
Hugo Almeida desenvolveu um sistema de segurança autónomo, capaz de operar sem ligação à rede elétrica e de assegurar conectividade em locais isolados; a solução Vihupole
Enquanto o mundo teme o próximo “apagão”, em São João da Madeira nasceu uma sentinela que não precisa de fios para funcionar a 100%. Hugo Almeida, um empresário sanjoanense que decidiu trabalhar por conta própria em 2004, transformou uma necessidade técnica em parques solares isolados na solução vihupole – um poste de segurança blindado e autossustentável. Capaz de resistir a tempestades e de levar Internet via satélite onde o sinal não chega, esta inovação made in São João da Madeira já vigia o maior parque fotovoltaico dos Balcãs e tem interessados nas metrópoles da América do Sul, provando que a autonomia energética é, literalmente, o novo farol da segurança global.
Munido da sua experiência enquanto técnico-comercial na área da segurança, Hugo Almeida abraçou esta profissão desde 1998, passando por empresas do Porto e Santa Maria da Feira até que, finalmente, chegou à sua terra-natal, onde atuou como comercial. Foi em 2004 que tomou a decisão de trabalhar por conta própria. Hoje, é o diretor-geral da Vihupole, oferecendo uma solução tecnológica que foi aperfeiçoando ao longo dos anos. No início, a empresa sanjoanense proporcionava serviços de segurança no mercado comercial e residencial e, gradualmente, foi introduzindo a indústria de forma sustentada. Em 2019, uma empresa de energias renováveis desafiou a Vihupole a projetar um sistema de segurança para um parque fotovoltaico, localizado na ilha da Córsega. “Era algo que nunca tínhamos feito. Aceitei o desafio, fizemos o projeto e a empresa gostou do que apresentamos”, contou Hugo Almeida. “Percebemos que era um mercado interessante e em crescimento. Naturalmente, começamos a entrar nesse segmento”, explicou. De facto, a procura começou a ser notória, uma vez que a Vihu Pole chegou a acompanhar, com tecnologia de segurança perimetral e sistemas de comunicações, 11 parques fotovoltaicos em simultâneo.
“Foi uma ideia pioneira e um produto diferenciado. Não queria que fosse simplesmente um poste de ferro ao alto, com um painel e uma caixa plástica”, explicou o diretor-geral da Vihupole, Hugo Almeida
Hoje presente em mais de 100 parques fotovoltaicos em todo o mundo.
No entanto, como o sistema funcionava apenas com energia e cabo de telecomunicações, os tempos de execução eram “extremamente altos” e eram necessárias “equipas muito grandes”. “Nesse preciso momento, nasceu a necessidade de criar o vihupole. Ou seja, um produto autónomo e que não exigisse trabalho civil. A nível mundial, o que existia era muito rudimentar, porque não havia referências sobre postes autónomos”, contou Hugo Almeida. Em 2020, a solução vihupole é então criada. “Foi uma ideia pioneira e um produto diferenciado. Não queria que fosse simplesmente um poste de ferro ao alto, com um painel e uma caixa plástica”, explicou. Hoje em dia, a vihupole tem uma caixa implementada na sua estrutura, precisamente porque foi a Cartonagem Trindade que desafiou a Vihupole a projetar um poste autónomo para a segurança da fábrica, aquando da construção da sua segunda unidade. “Foi um casamento perfeito de uma necessidade do nosso cliente, uma vez que nos obrigou a desenvolver novos produtos. Começamos a apostar cada vez mais no desenvolvimento do produto e percebemos que este tinha valências para outros mercados que não apenas o solar”, afirmou Hugo Almeida. “Uma vez que produzíamos a nossa própria energia, estávamos 100% desligados da rede. Ao sermos autónomos, o tempo de execução e de implementação da solução era extremamente rápido”, resumiu.
Vihupole alia tecnologia à sustentabilidade
Com uma vida útil entre os 20 e os 25 anos, a solução vihupole não consome “um cêntimo de energia” nem emite “um grama de CO2” para a atmosfera. Tal como enfatizado pelo diretor-geral da Vihupole, a redução da pegada de carbono sempre foi importante para a empresa, principalmente quando o vihupole começou a ser desenvolvida nos últimos anos. Desde o policarbonato reciclado que reveste o armário do poste até à escolha de todos os subprodutos que compõem o vihupole, Hugo Almeida afirmou que a sustentabilidade é “fundamental” e uma “bandeira da empresa”. “É um produto que, no limite, pode funcionar como redundância. Isto é, mesmo que não exista energia e telecomunicações convencionais, o produto pode efetivamente funcionar plenamente”, sublinhou o empresário. “Na minha ótica, faz todo o sentido a instalação de um vihupole por freguesia. Não digo isto na vertente comercial, mas na vertente técnica, por uma questão de necessidade. Depois das consequências das tempestades e do «apagão», é inevitável termos mais situações deste género”, considerou, acrescentando que este tipo de soluções traz um valor acrescentado, dando “algum conforto” à população e às forças de autoridade. “Em caso de «apagão» ou tempestade contínua, uma cidade com uma rede de videovigilância convencional não vai funcionar. Sabemos que, quando temos situações dessas, o número de assaltos e roubos aumenta exponencialmente”, observou.

Desde novos mercados até à expansão: os próximos passos a seguir
Há projetos que estão a ser preparados na Vihupole e um deles é dirigido à área militar. “Estamos a desenvolver uma solução com o Vihupole para as forças de segurança que pode ser uma mais-valia para a área militar. Infelizmente, é uma realidade; as guerras têm acontecido”, lamentou Hugo Almeida. “Sou defensor que a Europa deve ter soluções internas. Não podemos estar constantemente dependentes de mercados externos para ter produto. Para mim, é um orgulho enorme ter um produto made in Portugal e made in São João da Madeira, o concelho mais pequeno do país”, admitiu, revelando que o seu produto é reconhecido pelo município e pelo governo português.
Outro dos objetivos da empresa incide na expansão da mesma, uma vez que Hugo Almeida considera que irão ter a necessidade de aumentar a área produtiva. Com uma equipa de apenas cinco pessoas, nos últimos dois anos foram vendidos mais de 500 vihupole. “Traz-nos um barómetro bom: replicar isto, de forma extremamente rápida e com poucos recursos humanos”, observou. “Não queremos, de todo, sair da cidade, mas, infelizmente, a nossa área industrial é curta e o que existe não corresponde às nossas necessidades, mas mantemos a vontade permanecer no município", referiu. Bairrista, o sanjoanense acrescentou que, na procura por parceiros, também privilegia empresas de São João da Madeira ou arredores, dado que a proximidade é “importante”.
A solução vihupole não emite CO2 para a atmosfera nem consome energia, dado que é completamente autónoma graças à sua própria fonte de energia fotovoltaica
Além da expansão da empresa em Portugal, o diretor-geral da Vihupole adiantou que poderão também crescer no estrangeiro. “Também ponderamos abrir empresa nos Emirados Árabes Unidos, já que o vihupole é um produto que tem procura. Infelizmente, levamos com esta guerra e ficou em pausa, para já. Temos outro mercado, em que já fomos desafiados, que é a América do Sul”, declarou, adiantando que também já foram procurados por empresas interessadas em instalar o seu sistema no Brasil e no Chile. “O produto permite que façam a vigilância e a segurança em áreas vastas de uma forma rápida e com outra vertente: a mobilidade. A solução vihupole, não estando ligada à rede, pode ser movida para outro local”, enfatizou.
Empresa está recetiva a investidores
De São João da Madeira para qualquer parte do mundo, em que é possível obter informações do vihupole “esteja ele onde estiver”, Hugo Almeida comentou que a empresa detém um “produto de A a Z”. “Temos a peça de mobiliário urbano, mas também temos o hardware e o software”, esclareceu o empresário. Dada a premissa contínua de acrescentar valor ao produto, um dos exemplos incide na troca do armário para policarbonato reciclado que, além de sustentável, permite o carregamento de smartphones por indução. Apesar de o vihupole ser “diferenciado”, este fator origina uma dificuldade acrescida, uma vez que “não há comparação de produto”. “O que existe, em termos de concorrência, é muito pouco; e o que existe, é desenvolvido para nichos específicos”, contextualizou, acrescentando: “Estar na linha da frente da inovação é bom, mas é extremamente cansativo e desafiador.” Em confidência, o sanjoanense não esconde o seu maior desejo para a empresa. “Eu tenho uma necessidade de ter o capital aberto da empresa para entrarem investidores estratégicos. Não é uma necessidade financeira, mas sim técnica, humana, de conhecimento”, explicou Hugo Almeida. “Neste momento, precisamos definitivamente de dar o passo seguinte: criar novos departamentos da empresa e ter uma gestão profissionalizada nesses departamentos”, enumerou.
“São sempre os meios rurais cujas telecomunicações são as últimas a serem restabelecidas”
Aquando das depressões que assolaram o país, a Vihu Pole instalou sistemas gratuitos para restabelecer comunicações em várias regiões, como Ferreira do Zêzere, Penela, Pampilhosa da Serra, Alvaiázere, Vieira de Leiria, Marinha Grande e Castro Daire. “Tive que ir a um parque fotovoltaico em Pombal e, quando lá cheguei, foi um choque. Percebemos que, se no centro de Leiria ou em Pombal não tinham telecomunicações, a situação nas aldeias seria pior. São sempre os meios rurais cujas telecomunicações são as últimas a serem restabelecidas”, comentou Hugo Almeida. Motivado pelo desejo de que as pessoas voltassem a usufruir das comunicações, ainda mais necessárias em tempos de crise, o diretor-geral da Vihu Pole decidiu oferecer oito vihupole. “Como não havia energia, as telecomunicações que oferecemos foram por satélite, que não está dependente de cabos. Fomos buscar o sinal ao satélite, sendo que não precisamos da energia da rede nem das telecomunicações das operadoras por cabo, já que produzimos a nossa própria energia fotovoltaica”, explicou, descrevendo a vihupole como um “produto anti-apagão”. “No limite, numa cidade completamente apagada e que tenha vihupole, por cada vihupole com Internet por satélite conseguimos garantir, até 128 equipamentos, que as pessoas se possam ligar e comunicar”, expôs.
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