
(Continuação do número anterior)
Quando, em 1956, a Direção da Associação dos Bombeiros Voluntários encomendou a Alves da Silva o vitral da escadaria que conduzia ao Salão Nobre, representando um bombeiro em cima duma escada a salvar uma criança, a sociedade constituída por António Alves da Silva e Edmundo Loio tinha mudado de nome. Chamava-se agora “Oficinas LABORARTE, Lda.” e encerrava um verdadeiro tesouro de arte, no dizer de Manuel dos Santos Matos, que a visitava com frequência. Paralelamente, a LABORARTE funcionava como escola de formação e foram muitos os jovens, de S. João da Madeira mas também das terras vizinhas, que ali aprenderam a arte de trabalhar o ferro forjado.
Entre 1956 e 1965, o ritmo de trabalho e de produção das oficinas não parou de crescer. Porém, a esse crescimento não correspondeu uma melhoria das condições de vida da sociedade. No seu livro “Fragmentos de Memória”, editado pel’O REGIONAL, o padre António Moura de Aguiar, ao referir-se à mesa de comunhão da Igreja Matriz, aos candelabros e ambão encomendados a Alves da Silva, diz: A sua oferta primitiva era de 10.000 escudos mas ela custou 15.000 escudos. Esse trabalho tem muito valor, mais do que lhe foi atribuído pelo autor. Mestre Alves da Silva era um artista e não vivia para o comércio.
No final do ano de 1964, Alves da Silva desdobra-se em esforços para promover a empresa “Oficinas Metalúrgicas de S. João/LABORARTE”, divulgando o que nela era produzido. Através da sua secção de arte, consegue estar representado na “VI Feira das Indústrias Domésticas”, realização do jornal “O Século”. De acordo com a notícia publicada n’O REGIONAL de 1 de janeiro de 1965, (…) O importante certame foi inaugurado pelo Chefe do Estado, cujo aniversário natalício se registaria dentro em breve. Por tal motivo, foi oferecido ao sr. Almirante Américo Tomás um tocheiro de arte evocativo da nossa epopeia marítima, da autoria de Alves da Silva, tendo esta oferta sensibilizado o venerando Presidente da República que teve para com o artista e S. João da Madeira palavras de apreço e admiração. Entre as obras de arte expostas, figuravam alguns quadros de uma via-sacra em execução e um Cristo que foi considerado pela crítica uma obra de arte do mais perfeito equilíbrio artístico”.

Em maio de 1965, Alves da Silva inaugura, no salão nobre dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira uma exposição de arte sacra que, até final do ano, haveria de ser repetida no Porto e em Aveiro. O ato inaugural foi presidido pelo Administrador da Diocese do Porto, D. Florentino de Andrade e Silva. Durante os dias em que esteve patente, a exposição foi muito visitada e apreciada por individualidades de destaque no meio artístico do País, entre eles o padre dr. Nogueira Gonçalves, distinto arqueólogo e historiador de Arte, que foi mestre do artista Alves da Silva.
O encerramento das “Oficinas LABORARTE, Lda.” terá acontecido por esta altura. Edmundo Loio tinha acabado de ser pai de um menino (*) que, pelo batismo, se tornou seu homónimo, e continuou a desenvolver a sua atividade em Oliveira de Azeméis. Por seu lado, Alves da Silva encontrou na empresa “Almeida & Gomes” o parceiro ideal para executar, com qualidade semelhante à que estava habituado, as peças que idealizava. É desse período o troféu oferecido pelos sportinguistas sanjoanenses ao glorioso Sporting Clube de Portugal, em 1966, entre muitas outras peças marcantes, do seu percurso artístico. Um caminho que nunca deixou de fazer mas que sofreu um abrandamento significativo, com a sua entrada como Diretor Artístico, na “Metalúrgica RECOR”, da vizinha freguesia de Arrifana.
Edmundo Loio faleceu em 1970, numa altura em que o cunhado se encontrava internado no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, onde procurava cura para uma doença que lhe abreviava os dias mas não lhe retirava a alegria de viver, como testemunhou João da Silva Correia num artigo de homenagem ao artista, publicado n’O REGIONAL de 19 de junho de 1971: (…) Morreu Alves da Silva! A fazer finca-pé no estoicismo a todo o pano, ninguém lhe ouviu queixas nem lamentações. Esteve aqui em casa pouco tempo depois de lhe haver sido amputado o braço esquerdo. E se já de Lisboa me escrevera uma carta muito animada, a dizer, na súmula, que não lhe fazia diferença nenhuma, absolutamente nenhuma, pois que, sem o braço esquerdo, podia continuar a pintar, coisa que já seria impossível, se, na vez do esquerdo, tivesse ficado sem o braço direito. Mesmo assim gelou-se-me a alma, ao receber a sua visita, após tão grande desastre. Alves da Silva, contudo, por natural aversão à piedade alheia, entrou-me em casa sorridente e naturalmente como sempre, asseverando-me que estava quase bom. Mais umas semanas de cuidados e curativos em Lisboa, lá de quinze em quinze dias… e ficaria novo em folha (…).
A obra produzida pelo Mestre Alves da Silva e por Edmundo Loio é imensa. Uma grande parte encontra-se em S. João da Madeira, a outra está espalhada pelo País e também pelo estrangeiro. Enumerar todas as peças concebidas por ambos é tarefa praticamente impossível de realizar. Para além daquelas poucas a que aqui fizemos referência, merecem ser lembrados, por exemplo, a Via Sacra da nossa Igreja Matriz, o portão principal do Palácio de Justiça de Coimbra, os candeeiros e os corrimões dos Paços do Concelho de Estarreja, um tinteiro encomendado por Salazar para ser oferecido ao presidente da República da Venezuela, testemunhos vivos de uma obra que não pode e não deve ser esquecida.
(*)Edmundo Loio (filho) nasceu a 21 de maio de 1965. É um empresário de sucesso. Num passado recente, integrou os órgãos sociais da A. D. Sanjoanense e foi presidente, durante dois anos, da secção de Hóquei em Patins da ADS. As informações que nos cedeu foram importantíssimas para a realização deste trabalho.
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