Opinião

fotografias com HISTÓRIA com fotografias - António Dias Garcia – o Conde benemérito (IV)

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Quando, em 1929, António Dias Garcia regressa a S. João da Madeira, fá-lo já com o título honorífico de “Conde”, concedido, um ano antes, pelo Papa Pio XI. Abrimos aqui um parêntese, para prestar esclarecimento sobre um erro que, reiteradamente, tem sido cometido.
O papa é, de facto, Pio XI e não Pio IX como é referido no livro “S. João da Madeira – Cidade do Trabalho”, de Maurício Antonino Fernandes. A gralha – só pode ter sido isso! – acabou por aparecer repetida em textos de autores que tiveram a obra por referência, como acontece, por exemplo, com a “Wikipédia”. Aliás, neste projeto de enciclopédia, baseado na web e escrito de maneira colaborativa, há outro erro para o qual chamamos a atenção dos leitores. Assim, onde se diz “Seu filho Manuel Dias Garcia, que, falecendo no Rio em 1937, quis que lhe colocassem na campa, terra de S. João da Madeira”, devia dizer-se “Seu irmão (…)”. Manuel Dias Garcia, que morreu naquele ano, com 57 anos de idade, era um dos 4 irmãos do Conde, pai de José e Luís Garcia, dois dos “heróis” do jogo da Taça La-Salette. Os outros irmãos chamavam-se José, Joaquim e Emília Dias Garcia. Fechamos parêntese.
O título honorífico foi-lhe atribuído por “sua Santidade” em função das inúmeras ações de generosidade e de benemerência até aí praticadas, em Portugal e no Brasil, designadamente o significativo contributo financeiro para a edificação do Cristo Redentor, no alto do morro do Corcovado, Rio de Janeiro, obra que haveria de ser inaugurada em outubro de 1931.
Se é verdade que a última receção à família Dias Garcia em S. João da Madeira foi discreta e a estadia de vários meses em terras lusas recatada, por terem acontecido no ano da morte do Visconde, em 1929 as coisas aconteceram de forma bem diferente. “O Regional” tinha anunciado a data da chegada dos Condes e de suas filhas, que voltaram a optar pelo comboio, bem mais cómodo do que as viaturas da época, por muito confortáveis que fossem. A vila engalanou-se e o povo acorreu em grande número à estação do caminho de ferro, onde a receção aconteceu em ambiente de festa e grande entusiasmo. Ali, formou-se um cortejo de vários carros, nos quais seguiam as entidades oficiais sanjoanenses, que acompanharam os Condes até ao seu palacete, com uma breve paragem nos Paços do Concelho, para a sessão de boas-vindas.
O acontecimento ficou registado em documentos fotográficos e cinematográfico, os primeiros da responsabilidade de Abílio Gomes, proprietário da “fotocerâmica” que tinha o seu próprio nome, o segundo da responsabilidade de Carlos Alberto da Costa, um jovem amador sanjoanense que realizava os primeiros filmes sobre motivos e acontecimentos da S. João da Madeira, com a sua “Kimano N 25”, em 35 mm. Esse formato permitia que as películas fossem projetadas no Cine-Teatro Avenida, propriedade de seu pai, Francisco Luís da Costa (Chico Folheteiro), com enorme sucesso junto do público, como se pode imaginar.
A foto que se publica ao lado, resulta da montagem de frames escolhidos do filme realizado por Carlos Costa, que mostram os momentos mais significativos da chegada e receção. Nela, infelizmente, não consta qualquer registo no interior do edifício da Câmara Municipal, muito provavelmente pela dificuldade de utilização de luz artificial. Seja como for, trata-se de um documento histórico de grande valor, que importa preservar.
Em jeito de legenda, de cima para baixo, a multidão que acorreu à estação, os Condes e as filhas atrás, o cortejo na sua passagem pela Rua Alão de Morais junto à velha capela de St.º António, o palacete decorado com as bandeiras de Portugal e do Brasil, o desfile de um grupo de alunas da “Escola dos Condes”, da Banda de Música, de populares e elementos da equipa de futebol da A. D. Sanjoanense e, por fim, a chegada do Conde à Câmara Municipal, acompanhado por António José de Oliveira Júnior (parcialmente visível na imagem) e pelo presidente Comissão Administrativa da Câmara Municipal, Benjamim Araújo.
No dia do septuagésimo aniversário do Conde Dias Garcia, a 2 de abril de 1929, a Câmara prestou-lhe uma “justissima homenagem”, enquanto intérprete dos sentimentos e apreço e gratidão do povo sanjoanense.
Apesar de a efeméride acontecer a uma terça-feira, as ruas voltaram a encher-se de gente que acompanhou a comitiva, formada pelos elementos da Comissão Administrativa e entidades convidadas, até ao palacete de Carquejido, onde foram recebidos pelos Condes. Durante a cerimónia, que decorreu no salão principal da vivenda, foram entregues a António Dias Garcia as insígnias da Ordem Instrução e Benemerência, com que o Governo da República condecorou o filantropo, e um “lindo estojo esmaltado”, com as armas do concelho. A primeira página de “O Regional”, de 7 de abril, traz uma desenvolvida reportagem da homenagem, que deixou o Conde “bastante comovido”.
A estadia ficou também marcada por um acontecimento que muito entristeceu a família Dias Garcia e todos os sanjoanenses em geral. Do Brasil, a 1 de junho daquele ano, chegou a notícia do falecimento da Viscondessa de S. João da Madeira, viúva do Visconde Albino Francisco Correia, sogra de António Dias Garcia e avó de Luísa Correia Garcia Dale e de Manuel Correia Dias Garcia (Nelito). D. Genoveva Marques Correia era irmã benemérita da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira e tinha sido alvo de uma homenagem promovida pela Mesa Administrativa da instituição, uma semana antes do seu falecimento.
A 11 de outubro, dia em que se comemorava o terceiro aniversário da emancipação concelhia, “os ilustres sanjoanenses e grandes benemeritos Condes Dias Garcia e suas gentis filhas” deixavam S. João da Madeira, com destino ao Rio de Janeiro.

(Continua)

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