Opinião

fotografias com HISTÓRIA com fotografias - A epopeia de José Luís da Silva - II

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José Luís não soçobrou perante a situação precária em que se encontrou, do dia para a noite e de forma inesperada. Dirigiu-se à Rua do Mercado, no centro do Rio de Janeiro, onde o sr. Rainho tinha a sua casa de negócios. Ao vê-lo, o proprietário perguntou: “O que andas fazendo?”. “Procurando emprego!”, respondeu-lhe José Luís.
Rainho não lhe deu o que procurava. Em vez disso, sugeriu-lhe que abrisse uma loja: “Não precisas de muita coisa. Só a casa e nada mais. Na esquina da Rua Dom Carlos com São Januário 123, está lá o sr. Bernardino que entrega a casa com o pouco que lá tem, por 3.500 réis”. Com o dinheiro que José Rodrigues Rainho lhe emprestou, José Luís fechou o negócio.
Depois de limpas as instalações e de o espaço se encontrar sortido com tudo o que exigia a atividade de “secos e molhados”, o armazém abriu com o nome de “Casa Victoria de José Luiz da Silva Carneiro & C.”. Francisco deixou o sr. Mathias e veio juntar-se ao irmão, de quem passou a ser sócio. Poucos meses depois, José Luís saldava as contas com o sr. Rainho e ficava em dia com os pagamentos aos fornecedores.
Era a altura ideal para pedir Eugénia em casamento. Em meados de maio de 1897, formulou o pedido numa carta enviada aos pais da noiva. Porém, “no ultimo domingo de Maio, como de costume, estivera em sua casa, e como nada me dizia sobre a carta, deixei de fazer as minhas ligeiras visitas diárias à noitinha. No fim de 4 ou 5 dias, quando passou pelo meu armazém, como fazia diariamente, perguntou-me ‘– O que há, não tens ido lá a casa?’ … ‘– Nada, não Senhor, mandei-lhe uma carta, não tive resposta, entendo que não deva voltar, continuarei a gostar de todos, mas não desejo ser empecilho de ninguém’”.
A resposta à carta só não fora dada, porque José Rodrigues Rainho e sua esposa D. Geminiana entendiam que Eugénia era ainda muito nova – 17 anos – e ele, com três anos mais do que ela, não era ainda de maioridade (*), pelo que deveriam esperar mais algum tempo.

Os irmãos Francisco e José, nos armazéns “José Rainho”

“Se for de seu gosto e de D.ª Geminiana e da vontade de Eugenia, nós estamos em maio e o nosso casamento fica desde já marcado para daqui a um ano.”
A boda realizou-se na Confeitaria S. Francisco de Paula, no largo do mesmo nome, a 21 de maio de 1898.
Os anos que se seguiram foram de enorme felicidade para o jovem casal, apenas interrompida pelo falecimento de José Rodrigues Rainho. Em homenagem ao sogro, José Luís da Silva Carneiro adotou o nome Rainho, em detrimento de Luís – que, à época, se escrevia Luiz – passando, desde então, a chamar-se José Rainho da Silva Carneiro.
A “Casa Victoria” fechou portas e as atenções do negócio concentraram-se nos grandes armazéns erguidos pelo pai de Eugénia, cuja irmã mais nova, de seu nome Zulmira, viria a casar com Francisco Luís da Silva.
Duas irmãs casadas com dois irmãos, família e sociedade reforçada, portanto.
Com a vida estabilizada, com maior disponibilidade financeira e de tempo, José deu novo impulso aos projetos e atividades de bem-fazer em que se tinha empenhado desde os 17 anos. “Sentindo no seu coração generoso a mágoa dos que, como ele, chegavam à terra prometida ao sabor da sorte e desprovidos dos mais elementares conhecimentos de instrução e experiência para enfrentarem o desconhecido, começou a ocupar-se, nos seus tempos livres, em várias instituições de solidariedade, para dar apoio aos emigrantes mais carecidos”, como referiu José Duarte, numa crónica publicada n’O REGIONAL, em 1990.
Essa prática, que se tornou uma espécie de obsessão, acabaria por justificar o título de cidadão honorário do Rio de Janeiro que lhe foi atribuído e, desse modo, possuir a dupla nacionalidade.
Foi com o estatuto de “brasileiro adoptivo” que lhe foi conferido o passaporte com que viajou para a Europa, em 1911, a bordo do paquete “Orcoma”, acompanhado da esposa e dos filhos Judith (11 anos), Margarida (8 anos), Octacílio (6 anos), José (4 anos), Eugénia (2 anos e meio) e Domingos (1 ano). Da comitiva, faziam ainda parte a cunhada, Olga Rainho, e duas criadas. Sobre esta viagem, Alfredo Rainho, neto de José Rainho da Silva Carneiro, escreveu: “Vovô tinha uma situação financeira muito boa para viajar com tanta gente.
Contava que levava uma carta de crédito que apresentava nos bancos e podia retirar o que quisesse. Talvez fosse uma espécie de cartão de crédito da época, mas não era para qualquer um.”
O “Orcoma” chegou a Lisboa no dia 12 de abril de 1911. O séquito ficou instalado no Hotel Francfort e, depois de uma semana na capital, rumou a S. João da Madeira. Vinte anos depois, José voltava a ver a sua terra natal, a abraçar a família e os amigos que aqui deixara.
(*) À época, a maioridade – idade em que se está legalmente no gozo dos direitos civis – era aos 21 anos.

(Continua)

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