Idosos “fartos e ansiosos” para regressar ao Centro de Dia

Idosos “fartos e ansiosos” para regressar ao Centro de Dia

De um dia para o outro, as rotinas mudaram completamente. O impacto da Covid-19 está a preocupar os responsáveis da ACAIS – Associação do Centro de Apoio aos Idosos Sanjoanenses, com o confinamento prolongado dos idosos devido à pandemia, e que poderá deixar marcas na saúde mental desta população. Apesar do acompanhamento permanente, Patrícia Coelho, Diretora Técnica da ACAIS, assume que os utentes estão “fartos e ansiosos” para regressar ao Centro de Dia. Ainda sem data conhecida para a reabertura, que “nunca poderá ser nos moldes já existentes”, na instituição, apesar de um caso positivo confirmado num idoso, ainda nenhum funcionário foi testado à Covid-19.

Jornal ‘O Regional’ – A incerteza e a apreensão parecem continuar a reinar junto dos responsáveis de muitas instituições que acolhem idosos. Como é que a ACAIS está a lidar, desde março, com todas as alterações adjacentes à Covid-19?
Patrícia Coelho – Como todas as instituições, com um grande esforço por parte de todos, estamos a trabalhar em constante adaptação, não sendo possível efetuar planos a longo prazo, mas, sim, gerir as situações de dia para dia.

Neste momento, como é o dia-a-dia da instituição, como estão a ser geridas as normas de segurança de higienização e todas as vossas respostas sociais?
As normas de segurança de higienização sempre foram uma preocupação por parte da instituição, havendo, nesta altura, um cuidado ainda mais redobrado, tendo sempre em conta as orientações da Direção Geral da Saúde (DGS).

A direção da ACAIS decidiu encerrar, como medida preventiva, mesmo antes da decisão do Governo (13 de março), a vossa resposta de Centro de Dia. Chegaram a temer o pior, uma vez que os vossos utentes são, na verdade, uma população de risco?
Antes de termos informação sobre a decisão do governo, devido à nossa população alvo, já tínhamos decidido nesse dia, 13 de março, proceder, como estipulado no nosso plano de contingência, no âmbito da infeção pelo novo Coronavírus SARS-Cov2, ao encerramento do Centro de Dia.

Hoje chegam à conclusão de que foi uma medida assertiva e que fez toda a diferença?
Sim, essa medida foi a mais assertiva, aliás, foi ao encontro das decisões tomadas pelo governo, no mesmo dia.

Além da suspensão deste serviço, que outras alterações foram necessárias aplicar também na instituição?
Em 10 de março, de acordo com as medidas de contingência anunciadas pela Direção-Geral de Saúde, as visitas no Centro de Dia tinham sidas suspensas, bem como as saídas, passeios ao exterior. Uma desinfeção rigorosa das mãos de todos os utentes, colaboradores também foi implementada.
Já a 16 de março, para além do encerramento do Centro de Dia, definimos, conforme estipulado no nosso Plano de Contingência e, a fim de reduzir os contactos com o exterior ao mínimo, reajustamos o Serviço de Apoio Domiciliário, mantendo só as atividades imprescindíveis de dar continuidade (Cuidado de Higiene, Assistência Medicamentosa e Serviço de Refeição) e deixando de realizar os serviços de tratamento de roupa, higiene habitacional e aquisição de bens e serviços.

Os serviços administrativos também foram encerrados?
Sim. Os serviços administrativos também foram encerrados. Os horários dos colaboradores foram reajustados, de forma a reduzir o tempo de permanência na instituição.

“A maior dificuldade foi sentida pelos nossos utentes”

Segundo sabemos, a ACAIS teve um caso positivo de Covid-19 num utente. De que forma foram feitos o acompanhamento do idoso e a proteção das trabalhadoras que o acompanharam?
Foram adotados todos os procedimentos e orientações da DGS, em articulação com a equipa do Delegado de Saúde e Proteção Civil, nomeadamente no reforço do equipamento de proteção individual.

Foram feitos testes sorológicos realizados à Covid-19, uma parceria com a Câmara Municipal de S. João da Madeira, aos funcionários da ACAIS. Todos deram negativo. No entanto, nas últimas semanas, foram assegurados a todos os funcionários da Santa Casa da Misericórdia, pela Segurança Social, Câmara Municipal e Proteção Civil testes RT-PCR (de zaragatoa), que detetam a presença do vírus à Covid-19. Encontra alguma explicação para que esses testes não tenham chegado à ACAIS?
A Proteção Civil tem estado em constante articulação com a instituição, prevendo, brevemente, a realização desses testes aos nossos colaboradores.

Como foi a adaptação a todo este processo, tanto da direção, como dos vossos idosos?
A adaptação da direção foi e está a ser difícil, deparam-se diariamente com desafios e responsabilidades, a fim de garantir todos o cumprimento das orientações e normas e de satisfazer todas as necessidades dos nossos utentes e respetivos familiares.
A maior dificuldade foi sentida pelos nossos utentes de Centro de Dia, que viram o seu dia a dia alterado. A privação de saída para o exterior e o convívio entre pares e colaboradores apresenta um grande impacto a nível psicológico e físico.

“O número de inscrições reduziu drasticamente”

Ao todo, quantos idosos tem a instituição e quantos estão a ser acompanhados?
Mantivemos o apoio aos nossos utentes de SAD e passamos a apoiar cerca de metade dos nossos clientes de Centro de Dia no domicílio, com entrega de refeição, assistência medicamentosa ou cuidados de higiene. Os restantes utentes de Centro de Dia estão a ser apoiados por familiares, ou são totalmente autónomos.

Com a pandemia aumentaram os pedidos de apoio?
O número de inscrições reduziu drasticamente, estamos, neste momento, com um grande número de vagas, talvez devido ao receio das famílias em pedir ajudar exterior, ou haver neste período maior retaguarda familiar.

Quais as maiores necessidades e problemas que as famílias sentem?
Neste momento, o maior problema que as famílias sentem é o do acompanhamento dos familiares que se encontram sozinhos, no domicílio, pois entre a necessidade de proteger os mesmos de qualquer contacto exterior e a necessidade de os acompanhar, apoiar, fica o dilema de qual será a melhor opção.

Neste momento, que acompanhamento e apoio é feito pela instituição, junto dos utentes que estão em casa?
Para além da entrega da refeição, cuidado de higiene ou assistência medicamentosa para alguns clientes do Centro de Dia, um contacto telefónico regular aos utentes e familiares é realizado, com o intuito de assegurar o acompanhamento social e quebrar a solidão que muitos estão a sentir nesta fase.

Como se explicada a um utente esta doença, muitas vezes difícil de entender, principalmente numa instituição com utentes com patologias avançadas?
Para alguns é impossível explicar, essa explicação é dada aos familiares. Para os utentes com capacidade cognitiva, essa sensibilização e informação foram feitas desde o início e continuam a ser asseguradas.

Mas que métodos utilizam para que alguém, que não tem grande retorno familiar, se mantenha há tanto tempo sem sair de casa?
Não temos, infelizmente, capacidade de controlo sobre a permanência dos utentes nos seus domicílios. Dentro das nossas possibilidades, é efetuada a sensibilização via telefónica.

Ainda não se conhece uma data para que os utentes regressem para os Centros de Dia. Que consequências esta pandemia poderá causar nos vossos utentes e na própria instituição?
Ao nível dos nossos utentes, do que já, infelizmente, conseguimos verificar, a maior consequência será o agravamento do estado de saúde dos mesmos, nomeadamente para patologias como depressões e demências.
Ao nível da própria instituição, devido à aplicação de isenção de mensalidade para utentes sem serviço e redução de mensalidade para alguns utentes, aos grandes gastos com EPI’s e produtos de desinfeção e a ausência de muitos funcionários para apoio aos filhos, estamos a atravessar uma grande dificuldade financeira, que esperamos seja revertida rapidamente.

Em algumas situações, o uso de máscaras nos idosos não será certamente fácil. A utilização das viseiras será uma alternativa?
O risco de contágio é menor quando é adotada a máscara. No entanto, a utilização deste equipamento de proteção individual, no dia a dia, aquando da reabertura do Centro de Dia, não será fácil de implementar por parte dos nossos utentes. Iremos, com certeza, deparar-nos com recusas, ou usos inadequados, mas teremos que trabalhar no sentido de sensibilizar todos os nossos utentes para a sua correta utilização.
Quanto ao uso de viseiras, estas só são eficazes com o uso simultâneo de máscaras, a sua única utilização não poderá ser uma alternativa.

O afastamento da instituição, amigos e familiares, de que forma está a ser encarado por estas pessoas?
Dos contactos regulares realizados aos nossos utentes, todos referem sentirem-se sozinhos, “fartos” dessa situação e estarem ansiosos por regressar ao Centro de Dia.

Que trabalho estão a fazer, diariamente, juntos dos utentes, uma vez que deixaram de ter as atividades diárias que são desenvolvidas no dia a dia da instituição?
Os clientes de Centro de Dia estão a receber contacto telefónico regular como forma de quebrar este período de solidão que muitos estão a atravessar, bem como para nos assegurarmos do bem-estar dos mesmos.
Aos clientes com necessidades está a ser disponibilizada entrega de refeição, preparação da medicação e realização do cuidado de higiene no domicílio. Foram também entregues kits com atividades de estimulação cognitiva para os utentes que pretenderam continuar a realizar fichas de atividades no domicílio.

“Falta de batas descartáveis”

Que precauções têm na prestação de serviços?
Para a realização de todos os serviços, as medidas de controlo e prevenção transmitidas pela DGS foram implementadas, nomeadamente, utilização adequadas de EPI’s e higienização de mãos e utensílios.

A instituição tem falta de material de proteção?
Sim, sentimos, sobretudo, falta de batas descartáveis.

Que tipo de apoios têm recebido face à pandemia?
Temos recebidos donativos de EPI’s, por parte de empresas privadas e particulares, bem como recebido o apoio da Câmara Municipal e Segurança Social.

Há diminuição do número de funcionários?
Sim, com a determinação do Governo para encerramento dos estabelecimentos de ensino, alguns funcionários estão, ou estiveram, ausentes por motivo de assistência a filhos.

Tem sido possível prestar um serviço aos utentes à distância? De que forma o estão a fazer?
Para todos os clientes, quer de Centro de Dia, quer de Serviço de Apoio Domiciliário, o apoio social continua a ser realizado pelas técnicas gestoras. O contacto telefónico e correio eletrónico têm sido as ferramentas utilizadas para continuar a realizar todas as diligências necessárias.

As medidas são necessárias, mas impor o isolamento a estas pessoas também tem um impacto psicológico. De que forma estão a contornar a situação?
Como já referido, o isolamento dos utentes está a provocar uma degradação de muitas patologias, tais como a depressão ou a demência. Tentamos da melhor forma possível minimizar o impacto negativo que esta situação está a causar. Quando necessários, articulamos com outras entidades, nomeadamente, hospitais, centro de saúde.

O voluntariado para acompanhamento aos vossos utentes, como fazer um simples telefonema, seria uma mais valia nesta altura?
O acompanhamento aos nossos utentes por via telefónica está a ser realizado pelas técnicas gestoras, que conhecem de perto cada situação, facilitando, assim, a manutenção do elo de ligação já existente. Além disso, os utentes ficam satisfeitos por poderem falar com vozes que lhes são familiares.

Depois da reabertura do Centro de Dia, a instituição funcionará nos mesmos moldes como até aqui? Quais as alterações que estão a ser pensadas e o que irá sofrer o dia a dia da instituição?
A reabertura nunca poderá ser nos moldes já existentes. No entanto, ainda não sabemos como deverá ser o modo de funcionamento, pois ainda estamos a aguardar orientações da Direção Geral da Saúde.

António Gomes Costa

2 Responses to Idosos “fartos e ansiosos” para regressar ao Centro de Dia

  • Diz que a instituição está a atravessar uma grande dificuldade financeira – pois o meu conselho é que comecem a invistir a sério em gerir e melhorar o serviço, porque a continuar como nos últimos tempos ainda acabam mesmo é por fechar.

  • tenho um salão de cabeleireiro dentro de centro de dia na qual pago o espaço e desde do dia 13 de Março não trababalho porque não deixam entrar os clientes (era por marcação como eu tinha dito ao presidente) tenho ido ao centro para saber quando abre e não sabem nada

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