Escolas, creches e restauração reabrem com receios, mas com balanço positivo

Escolas, creches e restauração reabrem com receios, mas com balanço positivo

Entre as dúvidas e a ânsia de recuperar alguma normalidade, as escolas secundárias da cidade começaram as aulas presenciais para os 11º e 12º anos no início desta semana, a par das creches e da restauração, que também reabriram esta segunda-feira. Apesar dos receios, em todos os casos o balanço parece ser, para já, positivo.

Esta segunda-feira, o país recuperou alguma normalidade, com as medidas de desconfinamento do Governo que entraram em vigor depois de semanas em que todos estivemos fechados em casa devido à Covid-19.
Apesar das máscaras e da estranheza da distância e de circuitos, as escolas abriram portas para os alunos do 11º e 12º anos em tempos de preparação para os exames nacionais e os estudantes parecem estar sensibilizados para as regras de segurança e focados em pôr o pé na porta das universidades. Ao mesmo tempo, reabriram as creches, que em S. João da Madeira, à semelhança do resto do país, receberam apenas uma percentagem das crianças, mas cujo regresso se fez com uma tranquilidade inesperada por quem receava as novas dinâmicas com os mais pequenos.
Também restaurantes e cafés voltaram a sentar gente à mesa. A lotação limitada não permite aspirar a grandes voos, nem recuperar as perdas de semanas com as portas fechadas e contas a bater à porta, mas a clientela habitual parece querer dar uma ajuda e não deixou de visitar quem mais precisa em tempos de incerteza.

Escolas Alunos cumprem regras

A campainha não tocou, não houve abraços para matar saudades e muito menos convívios no recreio. O regresso às aulas dos alunos dos 11º e 12º anos às secundárias da cidade fez-se de tudo menos de normalidade, mas os estudantes mostraram-se capazes de cumprir as regras.
À porta da Escola Secundária João da Silva Correia, os alunos começaram a sair das aulas aos poucos e, sem largar as máscaras, iam pondo a conversa em dia. Apesar dos receios e medos, esta semana regressaram cerca de 300 alunos à João da Silva Correia para a preparação para os exames nacionais: só terão aulas presenciais das disciplinas a que têm exame.
Para entrar na escola, todos precisam de ter máscara – a escola pediu que a levassem de casa e argumentou com a gestão do stock que foi cedido pelas Forças Armadas, embora ceda a quem não a leve. Os alunos entraram nos blocos pela entrada lateral e tiveram que desinfetar as mãos e medir a febre. Os termómetros foram oferecidos pela associação de pais, que quis ajudar em tempos de pandemia. Há indicações nas paredes, no chão, nas portas para seguirem os circuitos.
Foi atribuído um piso a cada turma, que só tem aulas ou de manhã ou de tarde. Em cada piso, a turma divide-se por salas, cada uma tem um máximo de 15 alunos. Os jovens têm receio pelos exames, mas estão confiantes, mesmo não podendo sair da sala nos intervalos – só para o corredor – nem podendo tirar a máscara ao longo de quatro aulas seguidas de 50 minutos.
O diretor, António Mota Garcia, revelou que “o primeiro dia correu muito melhor do que estava à espera”, com os alunos sensibilizados para as regras de segurança. A cada mudança de turma, as salas são desinfetadas.
O mesmo sistema aconteceu na Escola Secundária Serafim Leite, aonde regressaram pelo menos 60 alunos, uma vez que os do ensino profissional não são obrigados a voltar. Parte da escola está em obras, o que deixou apenas um bloco para distribuir as turmas.
Criaram-se circuitos para cada turma, distanciaram-se as mesas dois metros, e até se estão a produzir viseiras para tentar oferecer a todos os alunos. “Somos fabricantes de viseiras desde o início da pandemia. Estamos a fazer para os nossos assistentes operacionais, professores e vamos tentar ter para todos os alunos”, diz a diretora Anabela Brandão.
O maior desafio de todos parece ser em disciplinas, como Matemática, que implicam a proximidade do professor para explicar exercícios. Mas até nisso os alunos estão compreensivos.

Creches 25% das crianças

No regresso às creches, depois das muitas dúvidas que pairaram em todo o país, tudo parece estar a correr bem. Ainda antes de abrirem as portas aos miúdos, as profissionais foram todas testadas à Covid-19 e assistiram a uma formação para enfrentar os tempos estranhos que se avizinham, entre máscaras, desinfeções e pais à porta. Tal como esperado, nas creches geridas pela Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira, só 25% das crianças regressaram. “Temos cerca de 240 crianças e só cerca de 55 é que vieram”, diz Vítor Gonçalves.
O diretor de serviços da instituição encontra várias explicações para isto: “O receio de alguns pais, a par da manutenção do direito à assistência a filhos menores de 12 anos, que muitas vezes acumulam com a situação de lay-off em que se encontram”. Ainda assim, Vítor Gonçalves acredita que “a partir de dia 1 de junho isso vai mudar, até porque cessa o direito à assistência a filhos menores”.
Agora, os pais não podem entrar dentro do edifício, as crianças são entregues e recolhidas à porta, “uma mudança significativa”. Também é medida a temperatura às crianças e trocada a roupa que trazem de casa. Há reforço da limpeza de superfícies e as refeições são feitas na sala, para minimizar os espaços ocupados e os circuitos. Um dos maiores receios estava no facto de as educadoras estarem de máscara. “Muitas crianças estranharam, choraram. Mas, na globalidade, está a correr tudo bem”.
Os desafios para cumprir todas as regras de segurança foram muitos, mas Vítor sublinha que a instituição já tinha “bastante experiência acumulada através do lar de idosos e da unidade de cuidados continuados”, o que lhes permitiu gerir este regresso com tranquilidade. “Em rigor, o facto de vir apenas 25% das crianças também nos ajuda a experimentar com outra serenidade a execução dos protocolos”.
Todos os trabalhadores das creches foram chamados a regressar ao trabalho, mas uma boa parte está também em assistência a filhos menores. “Na Creche Alberto Pacheco, em Fundo de Vila, temos quatro educadoras e só duas regressaram. No Centro Infantil, a situação repete-se. Mas isso não se tornou crítico para nós precisamente porque temos menos crianças”, conclui Vítor.

Restauração Clientes habituais ajudam

Pôr a chave na fechadura da Taberna do Zé, no centro da cidade, esta segunda-feira, foi para José Silvério, dono, o alívio que há muito precisava de sentir.
Numa família que vive de negócios da restauração – além dele, ambos os filhos têm bares em S. João da Madeira – o aperto ao fim do mês era inevitável. As contas e a renda continuavam a ter que ser pagas. E talvez por isso, Zé, como é popularmente conhecido, tenha sentido o carinho da clientela a duplicar: “No primeiro dia tive uma boa receção. Os clientes habituais vieram tomar café e desejar boa sorte. Tanto na hora de almoço, como durante a tarde, à hora de jantar e à noite senti uma receção cinco estrelas. Estão todos com muita vontade de ajudar”.
Com as novas regras, só pode ter dez pessoas em simultâneo dentro da sua taberna. De máscara posta, queixa-se: “A redução de mesas faz muita diferença, obviamente”. Tem cadeiras com indicações para que os clientes não se sentem e há álcool-gel em todas as mesas e no balcão. Limpa o espaço várias vezes ao dia e corre a desinfetar a casa de banho de cada vez que um cliente a usa. O pior deste regresso foi o facto de ter ficado sem a esplanada que as obras de revitalização do centro lhe roubaram. “A Direção Geral da Saúde aconselha o ar livre, mas a Câmara decidiu avançar com as obras sem avisar e fiquei sem esplanada”.
O desgosto de ter obras à porta, com uma fuga de água logo à saída do estabelecimento à conta da empreitada, acumula-se às semanas de agonia em que esteve sem rendimento. “Ainda hoje tinha clientes para comer, mas como não tinha esplanada, não quiseram ficar porque têm receio”.
Zé garante não ser contra a obra, mas critica a forma como agiu a Autarquia: “Sou contra o timing que foi escolhido. Não deram uma palavra, não mandaram um aviso aos comerciantes. Essa é a minha revolta. Sei que vou ter uma recuperação muito lenta e isto ainda veio piorar a situação”.

Catarina Silva

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