“Ninguém quer trabalhar num sector que paga uma miséria”

“Ninguém quer trabalhar num sector que paga uma miséria”

O Bloco de Esquerda alertou esta semana para os salários “reduzidos” e a falta de “progressão” junto dos trabalhadores da indústria do calçado. Factores que contribuem para o afastamento de trabalhadores neste sector.

O Bloco de Esquerda (BE) lembrou, na passada terça-feira, que a “maior parte dos profissionais do calçado da produção ganha apenas o salário mínimo, porque os patrões e respetivas empresas de calçado foram actualizando salários mínimos, porque assim foram obrigados nos últimos anos, mas não actualizaram nada acima disso”. Em declarações aos jornalistas, o deputado do Bloco, Moisés Ferreira, disse, depois de uma reunião com a direcção do Sindicato Nacional dos Profissionais da Indústria e Comércio do Calçado, Malas e Afins (SNPICCMA), com sede em S. João da Madeira, que, se os empresários querem “atrair” profissionais e mão-de-obra para o sector, devem “aumentar e melhorar as condições de trabalho”, pois “não é apenas com o salário mínimo que lá vão certamente”.
Segundo o bloquista, o encontro com esta força sindical teve como principal objectivo analisar os problemas do sector e os baixos salários praticados pela grande maioria das empresas, apesar do elevado nível de qualificação dos trabalhadores deste sector, que é altamente lucrativo.
Moisés Ferreira anunciou ainda que, durante a reunião com a representante desta estrutura sindical, ficou a saber que, no ano passado, o sindicato tentou negociar com várias empresas as tabelas salariais acima do salário mínimo, mas isso não foi viável.
Disse que, no ano passado, os empresários do sector “recusaram-se” a pagar mais do que o ordenado mínimo. “Propuseram uma tabela salarial onde a base seria de 580 euros e a progressão para categorias superiores traduzia-se no aumento salarial de apenas 1 euro”. “Para quem diz que necessita de mão-de-obra qualificada, necessita de atrair profissionais, aquilo que lhes tem para dar é simplesmente o ordenado mínimo”, disse o deputado.
Diz também que a situação actual destes profissionais não era de todo desconhecida dos bloquistas. “Sabemos que este é um sector que há muitos anos aplica salários muito baixos, mas queríamos perceber se os patrões tinham colocado em cima da mesa melhores condições de trabalho, porque é isso que já deveriam de ter feito”.
Em jeito de mensagem a Luís Onofre, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Sucedâneos (APICCAPS), nomeado recentemente para a Liderança da Confederação Europeia da Indústria do Calçado, disse que, “se querem profissionais valorizados, qualificados e se os querem fixar, se pretendem mais mão-de-obra para o sector” têm que “garantir melhores condições de trabalho e salariais aos seus profissionais”.
Em Março, o SNPICCMA vai reunir com a APICCAPS e o bloquista “espera que dessas negociações possam sair salários dignos para captar profissionais”.
Fernanda Moreira, coordenadora do SNPICCMA, reforça que os salários “mínimos” deste sector não atraem profissionais. “Ninguém quer trabalhar num sector que não valoriza os seus profissionais e paga uma miséria a quem entra para aprender, o mesmo que paga a um trabalhador de primeira”, reforçando que a falta de mão-de-obra no sector se deve a isso mesmo. “Existe falta de mão-de-obra e isso vai continuar a acontecer porque os salários são mesmo uma miséria, o sector não valoriza os seus profissionais”, lamentou.

António Gomes Costa

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José Reis
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José Reis

Só agora descobriram? Há anos que assim é.