O legado de Luís Lima “continua e continuará presente”

O legado de Luís Lima “continua e continuará presente”

Antecipando a 7.ª edição do Party Sleep Repeat, que está de regresso à Oliva Creative Factory dia 27 de Abril, ‘O Regional’ entrevistou Tiago Valente dos Santos, presidente da Associação Cultural Luís Lima. Do percurso do festival solidário que, tendo nascido de uma celebração da vida e da amizade, é hoje um evento premiado e que marca a agenda cultural da região, ao cartaz da edição deste ano, Tiago Valente dos Santos garante que o legado de Luís Lima “continua e continuará presente” e fala do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela associação que lidera. Trabalho que “existe para prolongar a existência do Luís entre nós”.

ACLL nos Iberian Festival Awards quando receberam o prémio de Best Iberian Small Festival

‘O Regional’ – O Party Sleep Repeat (PSR) é um festival que nasceu como um tributo de um grupo de amigos, uma celebração da vida, amizade e de Luís Lima, mas hoje é um evento premiado que marca já agenda cultural do concelho e da região. Como é que se explica esta evolução?
Tiago Valente dos Santos – Esta evolução decorre de múltiplos fatores. O principal é o incentivo que o público nos dá e que nos coloca a responsabilidade de continuar a oferecer uma boa experiência durante o festival, que é algo que encaramos com muita seriedade e empenho. No final de todas as edições, fazemos uma reflexão, que nos tem levado a definir, para todas as edições, novas ambições e objetivos. É assim que temos evoluído por nós, mas não seria possível fazermos isto sozinhos.
Os nossos parceiros, em geral, são também preponderantes. Neste âmbito, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de S. João da Madeira têm vindo a apostar no festival de forma crescente desde a primeira edição, o que nos permite continuar a evoluir em termos de público e de qualidade da oferta cultural.
Os nossos patrocinadores, que demonstram ano após ano a sua consciência social, são igualmente fundamentais. Por exemplo, este ano existem duas empresas locais a patrocinar o Party Sleep Repeat: o revendedor Galp Gás – Abílio Marques Reis e a ERT – uma das organizações mais bem-sucedidas de S. João da Madeira.
A nossa ligação à Associação de Jovens Ecos Urbanos tem também sido muito importante, especialmente nas primeiras edições, em que ainda não tínhamos tanta experiência como agora.
Por fim, o festival também não seria possível, neste constante esforço de evolução, sem o apoio de todos os sócios beneméritos e comuns que suportam a Associação Cultural Luís Lima (ACLL). Com o seu apoio, reconhecem o nosso trabalho como meritório.

A vertente solidária é uma das marcas do festival, com a receita de bilheteira a reverter para projectos de apoio a famílias carenciadas e ao apoio à investigação em oncologia. Porquê o projecto «Apadrinhe esta Ideia» dos Ecos Urbanos e a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC)?
A resposta para estas perguntas tem sempre como origem o Luís, razão pela qual esta festa nasceu. Investimos em projectos de investigação por intermédio da LPCC para tentar contribuir a nossa parte para que menos casos, como o do Luís, continuem a acontecer. Paralelamente, a nossa decisão de apoiar famílias economicamente vulneráveis deriva do exemplo que o próprio Luís nos deu ao voluntariar-se para apoiar pessoas sem-abrigo, no Porto, enquanto já lutava contra o cancro.
No conjunto das várias edições, conseguimos doar cerca de 30 mil euros, o que é um orgulho tremendo para todos nós e nos dá muita força para continuar.

“[Os Iberian Festival Awards] Foram prémios muito importantes e muito inesperados. São sinal do carinho que o público nutre por este festival, pois foi o público que votou”

O PSR foi o primeiro evento aberto ao público a ser realizado na Torre da Oliva em 2013 e, um ano mais tarde, estreou a Sala dos Fornos. Em 2019, o festival cresce e ao Palco Fornos e Palco Alameda, junta-se o Palco Terraço. Este festival tem, de certa forma, crescido com a Oliva Creative Factory. Este espaço, que marca o renascer para a cultura e criatividade de um espaço industrial abandonado, é o eco-sistema ideal para este projecto?
Sim, todos nós, que crescemos na cidade, de alguma forma desenvolvemos uma ligação emocional à Oliva, porque sempre exerceu um certo fascínio em nós pela sua grandiosidade e, até, pela sua decadência.
A Oliva é uma paisagem com muita história, um marco que poucas cidades podem ter no seu cartão-de-visita, que parece erguer-se do tal estado de decadência a que esteve destinada durante largos anos. Para nós, e acho que posso falar pela nossa geração, é um espaço que sempre teve esta aura de curiosidade e mistério, onde, enquanto adolescentes, nos aventurávamos por aquela imensidão de escombros.
Sentimos este fascínio e admiração ainda hoje quando lá vamos ver novos espaços para os concertos e temos oportunidade de visitar locais que normalmente são inacessíveis ao público.
Mas voltando ao ponto, o Luís chegou a filmar o documentário «Ecos Rock» durante o festival de bandas emergentes homónimo, que se realizou numa dessas instalações decadentes junto à Torre da Oliva. Acredito que foi essa a marca que ele nos deixou e que nos influenciou escolher e a lutar por aqueles espaços. Tinha de ser naquele sítio. Tem uma aura especial para toda a região e, sim, poder fazer parte do renascimento e divulgação da marca Oliva é um ótimo contributo que também damos com a promoção do festival.

Garantem transporte de e para o Porto. É fácil organizar um festival desta dimensão em S. João da Madeira e conseguir trazer público de fora?
Até à terceira edição, achávamos que seria muito difícil sermos bem sucedidos em realizar um festival que pudesse ser considerado como tendo expressão nacional. Achamos que esse objetivo nunca foi colocado de forma consciente. Mas foi nesse ano que esgotámos os bilhetes e veio público de todo o lado. Acabámos por ter um hype nacional. Em consequência, ou não, desse hype gerado à volta do festival, ganhámos o prémio de Melhor Festival Indoor Ibérico e isso trouxe-nos projeção internacional. A partir daí, tudo foi diferente.
Hoje para nós é normal virem pessoas de todo o país e até do estrangeiro. Por exemplo, ainda esta semana falei com uma família de Viana do Castelo que pediu mais informações sobre como chegar e onde dormir.

“Isto existe para prolongar a existência do Luís entre nós”

Nos últimos três anos, o PSR foi distinguido nos Iberian Festival Awards como o Melhor Festival Indoor da Península Ibérica (2016), o Melhor Festival de Pequena Dimensão de Portugal (2017) e o Melhor Festival Ibérico de Pequena Dimensão (2018), voltando a estar nomeado em várias categorias em 2019. Este é o reconhecimento do percurso feito pelo festival?
Sim, de facto evoluímos de forma visível durante estes anos e fomos reconhecidos por isso. Foram prémios muito importantes e muito inesperados. São sinal do carinho que o público nutre por este festival, pois foi o público que votou na atribuição destes prémios.

Transformar o PSR numa referência cultural na região continua a ser um objetivo ou consideram que o festival já chegou a esse patamar?
Modéstia à parte, a nossa sincera opinião é que este objetivo já foi alcançado, até pelo que referi atrás. No entanto, isso funciona apenas como mais um fator motivador para, ano após ano, tentarmos colocar a nossa fasquia mais alta – o que nos tem permitido evoluir e subir o patamar.

O cartaz para este ano está fechado. O que pode o público esperar?
Pode esperar uma atuação arrebatadora da banda que acaba de ganhar o prémio de melhor grupo português nos prémios Play, os Dead Combo. Uma grande banda nacional que vem ao festival munida de bateria, sopros e outros novos instrumentos que incorporaram para o seu novo álbum Odeon Hotel.
Em contraste, podem esperar o que de melhor se faz na música nova e experimental em Portugal com as atuações dos Melquíades, Galo Cant’Às Duas e Jibóia.
Podem também ver a banda de Florença, os Go!Zilla. Não é todos os dias que vem uma banda italiana deste calibre a S. João da Madeira.
Por último, as pessoas não podem mesmo perder a atuação dos Conjunto Corona, que é sempre, no mínimo, sui generis e surpreendente.

“Este ano o Party Sleep Repeat vai ter uma grande surpresa”

A escolha das bandas continua a ter por base a influência dos gostos musicais de Luís Lima?
Sim, sem dúvida. Tem sempre e nós vamos garantir que sempre terá.
Este ano identificamos claramente dois casos que eram do agrado do Luís e que o Luís filmou e entrevistou para alguns trabalhos académicos e profissionais.
Desde logo, os Glockenwise, que voltam ao festival depois de atuarem com a sua amizade e boa vontade na segunda edição, quando o festival estreou a Sala dos Fornos. Hoje são uma das bandas com mais airplay nas boas rádios de Portugal.
Tal como PSR, também cresceram imenso.
E um desejo mútuo que há muito estava por realizar e não referi acima de propósito: The Parkinsos. Uma banda de Coimbra que vimos atuar várias vezes ao longo dos anos e cujos concertos são lendários na cena punk portuguesa. Só vão atuar na sétima edição porque surgiu sempre uma incompatibilidade de agenda, mas estamos mesmo orgulhosos e felizes por finalmente poderem fazer parte do PSR e trazerem a sua energia a S. João da Madeira.

«Não somos nenhuns revolucionários, mas queremos trabalhar em prol da cultura e causas solidárias», pode ler-se na página da Associação Cultural Luís Lima. Cultura e solidariedade são os pilares da associação?
Já nem me lembrava dessa frase mas continua atual. São esses, e um terceiro: o tributo claro e inequívoco ao Luís.

O núcleo da associação continua a ser constituído por um grupo de amigos que se mobiliza por uma causa?
Sim, a associação é composta por um grupo de amigos, mas, ao longo deste percurso, e de edição para edição, temos vindo a conhecer dezenas e dezenas de pessoas que são agora nossos amigos, amigos do PSR e da ACLL e amigos do Luís, mesmo que nunca o tenham conhecido fisicamente. Apesar deste desafio ser enorme, a causa e a amizade que o suportam faz com que todo o esforço valha a pena.

“Apesar deste desafio ser enorme, a causa e a amizade que o suportam faz com que todo o esforço valha a pena”

O PSR será a face mais visível do vosso trabalho, mas que outras iniciativas promovem?
Sem dúvida, o PSR é o grande evento da ACLL e aquele que nos ocupa a maior parte do ano.
Paralelamente, promovemos várias iniciativas ao longo do ano.
Criámos o Thinkspace, uma conferência/debate com um formato próprio que pretende trazer à cidade temas de vanguarda cultural e social de forma a gerar discussão na nossa sociedade civil.
Criámos a Bolsa de Estudos Luís Lima, em conjunto com a Escola Inglesa, que permite a uma jovem de comprovado rendimento escolar estudar inglês nesta escola, sem quaisquer custos.
Produzimos o Concerto Ilustrado no âmbito do Encontro Internacional da Ilustração, para o qual já convidámos os Prana e o Filho da Mãe em conjunto com a Cláudia Guerreiro.
Produzimos e apresentámos o documentário sobre a artista de hip hop Capicua, realizado pelo Luís Lima.
Colaborámos na Poesia à Mesa, mais particularmente na Peregrinação Poética em parceria com as Fugas Poéticas, entre outros projectos e atividades.

PSR 2018 – Atuação Throes & The Shine

É difícil ficar indiferente a todo o trajecto – do festival e da associação – desenvolvido por um grupo de amigos que se uniram para homenagear outro amigo. O legado de Luís Lima continua sempre presente?
Continua e continuará presente, só assim é que faz sentido. É preciso dizer uma coisa óbvia mas que define em boa medida o que estamos a fazer e as nossas motivações: caso o Luís não tivesse partido, nada disto iria existir. Isto existe para prolongar a existência do Luís entre nós.

Há algum projecto para futuro que se possa já divulgar?
Para a ACLL, temos muitos projetos, mas nenhum em que nos arrisquemos, para já, a divulgar.
No entanto, há uma coisa que posso afirmar desde já: este ano o PSR vai ter uma grande surpresa. Aconselho todos a estarem atentos.

Joana Gomes Costa

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

  Subscribe  
Notify of