“O meu irmão foi silenciado à nascença e à morte”

“O meu irmão foi silenciado à nascença e à morte”

A dificuldade de prestar um último adeus, de velar um familiar ou amigo são situações de enorme sofrimento e de “uma dor indescritível” em tempos de pandemia. As cerimónias fúnebres habituais também mudaram. O simples transportar da urna à igreja para velório, tudo isso, neste momento, terminou. Em S. João da Madeira já foram sepultadas cerca de seis pessoas vítimas de Covid-19. Todas elas eram idosas. Existem 65 casos confirmados no concelho

O luto em tempo de Covid-19 é doloroso e muito injusto. Não teria qualquer impacto, se não estivesse a atingir muitas famílias em Portugal e milhares por todo o mundo. Os cemitérios continuam encerrados. Os funerais realizam-se com poucas pessoas e com regras muito apertadas.
Vítor Ferreira, natural de Dornelas, Sever do Vouga, foi a primeira e única morte conhecida até ao momento com Covid-19 em S. João da Madeira. Era utente e residente, há vários anos, no Lar Residencial da CERCI, um estabelecimento que se destina a receber e a prestar apoio, permanente ou temporário, a pessoas com deficiência mental e alguma autonomia pessoal e social, em situação familiar de risco ou sem qualquer suporte familiar.
Luísa Ferreira, irmã da vítima, garante a ‘O Regional’ que se trata de uma “dor indescritível”, que começou mesmo antes do seu irmão ser hospitalizado. “Ele era deficiente profundo e foi sozinho na ambulância, porque não foi permitida a presença de ninguém no acompanhamento, nem mesmo dentro do hospital, apesar de se tratar de alguém que era totalmente dependente. O meu irmão não falava, mas entendia tudo”.
O estado de saúde do Vítor agravou-se e esta família tentou o internamento em vários hospitais privados, mas “ninguém o quis receber”, porque já se desconfiava que seria um caso de Covid-19, e pouco ainda se sabia sobre a pandemia. “Foi um processo sempre muito doloroso. Queríamos respostas e nunca as tivemos. Ligávamos para o hospital e não conseguíamos informação do seu estado de saúde. Nunca soubemos, na verdade, o que aconteceu quando esteve hospitalizado. O nosso desespero e angústia aumentava a cada segundo. A cada minuto, pois, em causa, estava alguém que não falava e nada nos era facultado. Só mesmo quando faleceu. O meu irmão foi silenciado à nascença e à morte”.
Victor contou na despedida apenas com a presença dos irmãos e cunhados. Menos de dez pessoas no adeus que, até nas cerimónias fúnebres, esteve limitada. “Nem fomos à capela. Tudo foi feito no cemitério. Tudo isto causou em nós um luto indescritível, uma sensação de total abandono pelo familiar que víamos partir e sem nada podermos fazer”. Não era vontade desta família cremar o corpo, mas a agência funerária “recomendou que seria melhor” e assim fizeram.

“Não ver o corpo pode criar sensação de irrealidade em relação à perda”

Não mudaram só os funerais, também mudou a forma como se pode lidar com a dor da perda. Célia Monteiro Correia, psicóloga clínica, explicou a ‘O Regional’ que o grau de intensidade do luto “varia de acordo com a idade, experiências passadas, grau de significância e vinculação emocional”. Por isso, perante uma perda, as pessoas reagem de maneira diferente.
As contingências impostas  impedem, segundo esta especialista, o enlutado de passar por algumas etapas do luto, que permitiriam a confrontação com a sua perda, lidar com o acontecimento,  prosseguir a vida no futuro. “Os rituais tradicionais, como o funeral, podem ajudar as pessoas no processo de aceitação. Não ter a possibilidade de acompanhar, e se despedir do ente querido, dificulta todo o processo cognitivo e pode levar a uma situação de luto patológico”.
Célia Monteiro ressalva que o sentimento mais comum numa perda é de “dor e  tristeza”, contudo, nesta situação, outros podem surgir, nomeadamente o sentimento  de “culpa e de raiva”, que pode provir de um sentimento de frustração por a pessoa não poder ter estado, como gostaria, com o seu familiar.
“Na falta de um abraço, as pessoas podem sentir-se muito desamparadas, emocionalmente e socialmente sozinhas, e o grau de  ansiedade pode variar entre uma ligeira sensação de insegurança e um ataque de pânico intenso”. Na sua opinião, as pessoas “também podem sentir choque, fadiga, alterações de apetite, sono e uma espécie de entorpecimento,  devido à enorme quantidade de sentimentos com que  tem de lidar”.
Nos casos de morte repentina (especialmente se a pessoa não chegar a ver o corpo do falecido), “pode surgir uma sensação de irrealidade em relação à perda, que pode prolongar-se durante bastante tempo, podendo originar pesadelos ou imagens intrusivas”. Estas mortes repentinas “podem provocar arrependimentos, pelas coisas que não se disseram, ou não se fizeram com o falecido, o que se pode tornar muito complicado”.
Segundo a psicóloga, o luto é mais fácil de lidar num contexto social em que as pessoas “se apoiam e reforçam umas às outras nas suas reações à perda. Nesta fase de confinamento, esta rede de apoio está limitada, o que também não é benéfico. Convém ainda relembrar que as crianças e adolescentes vivenciam também sentimentos de perda e luto”, remata.

“Tem sido doloroso a celebração dos funerais”

Esta pandemia mudou por completo a forma como se pode lidar com a dor da perda. Os funerais têm, nesta altura, novas regras de segurança, velórios reduzidos a cerca de dez pessoas, despedidas curtas e sem cerimónias. “Tem sido particularmente doloroso, para mim e para as famílias, a celebração dos funerais”, reforça Álvaro Rocha, Padre em S. João da Madeira.
“A resposta da comunidade cristã tem procurado ser humana e crente: comprometem-nos, no dia do funeral, a juntar a intenção na missa da tarde, celebramos o 7.º dia, e havemos, depois disto tudo passar, de reunir a família numa missa de sufrágio, que depois se acertará em termos de data”.
Para o sacerdote, todas estas alterações vividas nas últimas semanas são uma experiência que “custa muito”, assume mesmo ser algo para que “nenhum padre está preparado”.

Já foram realizados seis funerais Covid-19 na cidade

A nossa reportagem contactou alguns agentes funerários, que dizem encarar a pandemia com algum “receio, porque não sabemos tudo sobre este vírus”, mas garantem que o trabalho é feito com a “determinação e o profissionalismo” de sempre.
“A realização de funerais está condicionada à adoção de medidas organizacionais que garantam a inexistência de aglomerados de pessoas e o controlo das distâncias de segurança, designadamente a fixação de um limite máximo de presenças, a determinar pela autarquia local, que exerça os poderes de gestão do respetivo cemitério”, lê-se no decreto de Lei do Governo.
Apesar da autarquia não revelar o número de mortes, avançando apenas, e só, os dados com base em informação fornecida pela autoridade de saúde local, ‘O Regional’ sabe que, até ao início desta semana, foram já realizados “cerca de seis funerais em S. João da Madeira, cujas vitimas, todas elas idosas, morreram de Covid-19”.
Segundo um agente funerário, que nos pediu reserva de identidade, os corpos de quem morre de Covid-19 são entregues ao Instituto de Medicina Legal. Depois são identificados pelo agente funerário ou familiar, que tem que vestir obrigatoriamente todo o equipamento de proteção para o poder fazer pessoalmente.
Depois, o corpo é recolhido pela agência funerária escolhida pela família, que coloca a vítima num caixão selado, que, depois de totalmente desinfetado, é forrado com película aderente. Dali, seguem diretamente para o crematório ou para a sepultura, se assim a família decidir.
Segundo as normas da autoridade de saúde, o cadáver não deve estar vestido e deve ser colocado num saco impermeável. O corpo é depois colocado num caixão fechado, que não deverá voltar a ser aberto. “De preferência”, lê-se na diretiva emitida pela DGS, “deve optar-se pela cremação, embora não seja obrigatório fazê-lo”.
A pandemia de Covid-19 já matou 214.451 pessoas e infetou mais de três milhões em todo o mundo desde dezembro, segundo um balanço da agência AFP às 19:00 TMG de terça-feira, baseado em dados oficiais.
S. João da Madeira tinha, na última terça feira, dia 28, 30 casos em vigilância e 65 confirmados. Os dados de infeções no concelho são avançados diariamente pela autarquia e são fornecidos pela autoridade de saúde local.

António Gomes Costa

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