“Estou muito orgulhoso pela grande equipa que temos na Instituição”

“Estou muito orgulhoso pela grande equipa que temos na Instituição”

As marcas do coronavírus estão bem patentes na CERCI de S. João da Madeira, que passou por momentos difíceis. Foi a única instituição da cidade com quase uma dezena de casos positivos de Covid-19. Houve uma morte. Passados todos estes dias, ainda não existiu “lugar ao luto”. O regresso está a ser preparado, mas ainda sem data anunciada. Há perguntas que ainda são difíceis de responder. Existem pausas durante a conversa. A recusa de um simples abraço pode não ser bem entendido pelos utentes nos próximos tempos. Mas António Cunha, presidente da CERCI, garante que a Covid deixou a “instituição mais forte”, e não esconde o orgulho na sua equipa. Existe apenas um caso positivo na instituição.

Jornal ‘O Regional’ – A CERCI passou por momentos difíceis. Foi a única instituição da cidade com quase uma dezena de casos positivos e uma morte a 22 de março. Como está a ser feito este luto na instituição?
António Cunha – As notícias de casos positivos chegavam-nos em catadupa. A morte de um dos nossos criou em todos um enorme medo. Vivemos momentos tão complicados que não houve lugar ao luto, mas ele tem que ser feito, temos que ter o momento e tempo de falar com os utentes e colaboradores.
Foram momentos de um stress emocional grande, que nos deixa marcas, e quando não temos hipótese de curar bem uma ferida, ela vai-se curando por si só, mas há-de chegar a altura que vamos olhar para ela e tentar cicatrizá-la da melhor forma, mesmo que já tenha passado algum tempo.

Cerca de dez casos positivos entre utentes e colaboradores. Já estão todos recuperados ou ainda têm casos de infeção?
Estão todos a recuperar bem, o que nos deixa muito contentes. Temos apenas um caso positivo do utente que esteve hospitalizado e que, apesar de não revelar sintomas, os testes continuam a dar resultado positivo.

A situação levou a que oito utentes e duas colaboradoras tenham estado de quarentena 14 dias, dentro de um apartamento (Lar Residencial da Instituição). Como foi gerida toda esta situação?
Tivemos o primeiro utente de Lar Residencial que apresentou os primeiros sintomas no domingo, dia 15 de março, mas nada nos fez pensar que estaria infetado com o vírus; mesmo assim, tomámos desde logo todas as medidas. Já nesse domingo, por precaução, ligámos para a Saúde 24, mas foi considerado que não tinha critérios para o Covid-19. O referido utente, recorrentemente, tinha problemas de saúde. Com o agravamento dos sintomas, contactámos novamente a linha Saúde 24 e o Cento de Saúde de S. João da Madeira, que nos orientaram nos procedimentos que deveríamos ter.
Na quarta-feira, uma vez que os sintomas se mantinham, foi dada a orientação para encaminhar o nosso utente ao Hospital, onde ficou logo internado e fez o teste ao Covid-19.
Sempre pensámos que se tratava de uma gripe, pneumonia, como tantas vezes aconteceu no passado.
Mas a ansiedade por termos o resultado do teste aumentava à medida que o tempo ia passando. Contactámos, mesmo antes de sabermos o resultado, a equipa de Saúde Pública ACES e o Sr. Delegado de Saúde deu-nos orientações para fazermos uma lista com todos os contactos que o utente tinha tido. Caso o resultado fosse positivo, seria mais célere a operacionalização.
Na sexta-feira, dia 20 de março, ao final da tarde, recebemos a notícia que não queríamos. O teste era positivo. De imediato foi transmitida esta informação ao Delegado de Saúde. De acordo com a lista que já estava preparada, a equipa de saúde pública contactou cada um dos elementos contantes na mesma, a dar indicação da necessidade de isolamento profilático e quais os cuidados que teriam que ter.

Mas tinham oito utentes e uma equipa de colaboradores que tinham que estar em isolamento. De que forma foi feito este isolamento?
Como era possível isolar utentes com deficiência ou incapacidade que precisam sempre de cuidados de terceiros? Várias hipóteses foram colocadas, num curto espaço de tempo. Vários contactos foram feitos até que, no meio de tanta azáfama e de um turbilhão de emoções, surgiu a hipótese de propor a duas colaboradoras da instituição que cumprissem o seu isolamento no Lar Residencial. E a reposta das duas colaboradoras foi imediata. Aceitaram isolarem-se durante 14 dias a trabalhar, com os utentes residentes, 24 sobre 24 horas. Tivemos consciência desde o início de que não seria uma tarefa fácil, e só com perseverança e muita coragem seriam capazes.
Durante os 14 dias, foi estarmos do lado de fora, à distância, a colaborar com as colegas. Se não tivéssemos tido estas duas colaboradoras a voluntariarem-se, e a fazerem no Lar Residencial o seu isolamento, todas as outras hipóteses, que poderiam implicar que os utentes se separassem ou ficassem aos cuidados de quem não os conhece não nos pareciam tão adequadas, foi sem dúvida a melhor solução que se podia ter encontrado. Estamos (instituição e familiares) muito agradecidos, a entrega e o altruísmo destas colaboradoras deve ser reconhecido.
É importante realçar o trabalho e dedicação de todos os colaboradores da CERCI de S. João da Madeira, que têm sido incansáveis, adaptando-se a esta nova realidade de forma exemplar. Estou muito orgulhoso pela grande equipa que temos na instituição. Os melhores colaboradores estão connosco!

Como está a situação de saúde do utente que esteve hospitalizado?
Desde que teve alta hospitalar, que aconteceu no dia 2 de abril, encontra-se sem qualquer sintoma. Bem-disposto, apenas ansioso por poder sair do quarto em que está isolado de todos os colegas. Anseia pela retoma da sua vida normal. No entanto, os testes continuam a dar positivo. É, portanto, o único caso positivo neste momento na instituição.

Como é que a CERCI, os seus meios humanos e utentes estão a encarar este período conturbado?
Com um poder de adaptação muito grande. Esta pandemia apanhou-nos de surpresa e nunca pensámos que a nossa instituição fosse afetada. Quando toca “aos nossos” tudo é diferente, quando começam a surgir casos positivos, uns atrás dos outros, o agravamento de saúde de um dos nossos utentes, o seu falecimento, utentes e colaboradoras infetadas, com sintomas, a não estarem bem… quando um dos nossos não está bem, os outros também não estão e, confesso, tivemos momentos difíceis, mas nas dificuldades também a união é, muitas vezes, a maior arma de superação.
É com orgulho que sinto uma equipa a encontrar novas formas de trabalhar, e de seguir em frente, em prol do bem-estar dos utentes e das suas famílias.

“Só podemos agradecer à Autarquia, à Proteção Civil e aos Bombeiros”

Que apoios tiveram por parte da Autarquia, Proteção Civil, equipas de saúde e empresas sanjoanenses?
Na verdade, só podemos agradecer quer à Autarquia, quer à Proteção Civil, quer aos bombeiros voluntários por tudo o que fizeram e ajudaram a CERCI, tendo sido inexcedíveis, bem como às várias entidades sanjoanenses, como o Rotary Club de S. João da Madeira.
Temos também, sem som­bra de dúvida, que agradecer toda a disponibilidade e apoio do sr. Presidente da Câmara, pois, sempre que foi necessário, esteve presente e ajudando no que foi solicitado.

Recentemente Luís Amorim, em representação da CERCI, referiu, publicamente, que a “Proteção Civil de S. João da Madeira tinha obrigação de fazer mais” pela instituição nesta altura. Quem é este elemento e como reage o presidente da instituição a esta afirmação pública, uma vez que acaba de assumir nesta entrevista que nada terá falhado por parte dos profissionais que estão na linha da frente?
Antes de mais, permitam-me desde já também agradecer todo o apoio prestado pelo enfermeiro Luís Amorim, que também foi uma pessoa inexcedível. O Luís Amorim é enfermeiro militar sanjoanense, sócio da instituição, e que, ao ter conhecimento da nossa situação, se voluntariou logo a nos ajudar.
Perante um vírus e uma situação totalmente nova, temos muito a aprender com todos, não há fórmulas de procedimentos de atuação já definidos, tudo é novo, é uma aprendizagem diária.
No entanto, a entrevista prestada pelo mesmo foi uma entrevista pessoal e de mote próprio, e não em nome da CERCI. Não me cabe a mim, nem a ninguém da instituição, comentar entrevistas de outros.
Em relação à Proteção Civil esteve sempre do nosso lado e, na altura, fez tudo o que estava ao seu alcance.

“Estamos a preparar-nos para a reabertura”

Temos conhecimento de que falou com a Autarquia e com o representante máximo da Proteção Civil depois destas afirmações. O que lhes disse enquanto presidente da CERCI? Também acredita que existiram falhas?
Desde sempre, a CER­CI teve um contacto regu­lar com a edilidade san­joanense sobre vário assuntos e temas.
No entanto, seria uma falta de respeito e consideração referir conversas tidas entre as várias entidades, pelo que me abstenho de mencionar as mesmas, pois não seria cordato o fazer.
Quanto à questão de existirem falhas, na verdade, e quanto à pandemia associada ao Covid-19, é que ninguém estava devidamente preparado. Aliás, algo perfeitamente visível, quer a nível nacional, quer mesmo a nível mundial. Veja-se a evolução de análise e pensamento da própria OMS.

Mas, na sua opinião, o que considera que poderia ter sido feito, e não foi, por estas entidades?
A questão não se pode colocar desta forma, pois estou em querer que tudo o que poderia ser feito foi feito. A questão, na verdade, é outra. Estávamos todos preparados para esta pandemia? As recomendações da OMS, e por consequência dos organismos do estado, foram as melhores? As metodologias e linhas orientadores foram as mais corretas? Ora bem, quanto a esta questão, Portugal, no seu todo, demonstrou conseguir lidar com esta pandemia de forma bastante correta e o povo português foi incansável!

A CERCI teve dois pla­nos de contingência pelo que foi noticiado e publicado pela própria instituição na página do Facebook. Quais as maiores alterações entre o primeiro e o segundo plano de contingência?
São dois planos totalmente diferentes. O primeiro contemplava a hipótese do surgimento de casos suspeitos ou positivo, no decorrer das atividades do dia-a-dia da instituição, ainda com todas as respostas socias em funcionamento. Que procedimentos teríamos que adotar, no caso de algum elemento positivo.
O segundo surge já de­pois da suspensão das respostas sociais, com exceção do lar, e depois dos 14 dias de isolamento. Temos sete utentes a sair de isolamento e um caso positivo a ter alta hospitalar que necessitava de estar confinado a um espaço designado Covid-19.

Que trabalho e articulação estão a ser desenvolvidas com os utentes e famílias que estão em casa?
As nossas técnicas mantêm, desde o encerramento das respostas socias CAO I, CAO II e formação profissional, contacto telefónico periódico com os utentes e famílias. Acompanharam de perto os casos positivos que se mantinham em casa, auxiliando-os no que necessitassem. Neste momento, estão a programar atividades online, como são exemplo reuniões com as famílias, aulas de ioga, Ed. Física, etc. Foi criado um grupo fechado no Facebook, para a partilha de momentos simples, como fotos do dia da mãe, músicas que nos fazem sentir bem, partilha de receitas! É muito giro e está a funcionar muito bem; além de promover os laços, engana a saudade e lembra-nos que juntos somos mais fortes.
Estar presente para o que fosse necessário, quer seja utente, família ou colaborador, foi um dos nossos lemas. Estivemos sempre perto, mesmo que à distância…

“Tudo vai ser diferente”

Neste momento, a cidade prepara-se para o regresso, faseado, da normalidade, à abertura das instituições e equipamentos. Como vai ser feito todo esse processo na instituição que lidera?
Estamos a preparar-nos para a reabertura. Não temos ainda uma data definida. Aguardamos orientações superiores.
Mas temos técnicas em contante formação, e em contacto com instituições similares e organismos, para se inteirarem dos procedimentos para o fazermos da melhor forma.
Temos consciência de que a nossa população terá alguma dificuldade em acatar as normas de segurança, em utilizar meios de proteção (por exemplo o uso de máscaras, o distanciamento social). Como vamos explicar que não nos podemos abraçar, quando, após um período de tempo, esta é a maior vontade?

De que forma está a ser preparado o futuro da CERCI, isto é, como está a ser pensado e alinhavado o regresso dos utentes?
Tudo vai ser diferente. Depois de termos orientações como vamos operacionalizar, temos que transmitir ao utentes de forma o mais simples possível, às famílias e depois, aos poucos, mesmo que no início possa parecer tudo estranho, temos que nos adaptar a esta nova realidade. E faremos de tudo para proteger ao máximo os nossos utentes e colaboradores.

Sabemos que há uma série de cuidados que estão ligados com a higienização, uso de máscara, uso de desinfetante, o respeito pelo distanciamento social. Acredita que todos estes procedimentos serão fáceis de implementar com os vossos utentes?
Não vão ser fáceis, esta­mos certos disso. Mas a aposta na repetição de procedimentos, nos exemplos que vamos dar aos nosso utentes, a persistência dos colaboradores e a ajuda das famílias, acredito que vamos conseguir.
Não podemos facilitar, e quando sabemos que os utentes não vão conseguir cumprir as normas e cuidados estabelecidos, temos que estudar alternativas. Por exemplo, um trabalho mais individualizado, em espaços próprios de trabalho, etc.
Mas os nossos utentes também nos surpreendem muitas vezes. Os utentes do lar residencial, por exemplo, sabem qual o espaço que não podem passar. Atiram beijinhos à distância e transformam abraços em mãos ao peito em gesto de aconchego. Eles próprios descobrem novas formas de dar e receber afeto. Eles surpreendem-nos diariamente pela sua capacidade de adaptação.

“Uma instituição mais forte”

Os utentes da CERCI são conhecidos pe­los seus afetos e a neces­sidade que sentem no contacto físico, como um simples abraço. De que forma a instituição vai acautelar tudo isto?
Que pergunta difícil (pausa). Acho que temos que nos reinventar. Sabemos que muitos não entendem, e recusar um abraço ou carinho não vai ser bem interpretado.

Enquanto presidente da Instituição, que futuro prevê após a pandemia para a CERCI?
Uma instituição mais forte.

Quer com isso dizer que nada será como antes?
Nada será como antes, agora acredito que, depois desta pandemia, e deste período conturbado pelo que a instituição passou, temos que nos unir mais, e só com todos conseguimos mais e melhor.
Desde o transporte dos utentes, higiene, atividades em grupo, alimentação, que mudanças se preveem na instituição?
Obviamente, as alterações serão substanciais, pelo menos até, estou em querer, existir uma vacina.
A CERCI e os seus utentes vão ter que alterar procedimentos e atividades, até porque os utentes e os colaboradores São um grupo de risco. No entanto, serão sempre seguido as recomendações da DGS, bem como da própria Proteção Civil local.

Toda esta situação trouxe alterações do ponto de vista emocional, social e económico. A nível financeiro, em particular nas receitas, houve um decréscimo nas contas da instituição? A pandemia afetou a saúde financeira da CERCI?
Como qualquer pandemia, é obvio que esta situação implicou gastos que não estavam previstos, desde logo, quer com equipamentos, limpezas, desinfeções. Porém, e graças a uma gestão desde sempre verificada na CERCI, a mesma tem alguns meios próprios para fazer faCe a estes encargos não previsíveis e excecionais. Sendo que, no entanto, e como também é de fácil perceção, a instituição conta com apoio extraordinário, quer do próprio Estado, através da Segurança Social, quer mesmo da Autarquia.

Como presidente da única instituição na cidade vocacionada para acolher utentes com deficiência e/ou incapacidades, entende que os próximos tempos serão um grande desafio para a CERCI?
A CERCI é a única ins­tituição da cidade vocacionada para acolher pessoas com deficiência ou incapacidades, o que, por si, só tem sido um grande desafio que,
após Covid-19, vai ser maior. Contudo, a direção da CERCI mantém inalterado o seu projeto de crescimento, nomeadamente a construção de um novo Lar Residencial no terreno da instituição.
Sem sombra de dúvidas que toda esta situação demonstrou que este projeto tem que ser efetuado, e é uma verdadeira necessidade, e para a cidade, que urge ser implementada.

António Gomes Costa

One Response to “Estou muito orgulhoso pela grande equipa que temos na Instituição”

  • Entrevista muito agradável. Apenas um reparo ao Presidente desta instituição. Quando refere: “A entrevista prestada pelo mesmo foi uma entrevista pessoal e de mote próprio, e não em nome da CERCI. Não me cabe a mim, nem a ninguém da instituição, comentar entrevistas de outros”. O senhor está baralhado e muito confuso. Tem e deve comentar as afirmações sim. Foram ditas a um jornal dentro das instalações da casa que gere. Não é um artigo de opinião. A imagem é dentro das instalações da Cerci. O Presidente deveria ter conhecimento da entrevista e não concordando com as afirmações como é notório nestas suas afirmações deveria solicitar esclarecimentos pois coloca em causa o trabalho da protecção civil e da autarquia que pelos vistos nunca falharam,certo? É ou não presidente da CERCI?Pense nisto. Tenho dito.

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