Opinião

Alvorada - Festas sanjoaninas

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As festas populares são sinónimo de diversão e confraternização. Quando religiosas, as festas são marcadas pela fé, devoção e também pela alegria. Os programas destas festas normalmente incluem procissões, missas e concertos.
As tradições das festas remetem para a ancestralidade.
As dos santos populares, próximas do solstício de verão, mantêm simbolismos do culto pagão, associados ao sol e à luz, representadas pelo acender de fogueiras, durante a noite, ou, no mesmo período, pelo lançamento de balões de ar quente. Outros simbolismos, como brincadeiras, patenteadas pelas marchas - com música apropriada -, ou com o toque, outrora, pelo alho porro e mais recentemente com o martelo de plástico, demonstram a vontade de divertimento popular.
A singularidade das festas é encontrada em detalhes. A maioria repete fórmulas. Perdendo o caracter típico ou genuíno.
Num dos episódios do programa da RTP, Música Portuguesa a gostar dela própria, de Tiago Pereira, dedicado às tradições minhotas, em particular, ao cantar ao desafio e à roda de concertinas, é contado o regresso de Pedro Homem de Mello à romaria de São João de Arga. Poeta e homem dedicado à etnografia popular, mal chegou ao Mosteiro de São João, situada na freguesia de Arga, concelho de Caminha, Pedro Homem de Mello, autor da letra do fado “Povo que lavas no rio”, estranhou só se ouvir música gravada, nada relacionada com a tradição local, nem com os instrumentos típicos da região minhota. Inteirando-se junto da cabine de som, das condições para pedir músicas, pagando-se para o efeito, o etnógrafo alugou uma hora, sem qualquer música. Durante uma hora, não se ouviu música gravada, com os êxitos daquela época, no recinto do mosteiro e estranhou-se o silêncio – havendo por parte da comissão de festas algum burburinho sobre o que estava a acontecer, mas dado o prestígio do autor da proeza, ninguém foi capaz de contrariar e antes pelo contrário, tentaram perceber qual a sua ideia. As explicações quase que não foram necessárias, com o silêncio conquistado, os tocadores de concertina quebraram o sossego e passou a ouvir-se o seu som. Com o efeito alcançado, Pedro Homem de Mello remeteu para a tradição da festa e escusado será referir que desde essa data, os festejos de São João de Arga são das romarias mais concorridas do Alto Minho, com horas de concertinas, de cavaquinhos, de cantar ao desafio, de muita alegria e de muita dança, com muito despique entre os pares no Vira.
A genuinidade alcançada, permitiu resgatar outras tradições locais e deu azo aos interpretes de concertina, da região, de serem contratados para animar festas em todo o país.
Nos exercícios de recordações de festas de outrora raramente são lembrados os momentos musicais, antes dos “grandiosos” concertos ou espetáculos, abrilhantados por grupo musicais, contratados para o efeito.
É certo que nos anos oitenta do século passado, os muitos grupos musicais, ditos de baile, passaram a criar reportório próprio e além dos vários concertos promovidos, tiverem a possibilidade de gravar as suas músicas em fitas. As tais que contribuíram para preencher horas de festas populares, ouvindo-se nas diversões, sobrepondo-se aos altifalantes espalhados pelo recinto das festas, ou intercalando com as colunas das barracas de vendas de comida e bebida. Cada qual, com a sua escolha.
É coincidente com este período das últimas décadas do século vinte, a editora musical, sediada em São João da Madeira, intitulada Nova Força, responsável pela divulgação, entre outros músicos, de José Pinhal, com a gravação de três obras, comercializadas essencialmente em registo de cassete.
As músicas do mencionado artista, entretanto falecido, despertaram grande interesse pelo público após 30 anos da sua morte.
Era interessante perpetuar em modo apropriado, pelas festas da localidade, esse lado positivo desta coincidência: de haver uma editora local que contribuiu para modificar o panorama das festas populares.

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