Opinião

fotografias com HISTÓRIA com fotografias - António Dias Garcia – o Conde benemérito (V)

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A edição número 299 de “O Regional”, com data de 18 de junho de 1933, anunciava, na primeira página, o regresso do Conde à sua terra natal, acompanhado, como sempre, da respetiva família: “Vindos do Brasil a bordo do ‘Cap Arcona’, devem desembarcar àmanhã em Lisbôa os beneméritos srs. Condes de Dias Garcia e suas ex.mas Filhas. Seguidamente partirão para esta vila, devendo chegar aqui por toda a semana que entra. Segundo nos consta, está-se preparando uma receção festiva, com arraial nocturno, na Praça de Dias Garcia. Por em-quanto não se sabe se o trajecto de Lisbôa a esta vila é feito em comboio ou automóvel. No entanto, seja qual fôr a via, muitas pessoas irão ao seu encontro cumprimentar Suas Ex.as. É justo, pois, que tôdos se associem á manifestação que se lhes prepara.”
O apelo, feito assim e segundo a grafia da época, não foi ignorado pelos sanjoanenses. Logo que se soube do dia e da hora da vinda da família Dias Garcia para S. João da Madeira e do trajeto que foi feito em automóvel, várias pessoas tomaram os seus carros, para irem ao seu encontro, na reta de Albergaria. Eram quatro horas da tarde do dia 22 de junho de 1933, quando os três carros que os transportavam, a eles e aos que foram à capital assistir ao desembarque, ali chegaram. Assim que se apearam, os Condes receberam das mãos da “pequena Marília” – Marília Silva, filha de Belmiro Silva – “um lindo e monumental ramo de flôres, oferta da Comissão de Iniciativa do Parque”, a entidade promotora da receção. E percebe-se bem porquê.
A C. I. P., liderada por Belmiro António da Silva, precisava da benemerência do Conde, como do pão para a boca. O projeto do novo e definitivo santuário Nossa Senhora dos Milagres tinha sido assinado no início do ano e a obra exigia um suplemento financeiro apreciável que a Comissão, sem a ajuda de Dias Garcia, nunca poderia angariar. O contributo do jornal “O Regional” para a causa foi significativo, ao disponibilizar todo o espaço necessário aos seus mais credenciados colaboradores – Serafim Leite, Bento Carqueja, João da Silva Correia, António de Lima Correia, Cerqueira de Vasconcelos, José Soares da Silva e o próprio Belmiro Silva, entre outros – que não se pouparam nos elogios e nos apelos, mais ou menos disfarçados, à benemerência do “ilustre filho da Nossa Terra”.

Conde
Inauguração da estátua do Conde, em fevereiro de 1939

Mas não foi só para o Parque que a bolsa do Conde se abriu. Naquele ano e no início de 1934, S. João da Madeira assistiu ao lançamento da primeira pedra do quartel dos Bombeiros Voluntários, à remodelação da Praça, alargamento do campo de jogos da A. D. Sanjoanense, início da construção da nova capela de Santo António e a outros apoios de menor vulto a instituições locais, onde se incluem as “anuidades” à Santa Casa da Misericórdia.
Essas contas e todo o bem que o Conde dispensou a S. João da Madeira, ao longo dos anos, foram feitas por Belmiro António da Silva que as publicou na edição de aniversário de “O Regional” de 1940. Tudo somado daria, em moeda atual, muitos milhões de euros.
Mantendo o ritmo de duas visitas por década, os Condes voltam a S. João da Madeira em 1939, ano em que António Dias Garcia comemora 80 anos de vida. Foi o momento escolhido para S. João da Madeira lhe prestar uma “grandiosa homenagem. “O domingo de 12 de Fevereiro de 1939 foi um dia em que o povo de S. João da Madeira prestou a homenagem máxima de sua gratidão ao grande benemérito sr. Conde Dias Garcia, inaugurando, com a maior solenidade e brilhantismo, numa praça pública que tem o seu nome”. É assim que começa a desenvolvida reportagem que “O Regional” publicou na sua edição número 446. A sessão solene decorreu bem perto do monumento, numa tribuna construída para o efeito. Tudo à volta é “Dias Garcia”: a casa onde nasceu, o palacete onde habita, a escola que mandou construir, o novo quartel dos Bombeiros Voluntários que começa a erguer-se com o seu importante contributo, até o fontenário de mármore e o cruzeiro da praça.
Os discursos de agradecimento ao Conde e o descerramento da estátua, obra do escultor Henrique Moreira, foram presenciados por numeroso público que, de forma espontânea e entusiástica, lançou “vivas” a António Dias Garcia e a “sua Excelentíssima Família”.
Dez dias depois, os Condes Dias Garcia e suas filhas, estavam de regresso ao Rio de Janeiro. O repórter de “O Regional”, sublinhava: “A despedida foi muito afectuosa e cheia de saudades. Um pormenor comovente: O sr. Conde Dias Garcia mandou parar o automóvel que estava já a transpor o portão do seu jardim, para sair e ir aonde? À ‘pequena’ e antiga casa onde nasceu, lançar o seu olhar de despedida”.
Em outubro desse mesmo ano, do outro lado do Atlântico, António Dias Garcia e seu sobrinho Manuel Leite da Silva Garcia intercedem junto do filho do Conde, Manuel Correia Dias Garcia (Nélito), no sentido de o levar a perdoar um empréstimo contraído pela A. D. Sanjoanense, sob hipoteca do seu campo de jogos, em 1926. Manuel Dias Garcia perdoou a dívida e sugeriu que a Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira ficasse sua proprietária, o que, como é sabido, não veio a acontecer. Em reconhecimento deste ato de generosidade, foi atribuído ao campo o nome de “Conde Dias Garcia”.
Na sua edição de 3 de novembro de 1940, “O Regional” veste-se de luto, para anunciar a morte do Conde, ocorrida a 29 de outubro, no Rio de Janeiro. Nos números que se seguiram, o jornal deu espaço a inúmeras manifestações de pesar, assinadas por aqueles que mais de perto lidaram com o grande benemérito, em nome pessoal ou enquanto responsáveis das instituições que o Conde apoiou em vida.

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