Opinião

Alvorada - O comboio para o Porto

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As minhas recordações do comboio que atravessa São João da Madeira são as comuns: ir até Espinho na adolescência, quer para passear, quer para fazer incursões na feira, quer para ir à praia ou até mesmo ao futebol.
Da linha recordo outras imagens, o comboio movido a carvão a surgir junto à Escola Preparatória Alão de Morais, que provocava uma excitação na pequenada, colocando a maioria dos alunos encostados à cerca da escola e como o maquinista fazia por tocar a sirene, atiçando os petizes, alguns mais afoitos corriam atrás das composições pela linha fora - parecendo o descrito numa aventura de Mark Twain - e voltavam uns minutos depois, contando a sua peripécia, que não passava de uma correria sem atingir qualquer fim, só que naquela idade significava uma coragem que os temerários não ousavam imitar.
A coragem era conquistada aos poucos, um ato de rebeldia era entrar pela Estação e percorrer sobre os carris o percurso até à passagem de nível. Nem a história do acidente, ou suicídio, precisamente naquele percurso, nos fazia desistir das intenções e durante meses avistamos sinais do desmembramento do corpo, permanecendo calados para não ouvirmos qualquer reprimenda.
Como a primeira morada da minha família em São João da Madeira foi precisamente nas imediações da Estação do Caminho de Ferro, existiu sempre uma memória positiva desse espaço. Recordações que ouvi aos mais próximos e de primos mais velhos que passavam umas temporadas com os tios, ainda à espera do primeiro filho. Eu nasceria anos depois, já os meus pais se tinham mudado para a então Rua Marechal Carmona, hoje Rua da Liberdade, onde a minha mãe ainda habita.
Recordo igualmente o som do apito do Vouguinha, que ouvia nas tardes de fim de semana e significava horas de brincadeira em apartamentos de amigos que viviam na encosta próxima à linha e sobretudo demonstrava a quietude da povoação em momentos de descanso, como anos depois pude constatar, quando vivi na zona do Calvário.
Nos primeiros anos de atividade profissional, na denominada Bertrand Faure, descobri outra utilidade para o comboio, com colegas a chegar de Espinho, perto das oito horas e trinta minutos e umas dezenas a vir do sul, para entrar ao trabalho pelas catorze horas.
Como tenho a minha vida centrada a sul do Douro, cruzo-me diariamente com a linha do Vale do Vouga, numa passagem de nível sem cancela e por vezes, coincido com o comboio. Por curiosidade, ponho-me a contar o número de passageiros e quase sempre fico dececionado, exceto nas tardes de verão, nas quais o Vouguinha transporta muitos adolescentes até à praia. Percurso que também incentivei os meus dois filhos a fazerem, na iniciação à utilização de transportes públicos nas horas de lazer e que significando uma repetição geracional, muito diz sobre o estado a que a linha chegou.
Apresentaram-se vários estudos: ideias sobre o aproveitamento turístico, sobre as bitolas aconselháveis, sobre a eletrificação, sobre a amputação de trajetos, sobre a bilhética, sobre a inserção no Andante, contudo, só continua a mover-se no Vouguinha diariamente quem não tem outra solução ou quem tem tempo disponível para deslocar-se tão devagar, para chegar a Espinho e voltar passado umas horas, como é o caso dos estudantes em férias de verão.
O comboio foi sinal de progresso na passagem para o século XX, movido a carvão, trazia novidades, forasteiros e permitia aos locais contactar com outras mentalidades e sobretudo permitia viajar. Uma era anterior à proliferação do plástico, onde o automóvel próprio era privilégio de alguns. As necessidades dos tempos trouxeram mudanças de locomotivas com outros combustíveis que permitiram aumentar velocidades de deslocação e aproximar ainda mais os destinos.
Foi aqui que o Vouguinha permaneceu.
Não acompanhou o tempo, em que o acesso ao automóvel próprio ficou facilitado, a rede de estradas e sobretudo de autoestradas melhorou bastante e os destinos laborais ou de estudo adquiriram uma geografia diferente, caraterísticos da inserção desta região na área metropolitana do Porto.
A circulação rodoviária passou a ser preferencial, com oferta de soluções em transportes coletivos que satisfazem melhor as necessidades da população, incluindo adaptações às melhorias introduzidas, como as ligações à paragem mais a sul do metro do Porto, um transbordo que permite ganhar tempo de viagem e alcançar a estação da Trindade, que é o cerne do metropolitano na cidade invicta. Por estes dias, a inauguração do terminal intermodal de Campanhã ofereceu novas oportunidades, como a criação de rotas diretas pela autoestrada A32, que permitirá encurtar as viagens de São João da Madeira para o Porto, sem necessidade de percorrer os vinte e cinco minutos atuais de chegada à A1, em Santa Maria da Feira, por obrigatoriedade de parar várias vezes para recolher passageiros nas mais diversas localizações.
Quando o debate atual é redução de emissões de carbono, para a qual o transporte coletivo eletrizado é a melhor solução, é natural olhar para o traçado do ramal norte da linha do Vouga e projetar esse futuro, permitindo que gerações futuras tenham uma pegada ecológica menor e consigam deslocar-se entre a região do Entre Douro e Vouga e a cidade do Porto em tempo apropriado, com conforto, em segurança, face à curta distância que têm a percorrer.
Contrariar esta hipótese é um contrassenso.
Continuar a ver Espinho como o destino do transporte coletivo, do comboio, é não compreender o dia a dia da população, os seus anseios, as suas preocupações ecológicas e suas necessidades.
A pressão está criada sobre o poder político.
Esperemos que o bom senso prevaleça e que ligação “direta” ao Porto, seja uma realidade para São João da Madeira daqui a alguns anos.

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