
No dia 2 de janeiro de 1902, festeja-se na “Casa do Nixo” o aniversário de Genoveva Correia, esposa de Albino Francisco Correia e sogra de António Dias Garcia. O momento é aproveitado para ser feito o anúncio das obras de construção da escadaria que conduz ao adro da igreja matriz, do portão que lhe dá acesso e ainda a instalação de 60 lampiões para aumentar e melhorar a iluminação na zona central da freguesia. Tudo isto a expensas dos dois.
António Dias Garcia abriu ainda mais os cordões à bolsa para oferecer todo o mobiliário necessário à escola da Quintã, em construção num terreno oferecido por outro sanjoanense de “torna-viagem”, Benjamim José de Araújo. Os três assumem-se, no início do século XX, como os grandes beneméritos da terra. E como S. João da Madeira ganhou com as suas dádivas!
Esta característica de almas simples mas generosas, sempre dispostas a auxiliar os mais necessitados e a contribuir para o bem comum, valeu a Albino Francisco Correia a atribuição do título de Visconde, com que foi agraciado pelo Rei D. Carlos – “conhecedor dos seus méritos e do seu exemplar amor pátrio” –, em finais de janeiro de 1902.
Igual reconhecimento haveria de ser concedido a António Dias Garcia, ao ser-lhe atribuído o grau de “Comendador da Ordem de Instrução e Benemerência”, concedido pelo governo Português, sob proposta do ministro da Instrução Nacional, e, mais tarde, o título de “Conde”, concedido pelo Papa Pio XI.
Em 1906, dia 21 de outubro, na sequência de um parto “laborioso”, Maria Luísa Dias Garcia, esposa de António Dias Garcia e filha do Visconde de S. João da Madeira, morre no Rio de Janeiro, deixando órfãos de mãe os dois filhos do casal: Manuel Dias Garcia (Nelito) e Luísa Dias Garcia (Lilita), de 7 e 4 anos, respetivamente. O jornal Correio da Feira, na sua edição de 3 de novembro desse ano refere que “a notícia da morte da desditosa, que era ainda muito nova e possuia um coração diamantino, causou grande pezar não só nas pessoas de S. João da Madeira, como em todas aquelas que conheciam a infeliz senhora. Para suffragar sua alma celebraram-se, no dia 7º do seu falecimento, solemnes exequias, cujo religioso acto esteve muitissimo concorrido, assistindo as pessoas mais gradas d’esta freguezia, as creanças das escolas dos dois sexos, operarios e muitissimo povo. No fim da funebre cerimonia foram distribuidas esmolas pelos pobres na importancia de 5 libras”.
Passado o período de luto, António Dias Garcia retoma a vida. Conhece Carolina Maria Ferreira de Oliveira, filha de pais portugueses, nascida no Rio de Janeiro, em 1880. António e Carolina casam-se no início da primavera de 1909.
No final desse ano, os beneméritos comendador Dias Garcia e visconde Albino Francisco Correia têm programado o seu regresso a S. João da Madeira, para uma estadia que haveria de se prolongar por vários meses. Antes, porém, participam numa homenagem fúnebre à “desditosa” Maria Luísa, realizada do outro lado do Atlântico, conforme noticia o jornal “A Opinião”, bi-semanário de Oliveira de Azeméis, edição número 2.234: “Foi inaugurado solenemente no Rio de Janeiro e no salão do hospital dos Lazaros, a cargo da irmandade S. S. Candelaria, o retrato a oleo, de tamanho natural, da sua falecida bemfeitora, D. Luiza Correia Garcia, esposa do sr. commendador Antonio Dias Garcia e filha do sr. Visconde de S. João da Madeira, que se achavam presentes, e que, após o discurso do provedor, agradeceram aquella homenagem á memoria da fallecida”.
O palacete que António Dias Garcia tinha mandado construir três anos antes, no lugar de Carquejido, em terrenos contíguos à humilde casa onde nasceu, encontrava-se pronto a habitar. O Comendador quis que a sua “inauguração” acontecesse, no dia 2 de abril de 1909, data em que completou 50 anos de vida. Sempre generoso e pródigo na distribuição de benefícios à sua terra e aos mais desfavorecidos, ordenou, telegraficamente, que o seu aniversário fosse comemorado com a distribuição de um “abundante jantar a cinquenta pobres necessitados e mais 1.000 réis a cada um deles”, satisfazendo, assim, os anseios da sua alma verdadeiramente filantrópica. Igual benemerência foi praticada, por altura do 11º aniversário do seu filho Nelito, a 8 de maio do mesmo ano, com a distribuição de “onze esmolas importantes” a outras tantas crianças da freguesia e a oferta de um jantar aos internados do “Azylo d’Oliveira de Azemeis”, realizado naquele dia festivo.

A 21 de outubro de 1909, António Dias Garcia, acompanhado pela esposa e filhos do primeiro casamento, sai de Lisboa, onde se encontrava há alguns dias a descansar da longa viagem transatlântica, a bordo do paquete alemão “Cap Arcona”. A viagem para S. João da Madeira é feita, como habitualmente, pelo caminho de ferro. Porém, desta vez, o transbordo não se faz em Ovar, mas sim Espinho, onde um “comboio especial” os conduz “à porta de casa”, graças à novíssima e encantadora linha do Vale do Vouga, inaugurada um ano antes pelo Rei D. Manuel II.
Na estação de S. João da Madeira, esperam-nos as forças vivas da terra, amigos e muitos populares. Entre entusiásticas aclamações e os acordes da Banda de Música local, a família é acompanhada até à sua vivenda, ornamentada a preceito para a receção aos proprietários, de onde se destacam, hasteadas lado a lado, as bandeiras de Portugal e do Brasil. (continua)
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