Opinião

Além da espuma dos dias

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A vida política nacional, além de decadente, está também muito acelerada.

1. Há mais de um mês que o país vive em alta tensão política. São demissões atrás de demissões. Mini-remodelações em série. Casos de corrupção e imoralidades várias. Suspeições por todo o lado. Questionários para escrutinar governantes. Ética para um lado, transparência para o outro. Um vaivém de acusações e indignações. Uma sensação pública de podridão política.
A vida política nacional, além de decadente, está também muito acelerada. Está tudo tenso, em stress e em ansiedade. Quem ouve os responsáveis políticos até parece que vamos ter eleições a curto prazo. E, todavia, tivemos eleições há menos de um ano e a legislatura ainda mal começou. Este ambiente de degradação séria e pressa fictícia tem, desde logo, duas consequências trágicas: primeiro, não nos deixa ver o país para além da esquizofrenia do dia a dia; depois, não há um mínimo de sossego para olhar de frente os grandes problemas nacionais com que nos confrontamos.
2. A verdade, porém, é que precisamos de pensar e agir para além da espuma dos dias. Precisamos de olhar para as questões realmente importantes da nossa vida: o emprego, os salários, o crescimento, o custo de vida, o presente dos mais velhos e o futuro dos mais jovens.
Vem tudo isto a propósito de um relatório externo divulgado há poucos dias, por um insuspeito e prestigiado instituto internacional, onde se mede a competitividade económica entre dezenas de países e onde Portugal não se sai nada bem.
Num ranking de competitividade internacional com 63 países avaliados, Portugal está num modesto 42º lugar. No espaço de um ano, de 2021 para 2022, caímos seis lugares. Em relação a 2018, baixámos nove posições. Estamos cada vez mais longe da Dinamarca, que lidera este ranking. É certo que até estamos confortáveis no indicador das infraestruturas. Mas estamos muito mal em vários outros indicadores, com a política fiscal e as práticas de gestão a serem os nossos maiores calcanhares de Aquiles.
No meio do frenesi político que temos vivido, alguém debateu este assunto? Alguém pensou no tema? Alguém se preocupou com esta matéria? Alguém avançou com propostas e soluções? E, todavia, são estes indicadores que realmente mexem com a nossa vida e o nosso futuro.
Se estivermos numa tendência de melhoria da nossa competitividade, o país cresce, os salários sobem, o emprego qualifica-se, os jovens deixam de ter de emigrar, o Estado pode ser mais generoso e solidário com os seus idosos. Mas, se continuarmos a perder competitividade, ficaremos mais pobres e isolados, mais tristes e carrancudos, mais assimétricos e desiguais. É tempo de pensar para além da espuma dos dias. O trique-trique político é muito desafiante. Mas o país real, feito de pessoas de carne e osso, é o único que verdadeiramente importa. Há que gerar confiança, esperança e ambição em Portugal.

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