
A obra “Oliva: A História por Contar 1925-2010” escrita por Catarina Moreira, historiadora, e coordenada por João Brandão, administrador da empresa ERT, transcende a celebração do centenário da Oliva, surgindo como uma oportunidade de perpetuar a sua história industrial e demonstrando o pendor humano da empresa, para alguns, o lado menos conhecido.
A sua edição surgiu em 31 de julho e a curiosidade na sua leitura, ficou inerente quando tive acesso ao tomo. Um design “retro”, com ausência de cor na capa e sem a comum lombada, estando à vista a cola e os fios a prender os sucessivos cadernos, causou uma certa perplexidade. A primeira vista de olhos, isto é, folhear sem ler, para apreciar as imagens publicadas, o tipo de letra e o modo como os conteúdos preenchem as páginas, ainda me deixaram mais inquieto, sobretudo, pela ideia de estarem disponíveis pouca imagens, tornando o livro, evocativo de um centenário, menos gráfico e assemelhando-se muito a um relatório, com indicação sucessivamente das fontes, a preencherem os rodapés das páginas.
Entretanto, iniciei a leitura. Após o prefácio percebi que a estranheza inicial estava ultrapassada e com voracidade entranhei na cronologia da empresa, procurando recordar os momentos da época visada e sobretudo, encontrar nomes de pessoas que por lá trabalharam e com as quais, os laços afetivos dos meus familiares eram imensos.
Ao longo dos vários capítulos surgem informações destacadas, pequenas janelas, com o título “Sabia que…”, uma preciosidade gráfica, que ajuda o leitor a fixar alguns factos da história da metalúrgica, conferindo um interesse acrescido ao livro, o que veio a alterar a minha primeira impressão.
A ascensão da empresa é narrada com o devido destaque, desde as primitivas oficinas metalúrgicas fundadas por António José Pinto de Oliveira, em 1925. O livro explora o desenvolvimento das unidades de produção que foram a espinha dorsal da Oliva, como a Fábrica da Máquina de Costura Portuguesa, que alcançou um domínio notável no mercado nacional, e a Fábrica de Tubos, que se estabeleceu como um setor de representatividade considerável. Esta vertente de produção é apresentada lado a lado com a audácia comercial que permitiu à Oliva prosperar, estabelecendo-se como uma força incontornável na indústria metalúrgica.
A Oliva foi muito mais do que um centro de produção: a sua dimensão social é um dos aspetos mais notáveis do seu percurso. A empresa cultivou um forte laço com a sua comunidade através da criação de instituições de cariz socioeconómico que assistiam os seus funcionários. O livro detalha a importância da Fundação Oliveira Júnior, do Centro de Cultura e Recreio Oliva e da Cooperativa do Pessoal da Oliva, que privilegiavam aspetos recreativos, desportivos e culturais, proporcionando uma rede de convívio e de apoio, como a possibilidade de abastecimento, que era rara na época e que contribuía para a forte identidade da Oliva no contexto de São João da Madeira.
A faceta do mecenato da Oliva revela outro lado menos conhecido da empresa, mas de enorme relevância para o seu legado cultural. A obra destaca a sua participação em iniciativas como a restauração de uma igreja do século XVII, no concelho de Sátão, demonstrando o seu compromisso com a preservação do património. Em paralelo, o conceito de Turismo Industrial é abordado, sublinhando a inovadora prática de abrir as suas portas a visitas, uma ação que remonta a um período em que tal prática era incomum. Este “franquear de portas” foi uma forma de a Oliva mostrar a sua grandeza e de se conectar com a comunidade e o público em geral.
Um dos capítulos mais singulares do livro é o “Correio de Guerra”, que relata um tocante tema do passado. O livro dá a conhecer as vivências de muitos funcionários da Oliva que participaram na guerra colonial portuguesa, um período conturbado da história de Portugal que a empresa soube honrar. Este capítulo demonstra como, mesmo em pleno conflito armado, a identidade da empresa era tão forte que os seus gestos de apoio e a sua ligação aos funcionários se tornaram um símbolo da sua grandiosidade.
A segunda parte do livro é dedicada à “Queda de um Império”, descrevendo as complexas dinâmicas que levaram ao desmantelamento gradual da empresa. Aborda-se o legado e as contribuições do fundador para a cidade, bem como o seu percurso após sair da empresa. O livro explora a nova fase sob a gestão de João Cebola e a sua relação com a ITT - International Telephone and Telegraph Corporation, descrevendo os apoios financeiros e os desafios surgidos. A história da queda é apresentada como uma odisseia fiscal e de gestão, que comprometeu a estabilidade de uma empresa outrora tão sólida.
Antes do final, um capítulo para as dificuldades de resolução da questão ambiental, causando muitos transtornos aos moradores em áreas limítrofes, assunto não esquecido e bem documentado no livro, demonstrando como a preocupação com a saúde da população prevaleceu.
O derradeiro capítulo, “O Fim”, descreve de forma comovente o desmantelamento progressivo da Oliva e o seu encerramento. O texto foca-se no drama vivido pelos trabalhadores, que viram os seus postos de trabalho em risco e que, em muitos casos, foram os únicos a acreditar na possibilidade de a empresa ser viabilizada até ao fim. Este capítulo final serve como um tributo à lealdade dos últimos funcionários e como um ponto de reflexão sobre a complexidade da história industrial portuguesa.
Se dúvidas houvesse, sobre a importância da Oliva no desenvolvimento de São João da Madeira, este livro dissipa-as. Pelo número de empregos criados, pela fixação de várias famílias na cidade, pela qualificação dos empregos, pela inovação industrial, pela capacidade de criar uma marca - lançando vários produtos - e pela dimensão comercial alcançada no mercado nacional, com grande visibilidade em várias cidades, permitindo à localidade ser reconhecida, não apenas pela produção maciça de produtos (chapéus e calçado), mas pela marca Oliva, com contributos neste particular dos produtos da Sanjo, Viarco e Molaflex.
Qual o futuro das antigas instalações da metalúrgica, abandonadas e em ruínas, será o próximo capítulo desta história centenária?
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