Opinião

fotografias com HISTÓRIA com fotografias - Albino Francisco Correia – Visconde de S. João da Madeira (IV)

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A promessa anunciada pelo Visconde e seu genro, António Dias Garcia, de estarem presentes na inauguração dos melhoramentos da igreja matriz de S. João da Madeira, suportados por ambos, só pôde ser cumprida em 1909. Nos sete anos que medeiam entre a longa estadia na sua terra natal em 1902 e esta data, muita água correu debaixo da ponte.
No Rio de Janeiro, onde vivem e desenvolvem os seus negócios de confeitaria, ferragens, tintas, entre outros, continuam a fazer sentir a sua benéfica influência, com os seus nomes profundamente ligados a instituições associativas e caritativas, tais como a Caixa de Socorros D. Pedro V, Associação dos Varejistas do Rio, Real Gabinete Português de Leitura, onde desempenham cargos de relevo. Sobra-lhes, por isso, pouco tempo para atividades de lazer.
Mesmo assim, Albino Francisco Correia e António Dias Garcia, acompanhados pelas respetivas esposas, Genoveva Marques Correia e Luísa Correia Garcia (Lili), decidem embarcar numa aventura que os levou até Montevideu, com passagem forçada por Buenos Aires, para uma visita ao irmão do Visconde, José Francisco Correia.
D. José – como era conhecido naquelas paragens o anfitrião – é um fazendeiro de sucesso e dono de uma propriedade “com uma légua e meia quadrada”, o que equivale, aproximadamente, a 7,5 Km2. A descrição pormenorizada da aventura, que durou cerca de um mês, foi feita pela mão do próprio Visconde, em carta de 15 páginas enviada ao irmão Francisco, com data de 30 de dezembro de 1905.
Menos de um ano depois, numa altura em que o Visconde prepara a programada viagem a Portugal, a família é surpreendida pela morte prematura e inesperada de Luísa Correia Garcia. Uma péssima notícia também para a população sanjoanense, enviada por telégrafo e que o jornal “Correio da Feira”, na sua edição de 3 de novembro de 1906, reproduziu assim: “Devido a um parto laborioso falleceu no Rio de Janeiro a sr.ª D. Luiza Correia Garcia, extremosa filha dos srs. viscondes de S. João da Madeira e virtuosa e dedicada esposa do sr. Antonio Dias Garcia, abastado capitalista d’esta freguezia e respeitável negociante na cidade fluminense. A notícia da morte da desditosa, que era ainda muito nova e possuía um coração diamantino, causou grande pezar não só nas pessoas d’esta freguezia, como em todas aquellas que conheciam a infeliz senhora”.
Ainda a lamberem as feridas deixadas pela trágica morte da filha e esposa, Albino Correia e António Garcia não estiveram presentes, como era desejo de todos, na inauguração dos melhoramentos da igreja matriz e bênção “das novas escolas”, em novembro de 1907. Por sua vontade, o programa foi cumprido e coube à junta da paróquia prestar “respeitosa homenagem aos grandes e illustres benemeritos”, descerrando os retratos “em tamanho natural” dos viscondes de S. João da Madeira, na sacristia da igreja. Na Quintã, procedeu-se à bênção do novo edifício escolar. Discursaram o abade da freguesia, padre Oliveira, e António de Oliveira Júnior. Foram recordados os beneméritos falecidos, Lili Correia e dr. Maciel Araújo, e alguns alunos recitaram poemas, entre eles “Momentos arrazados”, dito pelo “menino João da Silva Corréa”, sobrinho do Visconde.

Primeira página da carta enviada pelo Visconde ao irmão Francisco.

A 8 de setembro de 1909, Albino Francisco Correia, visconde de S. João da Madeira, então presidente do Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro, viajou para Portugal, acompanhado pelo genro. Na bagagem trazia o “diploma de protetor perpétuo daquela importante associação portuguesa, para entregar ao rei D. Manuel II, título que lhe foi conferido, por aclamação, em assembleia geral da instituição”, bem como uma elevada quantia em dinheiro angariada pelo Real Gabinete no Brasil, para acudir às vítimas do terramoto do Ribatejo (sismo de Benavente), ocorrido em abril daquele ano.
Por seu lado, António Dias Garcia – recentemente agraciado com a comenda da Ordem de Instrução e Benemerência, concedida pelo Governo Português – viajou só, de Lisboa para S. João da Madeira, onde foi recebido por familiares e amigos, numa manifestação de alegria e, ao mesmo tempo, de tristeza, pela perda da mãe dos seus filhos, Nelito e Maria Luísa. O comendador ficou instalado, pela primeira vez, no palacete que mandara edificar, no “alto da Vista Alegre”.
No dia 7 de novembro de 1909, a igreja matriz engalanou-se para o “Te-Deum” e sessão que a junta da paróquia “celebrou, em homenagem aos ex.mos srs. visconde de S. João da Madeira e comendador António Dias Garcia”, conforme notícia inserta no jornal “A Opinião” nº 2.283, de 11 de novembro do mesmo ano, onde se lia ainda que “a concorrência era enorme e selecta, vendo-se alli o que de mais distincto havia na primeira sociedade sanjoanense”, seguindo-se uma extensa lista de nomes. Estava, assim, consumado o preito de gratidão aos dois beneméritos (na sua presença), pelos muitos benefícios prestados a S. João da Madeira.
Nos anos que se seguem, Albino Francisco Correia, visconde de S. João da Madeira, continuará a ser “uma alma simples mas generosa, um verdadeiro cofre aberto para amparo dos pobres e necessitados, entre os quais se salientaram as vítimas da 1ª Grande Guerra” sem nunca esquecer “a sua benquista Terra Natal, contribuindo generosamente para a fundação do Hospital da Misericórdia”, como refere Antonino Maurício Fernandes, em “S. João da Madeira – Cidade do trabalho”.
Faleceu, no Rio de Janeiro, onde se encontra sepultado, a 29 de janeiro de 1923.

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