Opinião

75 anos da Molaflex

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A obra “No Terramoto de 1975”, da autoria de Tomás A. Moreira, constitui um documento histórico e sociológico fundamental para compreender a trajetória da Molaflex, num dos períodos mais conturbados da democracia portuguesa. O livro afasta-se da narrativa puramente comercial da marca, fundada em 1951, para se focar nos acontecimentos do Verão Quente de 1975. Através de um relato na primeira pessoa e de uma investigação rigorosa, o autor detalha a prisão arbitrária do seu pai, o empresário Ruy Höfle Moreira, durante o PREC. Este episódio serve de fio condutor para explorar as tensões políticas da época, revelando como uma das maiores unidades industriais de São João da Madeira enfrentou o risco real de desintegração perante as convulsões revolucionárias que assolavam o país e o setor empresarial.
Para além da vertente biográfica do detido, o livro introduz dados preciosos sobre a cultura organizacional única desta empresa sanjoanense, reconhecendo como um momento marcante a manifestação de mais de mil trabalhadores, maioritariamente vestidos com a sua bata da Molaflex, que, em junho de 1975, deslocaram-se à Praça da República no Porto para, em frente ao Quartel-General da Região Militar do Porto, exigir a libertação de Ruy Moreira. Este evento sublinha a profunda ligação identitária e de solidariedade entre os funcionários e a liderança da fábrica, contrariando a lógica de luta de classes dominante na altura.
O texto de Tomás A. Moreira desvenda as razões para essa proximidade, as visitas sistemáticas ao chão de fábrica, o tratar os 1800 funcionários pelo nome próprio, a empregabilidade de pessoas com menos capacidades, no sentido de uma inovadora inclusão e adaptação das funções existentes a esses trabalhadores e sobretudo o ser reconhecido apenas pelo nome próprio “Sr. Ruy”. Uma nota pessoal neste capítulo, dado ter iniciado a minha vida profissional numa das empresas que teve origem na Molaflex, na altura tinha a designação Bertrand Faure, produzindo estofos para a indústria automóvel e ter encontrado essa diferença de tratamento, apesar da utilização do título académico: o pessoal fabril dirigia-se aos seus superiores hierárquicos pelo nome próprio, enquanto as chefias se relacionavam pelo apelido.
Do ponto de vista da história local, o texto de Tomás A. Moreira é mordaz. Por um lado, demonstra como a resiliência do tecido industrial de São João da Madeira foi essencial para a estabilidade de centenas de famílias. Enaltecendo o lado inovador de seu pai, com o fabrico de vários produtos, entre os quais os já referidos componentes para a indústria automóvel e como essa diferenciação introduziu outras indústrias no território como os revestimentos têxteis, as espumas industriais, empresas que ainda hoje estão em atividade na cidade.
Por outro lado, apesar da Molaflex ter nascido na cave de um prédio sito na Rua da Liberdade e passado uns anos ter-se deslocado para o Orreiro, no extremo sul de São João da Madeira, contando com uma forte empregabilidade em várias unidades produtivas, o livro apresenta apontamentos de uma certa desconfiança dos empresários locais, maioritariamente ligados ao setor do calçado e dos chapéus, perante o forasteiro Ruy Moreira, referindo-se até à sua relutância em cobrir a cabeça, quando o uso de chapéu ainda era um costume diário na então vila.
Memórias de outros tempos, que podem ajudar a perceber o pouco esforço do recente poder político local, em evitar a deslocalização, da parte produtiva da Molaflex, para Santa Maria da Feira, apesar desta empresa estar associada desde a primeira hora aos circuitos de Turismo Industrial.
Sendo certo que ao evocar os 75 anos de existência da Indústria Molaflex, S.A., instituição pioneira no conforto dos portugueses, estou igualmente a lembrar ao atual executivo camarário a efeméride, para preservar a memória e a identidade industrial de São João da Madeira.

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