, numa praça de S. João da Madeira, um monumento que perpetuasse a memória de todos aqueles que, pela sua vida bairrista e laboriosa, contribuíram para o desenvolvimento e progresso de S. João da Madeira.

Henrique Moreira

Henrique Moreira - a quem nos referimos neste jornal há cerca de dois meses - aceitou o desafio mas, por razões que desconhecemos, só apresentou a maqueta do monumento ao requerente, muitos anos depois. A fotografia do esboço, captada pela objetiva do fotógrafo Edmundo Carvalho (Estúdio Almeida), foi publicada pela primeira vez na capa d’O Regional número 1017, de 4 de dezembro de 1960. A acompanhá-la, um texto intitulado O Monumento Justifica-se, assinado por Y, um dos muitos pseudónimos de Belmiro António da Silva, e a memória descritiva, que a seguir se transcreve: Pretende-se com a construção dum monumento perpetuar e glorificar o trabalho que tem sido a força impulsionadora de todo o progresso de S. João da Madeira. O monumento evocativo do esforço realizador desse progresso será construído em granito e medirá de altura 7,20 m., assentando num rectângulo que terá de frente 2,40m. e de lado 3,20m. As figuras da Indústria e do Comércio, que simbolizam o Trabalho, serão de bronze e terão de altura 2,80m. O Brasão de S. João da Madeira, erguido bem alto nas mãos possantes e hercúleas daquelas duas figuras, será também de bronze. Na base levará uma legenda que diga do significado do monumento. Na parte posterior do monumento e de alto a baixo uma resenha histórica de evolução de S. João da Madeira.
Uma peça escultórica verdadeiramente grandiosa, sem qualquer sombra de dúvida pensada para ficar no centro da Praça Luís Ribeiro, que o plano de remodelação de Raul Lino tinha tornado mais ampla e mais moderna. Para melhor fazer passar a mensagem da necessidade de se construir o monumento, Belmiro Silva colheu e fez publicar o parecer de três figuras incontornáveis do meio sanjoanense de então: Manuel Vieira Araújo, industrial e, à época, presidente da autarquia; José Cerqueira de Vasconcelos, diretor pedagógico do Externato Castilho; João da Silva Correia, escritor, autor do romance Unhas Negras.
Apesar de favoráveis, as opiniões dos três não terão sido suficientes para produzir o efeito pretendido por Belmiro Silva, muito provavelmente por se tratar de uma ação claramente individualizada, sem a força que caracterizava as comissões atrás referidas.
Durante quatro anos, não se voltou a falar do assunto mas, na edição d’O Regional de 19 de setembro de 1965, Belmiro Silva volta à carga, fazendo publicar, em repetição, o texto O Monumento Justifica-se, acompanhado da fotografia da maqueta. Desde então até 1981, a foto foi publicada dezasseis vezes, regra geral a ilustrar textos tendentes a convencer os sanjoanenses da necessidade de se erigir o monumento. Um monumento que já não poderia ser como idealizara Henrique Moreira, porque o escultor falecera em fevereiro de 1979.

Belmiro António da Silva

Numa derradeira tentativa, Belmiro Silva escreveu n’O Regional de 1 de agosto de 1981: A ereção de um monumento ao esforço coletivo dos sanjoanenses na promoção da sua terra, cuja ideia temos vindo a apregoar nas páginas deste jornal, há-de ser um facto na vigência da actual Câmara Municipal. Esta a conclusão que tiramos das palavras do presidente da edilidade proferidas em surdina quando recentemente abordamos o caso. O local previsto para o monumento é a praça de Luís Ribeiro que foi em todos os tempos o centro cívico de S. João da Madeira (…).
O presidente da edilidade a que se refere o autor do texto, é José da Silva Pinho, cujo mandato foi interrompido em junho de 1983. Uma contrariedade com que o paladino do monumento não contava.
Belmiro António da Silva faleceu um ano depois, a 22 de setembro de 1984, sem conseguir ver concretizado o sonho que alimentou durante quarenta anos
A maqueta do monumento que nunca chegou a sê-lo, encontra-se exposta no Museu Soares dos Reis, no Porto.

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