Opinião

Alvorada - Abalo legislativo

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No momento em que escrevo, ainda não são conhecidos os resultados eleitorais do círculo da emigração. Os quatro mandatos, que faltam apurar para terminar as eleições legislativas agendadas para 10 de março, podem não alterar muito o equilíbrio verificado no escrutínio, nem modificar as intenções afirmadas pelos principais intervenientes.
Ao ler estas linhas, o leitor se estiver em posse desses resultados, perceberá que é uma perda de tempo traçar cenários sobre a eleição desses quatro mandatos, por isso, vou escrever umas breves linhas sobre alguns dados retirados do principal dia das eleições.
A 1ª análise refere-se às subidas em termos percentuais. Ao contrário daquilo que se ouviu e leu, o maior aumento percentual foi do partido ADN. Poderá ter havido confusão dos eleitores, o certo é que passou de 10.001, em 2022, para 100.051 votos. A segunda maior subida percentual foi do partido Livre, quase a triplicar a votação obtida em 2022. Por poucos votos, é certo, no entanto, neste capítulo de aumento percentual, o partido de Rui Tavares ficou acima do partido de André Ventura.
A abstenção desceu, o que é de salutar. Mais 750.500 votantes, relativamente às eleições legislativas de 2022.
Por outro lado, o Partido Socialista perdeu cerca de 487.000 votos.
Como migraram estes votos, foi questão abordada nas análises proferidas na noite eleitoral. Uma visão simplista indicaria que a terceira força política mais votada absorveu todos estes votos. Contudo, partindo dos resultados eleitorais de 2022, de 385.573 votos, verificamos que os 1.108.797 deste ano ficaram abaixo deste aglomerado de mudança. Pelo cálculo aritmético, na minha perspetiva, o mais correto é apontar a obtenção de novos votos vindos da abstenção, para esse tal partido do milhão e cem mil.
Quanto aos votos perdidos pelo Partido Socialista, explicam-se pelas subidas de vários partidos. A começar pela coligação Aliança Democrática (incluindo a comparação com os parciais das votações de PSD/CDS/PPM), com mais 160.000 votos.
E a continuar com os 120.000 votos para o Livre, mais os tais 90.000 votos para o ADN, mais a diferença positiva da Iniciativa Liberal em 42.000 votos, terminando com mais 32.000 para Bloco de Esquerda e outro tanto para o PAN.
Estes partidos referidos, considerando igualmente a coligação CDU (que obteve menos 34.320 votos do que em 2022), conseguiram 22 mandatos e somaram um milhão e duzentos mil votos, o que é demonstrativo da utilidade de votos em círculos pequenos e da eficácia de eleição de deputados do terceiro partido mais votado.
Mais de 80% dos eleitores votaram em diversos partidos, porém nestes dias de rescaldo eleitoral está a dar-se demasiada importância ao voto de menos de 1/5 do eleitorado e sobretudo à retórica dos líderes desse partido, a forçar constantemente uma ida para um futuro governo, contrariando um dos slogans de campanha, relacionado com “tachos”.
Aparentemente imune a esses apelos, Luís Montenegro conseguiu angariar capital eleitoral, para arriscar uma governação em minoria parlamentar. Não é inédito em Portugal. Daqui a uns meses veremos a eficácia do resultado da ousadia.
O assumir de derrota de Pedro Nuno Santos foi um ato de liderança, que lhe permitirá ganhar fôlego político para os próximos meses e preparar um novo ciclo na longa vida do Partido Socialista. As eleições europeias serão em junho deste ano e em 2025 haverá novo sufrágio autárquico, retomando-se a normalidade do calendário eleitoral.
Isto, no caso de a efervescência política não provocar um novo abalo legislativo.

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