“Estamos a reativar a atividade cirúrgica”

“Estamos a reativar a atividade cirúrgica”

Na linha da frente desde março no combate ao novo coronavírus, o Centro Hospitalar Entre Douro e Vouga (CHEDV), estrutura que integra, além do hospital de Santa Maria da Feira, os de S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis, prepara-se para retomar a atividade de vários serviços que ficaram suspensos devido à pandemia, como é o caso da atividade cirúrgica. O Plano de Contingência definiu desde o início que o Hospital de S. João da Madeira se destinava apenas para a realização de atividade clínica em doentes não infetados. Miguel Paiva, presidente do conselho de administração, explica nesta entrevista o impacto que a adaptação à pandemia teve na atividade normal do hospital e adianta que vários profissionais da instituição estão envolvidos em processos de investigação científica de temas relacionados com a Covid-19.

Jornal ‘O Regional’ – Co­mo é que de um dia para o outro se transformou um hospital num hospital Covid-19, com circuitos específicos para isto?
Miguel Paiva – O maior desafio é gerir uma mudança radical na organização do hospital, desde as próprias instalações, aos circuitos e equipas de trabalho num tempo recorde, garantindo o envolvimento dos profissionais e mantendo sempre níveis de resposta adequados às necessidades da população.
Felizmente que o enorme brio profissional da maioria das pessoas tem permitido conseguir superar com sucesso esse desafio e manter o ânimo das pessoas perante as dificuldades.

Foi fácil a adaptação das equipas? Houve reforço de meios?
Houve, essencialmente, uma reorganização dos meios. Passámos ventiladores dos blocos operatórios para novas unidades de cuidados intensivos ou transferimos pessoas de áreas em que suspendemos a atividade para espaços de tratamento de doentes Covid, por exemplo.
 
As equipas médicas e de enfermagem receberam formação para lidarem com o novo coronavírus?
Fizemos muita formação interna sobre uso de equipamentos de proteção individual, por exemplo, mas a abordagem clínica a estes doentes foi feita de acordo com os protocolos e as normas em vigor e através de muita investigação dos nossos profissionais quanto ao que se ia sabendo das experiências de outros países onde a pandemia chegou primeiro.
 
Em termos de equipamentos de proteção individual, houve falta?
Todos os nossos profissionais dispõe de material de proteção adequado ao risco das atividades que desenvolvem. É verdade que o material é gerido com muito rigor, fruto das dificuldades existentes no mercado à escala mundial, mas temos conseguido assegurar o necessário.

 75 profissionais infetados com Covid-19

Quantos profissionais de saúde do hospital, até ao momento, ficaram infetados?
Cerca de 75 profissionais.

Quantas pessoas morreram no Hospital vítimas de Covid-19?
Até ao momento morreram no Centro Hospitalar cerca de 40 pessoas com Covid-19. Posso ainda adiantar que, aproximadamente, 246 doentes foram internados e foram realizados 2770 testes de despistagem, cujo resultado se verificou positivo em apenas 450 pessoas.

Quantos ventiladores é que o Hospital São Sebastião tem neste momento?
O Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga, que tinha uma capacidade de 11 camas de cuidados intensivos, elevou a sua capacidade até às 30 camas (com ventilador), através da alocação de ventiladores de outras áreas a este fim.
Entretanto, com as compras que fizemos e os donativos que recebemos, ficámos com margem para elevar a capacidade sem ter de utilizar ventiladores do bloco operatório e outras áreas, o que foi muito importante para esta fase e será muito importante para o futuro.

Houve vários movimentos solidários, que resultaram na oferta de ventiladores ou máscaras. Que importância é que isto assumiu?
Esses gestos são muito importantes e comoventes, pois mostram que as pessoas estão a apoiar-nos e reconhecem o trabalho que temos feito.
 
Que impacto é que a adaptação à pandemia teve na atividade normal do hospital? Quantas consultas e quantas cirurgias foram afetadas?
De um modo geral, a perda de atividade de consultas e de cirurgias foi muito significativa, embora ainda seja difícil quantificar.
 
“Consultas por videochamada, uma experiência muito positiva”

Houve consultas que passaram a ser feitas por videochamada. Que consultas se mantiveram no hospital?
Já fizemos muitas centenas de consultas por videochamada e tem sido uma experiência muito positiva, que queremos manter mesmo depois da passagem da fase da pandemia, embora apenas para algum tipo de consultas, pois na maioria dos casos a consulta terá de manter-se presencial.
 
O receio dos utentes levou-os a evitar idas aos serviços de urgência e a adiar cirurgias. Sentiram essa quebra de procura?
Sim, no caso concreto do Hospital de S. João da Madeira, por exemplo, assistimos a uma redução de 20% na procura do serviço de urgência, quando comparado com os primeiros quatro meses de 2019.
 
A nível da maternidade, os partos mantiveram a atividade normal? Ou os utentes procuraram unidades privadas?
O número de partos manteve-se estável face ao ano anterior.
 
Os pais podem assistir ao nascimento dos filhos nesta altura?
Não. Mais tarde, em visita, apenas é permitida a entrada ao pai, obedecendo sempre a criteriosos regras e procedimentos de segurança.
 
Qual o papel do hospital de S. João da Madeira nesta fase?
Desde o início que o nosso Plano de Contingência definiu o Hospital de S. João da Madeira (bem como o de Oliveira de Azeméis) para a realização de atividade clínica em doentes não infetados. É assim que pretendemos que aconteça até ao final deste processo.
 
Que atividade é que se tem mantido nesta unidade?
 O serviço de urgência básico tem mantido a sua rotina normal. A consulta externa e o hospital de dia mantêm alguma atividade para situações urgentes e prioritárias, bem como a teleconsulta.

Tendo em conta o impacto que se prevê na saúde mental da população. Que atividade se manteve na psiquiatria?
Mantivemos a atividade para situações urgentes e prioritárias, bem como os tratamentos de doentes em sessões de hospital de dia.
 
Será necessário um reforço deste serviço pós-pandemia?
Sendo necessário, sabemos que o nosso serviço está dotado dos recursos necessários para ajustar a sua resposta às necessidades que vierem a ser identificadas. Temos de avaliar as necessidades a cada momento.

Temos conhecimento que os blocos operatórios vão normalizar. Que tipo de cirurgias já estão a ser agendadas e realizadas?
Estamos a reativar a atividade cirúrgica com um ritmo mais espaçado, para permitir rotinas de higienização mais rigorosas entre cirurgias e reduzir ao máximo os riscos de contaminação para doentes e profissionais.
Para já, reativámos alguma atividade em ambulatório e, no início de maio, começaremos a cirurgia convencional.
 
A transferência do hospital de dia do serviço de Oncologia para uma unidade privada era mesmo necessária?
Era mesmo necessário, de acordo com a normas definidas, isolar ao máximo os doentes oncológicos dos circuitos em que os doentes infetados estão em tratamento.
Por essa razão, e porque precisávamos de ter disponíveis mais espaços para os restantes doentes, a solução da deslocalização foi entendida ser tecnicamente a mais aconselhável.

Mas para quando o regresso destes doentes para o Hospital São Sebastião?
Esperamos reverter essa mudança logo que a situação epidemiológica o permita.
 
Que projetos de investigação científica estão a ser feitos no Centro Hospitalar relacionados com a Covid-19?
Temos vários profissionais da instituição envolvidos em processos de investigação científica de temas relacionados com a doença, fazendo-o em parceria com outras instituições académicas e clínicas. Nesta fase, as equipas estão a recolher e analisar dados, pelo que ainda é prematuro falar sobre esses trabalhos.

Em tempo de guerra não se mudam generais. Acha que este foi o lema utilizado pelo governo para a sua recondução no cargo?
Penso que as coisas não estão ligadas, pois quando o processo de nomeação do atual Conselho de Administração foi despoletado, estávamos longe de imaginar que iríamos passar por uma fase tão difícil como esta.

António Gomes Costa

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.