Opinião

Entre um cinema paraíso e um cinema perdido: haja vontade política

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Por insolvência ou falta de manutenção, o encerramento do cinema comercial da cidade parecia, há algum tempo, inevitável. Sem investimento na dignidade das salas, resolvendo os crónicos problemas de climatização, a fruição cinematográfica estava condenada.
Não sendo a primeira vez que São João da Madeira fica sem cinema, a transformação nos hábitos de consumo impacta cada vez mais neste peculiar setor. O cinema é, simultaneamente, arte (dimensão estética), dispositivo e tecnologia (dimensão técnica) e media (meio de comunicação). Assume, desde os primórdios, uma forte dimensão social que emerge a partir do ato de ir ao cinema e frequentar a sala, fazendo parte de um público (conjunto de pessoas). Acresce o contexto internacional das últimas décadas com o surgimento das indústrias culturais e a grande concentração de Hollywood; e um contexto nacional marcado por instabilidade e hesitações na implementação de políticas culturais, com concentrações nos apoios à produção e na distribuição. Aos desafios do cinema, juntam-se ainda os estereótipos subjacentes ao cinema português, enquanto a escola pública vacila no seu potencial de educação do olhar (não há cinema nos currículos).
O encerramento do cinema de S. João da Madeira não é um acontecimento isolado - e isso não tem que ver só com a insolvência de um privado. A questão é profunda e tem enquadramento num modelo de políticas no qual o setor público se encontra afastado das suas responsabilidades de Estado Social, designadamente na democratização do acesso à cultura, neste caso, ao cinema, cuja distribuição é amplamente desigual no território português.
A insolvência da Cineplace reforça a situação de monopólio da distribuição de cinema no país. A inércia das políticas públicas não contribui para a democratização ambicionada pelos discursos políticos. Há, neste setor cultural, uma estrutura de dominação que beneficia, não raras vezes, o audiovisual (técnica) em detrimento do cinema (arte, técnica, media). Por isso, há quem defenda, na academia e no setor cinematográfico, a divisão do ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual) num Instituto para o cinema e outro para o audiovisual.
Ora, se a regulação na distribuição asseguraria o acesso, o recurso ao potencial da escola e, particularmente, do Plano Nacional de Cinema (com um reforço do investimento neste programa), contribuiria para a literacia fílmica e o desenvolvimento intelectual, artístico e crítico de crianças e jovens. Até porque as salas de cinema sem pessoas servem de pouco e a escola pode alargar horizontes aos consumos cada vez mais individualizados (por força do uso de ecrãs domésticos e plataformas de streaming).
Ainda assim, dados de 2022 sobre práticas culturais dos portugueses indicam que o cinema é uma atividade cultural com participação elevada e entre as razões para não se ir mais ao cinema está, sem surpresa, a ausência de salas perto da zona de residência. É, portanto, às políticas públicas que cabe a redução dos desequilíbrios sociais. O papel das autarquias é fundamental. Urge que as políticas culturais sejam pensadas setorialmente e que o cinema encontre o seu espaço nas políticas autárquicas, considerando o acesso à fruição, o incentivo ao espírito crítico e a democratização de novas cinematografias, num modelo em que a sala de cinema também promova sociabilidades.
A questão de S. João da Madeira ganha contornos específicos, tendo em conta a obrigatoriedade do centro comercial ter salas de cinema definidas aquando a compra do terreno, como noticiou ‘O Regional’, na edição de 29 de janeiro. Porém, isto, por si só, não resolve e até pode acentuar o desafio da concentração da distribuição, que colocará sempre em causa o direito à fruição cinematográfica, fragilizando territórios e reforçando desigualdades socioculturais.
Assim, este é, também, o momento do município pensar que políticas setoriais pretende para o cinema no concelho, se as pretende e com que objetivos as pode implementar. Há salas e projetos na cidade. Há pessoas (públicos). Há cinematografias diversas para democratizar. Há filmes a estrear e muitos, já estreados, por visualizarmos e debatermos. Haja, portanto, vontade política que acompanhe as expectativas e necessidades da cidade e da sua população, repensando hábitos e dinâmicas.

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