Opinião

fotografias com HISTÓRIA com fotografias - António Frutuoso, professor ao domicílio

• Favoritos: 19


António Manuel Frutuoso nasceu na freguesia de Talhas, distrito de Bragança, a 25 de maio de 1851. Por ironia do destino, no mesmo mês e ano em que se inicia o período da Monarquia Constitucional – Regeneração – e, com ele, a ambicionada estabilidade política e a paz de que Portugal tanto estava necessitado.
Estas condições permitiram que o País pusesse em prática as ideias consagradas pelos diplomas constitucionais de 1822, 1826 e 1838, designadamente aquelas que visavam o ensino e que procuravam aproximar Portugal da formação cultural e educativa dos países mais desenvolvidos.
É, pois, num contexto de reforma e de combate ao analfabetismo – à época a rondar os 75% em Portugal – que António vai para a escola primária e descobre a sua vocação de professor.
Para exercer a nobre atividade “devidamente habilitado”, frequenta a Escola Normal de Bragança e inicia a carreira de docente em escolas primárias dos distritos de Bragança e Viseu. Na sua passagem por Tabuaço, conhece Maria da Piedade Barros e é com ela que casa, antes de se fixar em São João da Madeira.
Ninguém sabe, ao certo, o motivo da sua escolha, mas a ela não terá sido alheio o facto de se tratar de uma terra que, pelo caráter industrioso do seu povo, se assumia, então, como aquela que mais e melhor progredia no País.
António Frutuoso chegou no verão de 1896 – para preencher a vaga existente na “Casa das Escolas Oficiais” da então freguesia de Oliveira de Azeméis – e cedo mostrou ao que vinha: no curto espaço de quatro anos, preparou vinte dos seus alunos, que obtiveram excelentes classificações, nos exames finais.
Em 1901, o professor Frutuoso foi suspenso da sua atividade, sem direito a vencimento, até o tribunal decidir sobre a acusação que motivou o seu afastamento, classificada pelo escritor João da Silva Correia como “despeito anónimo de pessoas menos sensatas”.
Enquanto decorreu o processo, António Manuel Frutuoso foi professor ao domicílio, transportando a mágoa com que via afastarem-no da sua cadeira. Uma parte muito grande dos jovens de S. João da Madeira e de povoações vizinhas, designadamente do lugar da Corujeira, de Milheirós de Poiares, ficaram a dever-lhe o conhecimento das primeiras letras. Por altura dos exames de “instrução primária”, apareciam publicadas, na imprensa regional, as listas de alunos propostos pelo professor Frutuoso. Nelas constam os nomes dos seus filhos Joaquim, Valeriano e Paulo, de João da Silva Correia, Ramiro Leão, António Maria de Almeida Pinho, António José Pinto de Oliveira, António José de Pinho, Domingos José de Oliveira, Renato Araújo, Belmiro silva, Carlos Alberto da Costa, entre muitos, muitos outros.
Quando ficou provada a sua inocência e aconteceu a reintegração – sem qualquer compensação pelos danos sofridos, convém dizer –, “o velho e honrado professor teve ensejo de avaliar o elevado grau de consideração em que o tinha o povo de São João da Madeira”.
A escola, que, para ele, já não era um ganha-pão, mas um sacerdócio, recebeu-o de braços abertos.
Lecionou até 9 de fevereiro de 1925. Na manhã desse dia cinzento, o pedagogo teve um ataque de tosse, quando se preparava para ir dar a sua aula, e caiu fulminado nos braços da esposa. Cem anos depois da sua morte, o número de anúncios “professor ao domicílio”, na internet, é surpreendente.
O que pode indiciar um mero regresso às origens… ou algo mais preocupante.

NOTA: Texto publicado pelo autor, no boletim informativo da Associação de Solidariedade Social dos Professores (ASSP), n.º 237, agora com pequenas correções e acrescentamento.
19 Recomendações
350 visualizações
bookmark icon

Farmácias abertas

tempo