Financiar paralisações… até Jerónimo de Sousa discorda. Impõe-se uma moratória

Há muitas maneiras de perder razão. Uma delas é o caminho que se segue para se tentar impô-la. Como se, algum dia, alguém fosse dono da verdade e a impusesse de forma absolutamente unilateral, aproveitando a fraqueza irrecuperável dos adversários. Como numa luta, é muito feio continuar a bater, depois da outra parte estar completamente dominada.
Vem isto a propósito da greve dos enfermeiros e do seu financiamento.
Os enfermeiros têm muito provavelmente muitas e fundadas razões para fazer greve: sobrecarga de trabalho, falta de condições de trabalho, baixa remuneração, expectativas criadas e não cumpridas… Porém, há momentos em que o feitiço se pode virar contra o feiticeiro, em que a razão pode deixar de o ser.
Ora, a presente greve dos enfermeiros é um caso notável desta situação por três razões fundamentais e articuladas: pela escolha cirúrgica das funções em greve, dos momentos em sucessão e do esquema de financiamento através de “crowdfunding”.
O modelo de financiamento da greve por “Crowdfunding” tem condições para a eternizar. Não pode é evitar que males maiores possam surgir, até também para os próprios, alguns dos quais se acobardam no anonimato.
Há vitórias que o são de Pirro; há vitórias que desqualificam os seus autores; há vitórias presentes que a história se encarregará de vingar. Há vitórias que negam, na prática, os direitos em que se apoiam. Até Jerónimo de Sousa, líder do Partido Comunista Português, afirma de forma certeira e frontal: “Financiar paralisações subverte aquilo que é o direito à greve, aquilo que está na base desse direito”.

Finalmente:
Se todos, ou muitos, setores profissionais públicos se sentem injustiçados ao mesmo tempo, se a prática da greve nega o direito que a legitima, se os contribuintes se encontram no limite do suportável da carga fiscal, se os serviços públicos se encontram em notória e reconhecida deterioração;
Então, os poderes públicos têm o dever cívico e a obrigação política de forçar todos a uma moratória, com prazos pré-definidos, para pensar, em colaboração com os diversos setores, uma solução global fundamentada a apresentar publicamente.
Não há soluções globais que agradem a todos quando os interesses são divergentes; mas pode haver soluções globais que sejam as mais adequadas para um funcionamento harmónico da sociedade num determinado momento histórico. Assim haja por parte de todos reta intenção e consciência de que, como diz o povo de forma sábia: “muitas vezes é melhor um mau acordo do que uma boa demanda”.
Oxalá os poderes públicos consigam, no resto deste mandato, ter o engenho suficiente para garantir a paz social que até há pouco foi realidade e que certamente constará na história como um dos maiores bens desta fórmula de governo.

Abel Paiva da Rocha

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