fotografias com HISTÓRIA com fotografias - Albino Francisco Correia – Visconde de S. João da Madeira (II)

Em março de 1902, o número 9 do “Jornal de Cintra” – publicação da então vila de Sintra – trouxe à primeira página um artigo em homenagem a Albino Francisco Correia, pouco tempo antes agraciado pelo rei D. Carlos I, com o título de Visconde de S. João da Madeira.
A transcrição da parte inicial dessa peça jornalística, mantendo a grafia da época, foi feita no número anterior deste jornal, sendo publicada, agora, a parte final.
“De 1878 a 1895, sempre que a epidemia da febre amarella assolou a capital fluminense, o estimado comerciante, hoje visconde de S. João da Madeira, estimulado pelos brios altruístas, fortemente impressionado com os horrores do flagelo, encetou verdadeiras tarefas de piedade e abnegação, acudindo pessoalmente a grande numero de pessoas diariamente attingidas pela molestia, servindo-lhe de enfermeiro, socorrendo-as de prompto, e gratuitamente, com remedios homoepathicos, de reconhecida efficacia e seguidamente aplicando-lhe os receitados pelo seu particular amigo e abalisado clinico o dr. Saturino Soares de Meyrelles. A este prompto e animoso socorro muitos infelizes deveram a vida que, sem elle, irremediavelmente perderiam.
E o que é mais de louvar é que n’esta santa cruzada de amor ao proximo, o visconde de S. João da Madeira jamais fez excepções. Com igual solicitude e caridade acorria a prestar os seus serviços aos enfermos, quer eles fossem portuguezes, isto é, – seus compatriotas, – quer fossem brazileiros, hespanhoes, italianos ou de qualquer outra nacionalidade.
Este adoravel cosmopolitismo, este abnegativo esquecimento de si mesmo, este eloquente exemplo de fraternidade evangelica, valeram-lhe grandes sympathias e invejavel notoriedade na grande capital sul americana.
Chamado a occupar importantes cargos em algumas das mais benemeritas instituições de assistencia publica, do Rio de Janeiro, d’elles se desempenhou com bisarra galhardia.
Assim, em 1885, fez parte do Conselho da Caixa de Socorros de D. Pedro V, prestando-lhe taes e tão relevantes serviços que, em signal de reconhecimento, lhe foram conferidos o titulo de socio benemerito e o diploma e a insignia da Cruz Humanitaria.
Havendo feito tambem varios donativos pecuniarios à Sociedade Portugueza de Beneficiencia do Rio de Janeiro, e feito, a expensas do seu bolso, na qualidade de conselheiro mordomo, todas as desezas das dietas dos doentes durante um mez (despeza que se elevou a alguns contos de reis) a directoria e conselho diblerativo da sociedade julgaram dever egualmente conferir-lhe o diploma e a insignia da Cruz Humanitaria , bem como o Livro de Ouro, distincções estas que representam a homenagem maxima do apreço em que são tidos os serviços dos seus bemfeitores.
A grande numero de irmandades e confrarias pertence tambem o sr. Visconde de S. João da Madeira, sendo em todas ellas muito estimado e desejada a sua presença.
Em 1877 o sr. Visconde de S. João da madeira desposou a Ex.ma Sr.ª D. Genoveva Marques Correia, dama brazileira por nascimento, mas por seus paes, de origem portugueza. Em sua illustre consorte vê o sr. Visconde de S. João da Madeira, a par da formosura, as qualidades adoraveis da mulher menagère, aquellas que dão direito a chamar-lhe em linguagem portugueza – uma boa dona de casa, sabendo educar os filhos com o exemplo da honestidade e das mais rigidas virtudes christãs, sobredouradas com os primores de uma educação esmeradissima. Impossivel nos seria descrever aqui a affeição intima, pura, inalteravel, que, por egual, professam o nobre culto da familia e a ella estremessem profundamente.
E este affecto pelos que lhe são caros, estende-se aos seus conterraneos. Zeloso pelos interesses publicos da freguezia que lhe foi berço, melhorou, a expensas suas, a egreja onde recebeu a agua lustral, doando os precisos terrenos para alargamento do adro, projectando ainda dotar o templo com um bello orgão, bem como a povoação com outros melhoramentos materiaes de reconhecida necessidade.
A um homem d’estes, de tão exemplar amor patrio, de tão edificante humanitarismo e phylantropia não podia o Estado ficar indiferente. Por isso o actual governo Portuguez, officialmente informados dos serviços e meritos de tão prestimoso cidadão, levou á sancção régia o decreto que lhe conferiu o titulo de visconde de S. João da Madeira, na desculpavel intenção de, à falta de outro mais valioso meio, secundar os preitos e homenagens, que entidades mèramente particulares, antes lhe haviam conferido.
E’ claro que o ex.mo sr. Albino Francisco Correia desde que se assigna visconde de S. João da Madeira não tem nem adquiriu novos nem maiores valimentos, que os possuidos no tempo em que escrevia singellamente o seu nome. Isto sabe o novo titular e d’isso legitimamente se orgulha. Aristocratisando-se, ou para melhor dizer, deixando-se aristocratisar, fê-lo, a despeito da sua vontade e da sua medestia, e depois de grande reluctancia, sómente por não querer deixar de comprazer com amigos e conterraneos dilectos que, reiterandosuas instancias, por melindrados se dariam, se a recusa se tornasse formal, inabalavel.
Que, de resto, nobre e bem nobre, – pelo coração e pela bondade, – já o era de ha muito o ex.mo sr. Albino Francisco Correia, bastando-lhe, para authenticação dos pergaminhos d’essa salutar nobreza, o alto conceito que no Brazil cerca o seu nome, profunda e geralmente bemquisto”.
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