
Nesta cidade onde os chapéus e sapatos ainda contam histórias e as chaminés desenham memórias no céu, ergueu-se uma nova voz — clara e inquieta, que não esperou pelo futuro: construiu-o, no ano letivo de 2017/2018, através de um projeto: A Assembleia Municipal Jovem de S. João da Madeira (AMJ).
Desde então, há passos pequenos que ecoam na sala do fórum municipal onde se realizam as sessões de Assembleia, aquela que, povoada pelos “grandes”, ouviu pela primeira vez as ideias e propostas de jovens deputados.
Foi a palavra que aprendeu a ser ponte, o debate que ensaiou democracia, o gesto simples de levantar a mão para dizer: “Também é meu, este lugar”.
Assim nasceu a AMJ, simbiose entre dois órgãos do município (Assembleia Municipal e Executivo Camarário), entrosados num objetivo comum: trabalhar a cidadania, não como ensaio a distância, mas presente ativo, onde cada proposta foi semente, floresceu e deu origem a muitos frutos, nascidos e timonados pela “Mãe Árvore Clara Reis”.
Ao longo das suas nove edições e até ao momento, mais de três centenas e meia de alunos das escolas do nosso concelho, desde o 4.º ano de escolaridade até ao 12.º ano, encheram assembleias com questões e propostas, pensadas e preparadas por eles.
Sabemos que a aprendizagem da cidadania é um dos pilares fundamentais da formação dos jovens numa sociedade democrática. Mais do que conhecer direitos e deveres, ser cidadão implica participar ativamente na vida da comunidade, respeitar os outros, compreender o funcionamento das instituições e contribuir para o bem comum. Num contexto em que a participação cívica enfrenta desafios como a desinformação e o afastamento dos jovens da política, é essencial promover experiências educativas que aproximem as novas gerações dos processos democráticos. Neste enquadramento, este projeto é, garantidamente, um exemplo sério e concreto.
E se a escola desempenha um papel central na educação para a cidadania, por vezes (e de forma justificada) descurada por (fortes) argumentos de falta de tempo para o cumprimento dos conteúdos curriculares, da preparação dos alunos para as avaliações, … é facto que, nas aprendizagens para além do currículo, os alunos desenvolvem competências como o pensamento crítico, a capacidade de argumentação, o respeito pela diversidade de opiniões e a capacidade de tomada de decisão. Essa aprendizagem ganha robustez quando os jovens aplicam, na prática, os conhecimentos adquiridos.
É nesta premissa que continua (e muito bem!) esta iniciativa a aproximar os estudantes do ensino básico e secundário à realidade autárquica, simulando e integrando estruturas reais de participação política.
E é assim que tem de ser. Este projeto proporciona aos jovens a oportunidade de apresentar propostas, debater ideias e participar em sessões que replicam o funcionamento das assembleias municipais. É importante que os alunos discutam temas relevantes para o concelho e exercitem a prática democrática, desenvolvendo competências cívicas e sociais, espírito crítico, fundamentação de opiniões e trabalho em equipa.
Sobretudo, treinam a escuta ativa e o respeito por posições diferentes daquelas que defendem. Aprendem a desmistificar “a política” e percebem que esta não se resume a partidos ou eleições nacionais, mas inclui decisões locais que influenciam diretamente o quotidiano dos cidadãos — desde a organização de espaços públicos até à promoção de atividades sociais, educacionais, culturais e ambientais.
Ficam, assim, mais ligados à nossa terra, ao país e ao mundo.
A AMJ é a prova de que é possível envolver os jovens na vida democrática. Aprendizagens que se complementam, no final do ano letivo, com a visita à Assembleia da República e a outros locais de lembrança e exercício da liberdade.
É que os jovens não são apenas o futuro, mas também agentes da sua mudança no presente. Por isso é preciso ouvir as suas perguntas e dar as devidas respostas. Ganha a nossa cidade.
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