Entrevista com Miguel Paiva: “Em várias áreas ultrapassámos os objectivos do Plano de Revitalização iniciado em 2016”

Entrevista com Miguel Paiva: “Em várias áreas ultrapassámos os objectivos do Plano de Revitalização iniciado em 2016”

Quatro anos depois de assumir o conselho de Administração do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga, o economista Miguel Paiva é um homem feliz e garante que o balanço de todos estes anos “é positivo”. Numa altura em que as incertezas quanto à sua continuidade estão em cima da mesa do Governo, assume que está disponível para aceitar “qualquer decisão” que venha a ser tomada. Relativamente ao Hospital de S. João da Madeira, reconhece que 2018 foi um ano “extraordinário”, tendo superado, “pela primeira vez, os cinco mil doentes operados, um crescimento de aproximadamente 17,4 por cento, fruto das condições da unidade de Cirurgia de Ambulatório” que considera ser “uma das melhores do país”, onde são operados doentes de especialidades como Ortopedia, Otorrinolaringologia, Cirurgia Plástica, Urologia, Oftalmologia e Ginecologia. Relativamente ao serviço de urgência, reconhece já a confiança dos sanjoanenses e afirma que, a muito curto prazo, terá “excelentes condições” para os profissionais e utentes.

Jornal ‘O Regional’ – O Governo anunciou há poucos dias o afastamento dos Conselhos de Administração de mais de 14 unidades hospitalares. Nesse lote está incluído o Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga. Já recebeu alguma informação por parte da tutela para o cessamento de funções que desempenha desde Fevereiro de 2015?
Miguel Paiva – As nomeações dos dirigentes do sector empresarial do Estado cabem ao Governo, que decide pela recondução ou nomeação de novas equipas de gestão. Até à designação de novos titulares, as actuais administrações mantêm-se em plenitude de funções, o que tem acontecido connosco. Sou um profissional da gestão e faço, a cada momento, o melhor que sei e posso, sempre com total lealdade. Aceitarei qualquer decisão que legitimamente venha a ser tomada pelo Governo.

Que balaço faz de todos estes anos à frente do Centro Hospitalar que agrega os Hospitais de S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis e S. Sebastião?
É um balanço muito positivo. Em termos de evolução clínica, o CHEDV permanece com o seu cariz inovador em muitas áreas, como ainda recentemente provámos com a criação do primeiro Centro de Responsabilidade Integrada (CRI) em Portugal, para tratamento cirúrgico da obesidade, com a criação da Unidade de Hospitalização Domiciliária ou o reconhecimento como Centro de Referência Oncológico da doença Hepatobiliopancreática, só para dar alguns exemplos.
Sinto também que fizemos um grande trabalho para conseguir rentabilizar melhor todas as três unidades que integram o Centro Hospitalar, destacando aqui o forte incremento da actividade em S. João da Madeira, onde abrimos um Serviço de Urgência Básico e aumentámos bastante a actividade cirúrgica, com mais especialidades e novos procedimentos. Em Oliveira de Azeméis, também temos apostado na diversificação da actividade de Consulta Externa, com mais especialidade e meios de diagnóstico, mas também com a implementação de actividade no âmbito da Oncologia.
Há um aspecto de que me orgulho muito e que é um ponto fundamental da nossa acção: falo da interacção com a comunidade. Aqui destaco o excelente relacionamento que temos mantido com todos os autarcas da zona de influência do CHEDV, aspecto que tem sido muito importante para sermos melhor compreendidos e apoiados pela comunidade.

“Internamento cresceu 256 por cento”

Quando assumiu funções, que Hospital de S. João da Madeira encontrou?
Quando assumi funções, havia uma orientação superior no sentido de preparar a entrega da gestão do hospital à Santa Casa da Misericórdia. Pouco tempo depois, foi tomada a decisão de reverter esse processo e foram-nos dadas instruções para implementar um ambicioso Plano de Revitalização da Unidade, o que fizemos com grande empenho e com óptimos resultados.
Comparando o ano de 2016 com 2018, tivemos significativos aumentos no Hospital de S. João da Madeira, em várias áreas, como, por exemplo, no internamento, que cresceu 256 por cento, as consultas médicas cresceram 39 por cento, ao nível do bloco operatório tivemos um crescimento de 34 por cento no número de utentes intervencionados e o número de atendimentos na urgência cresceu quase 20 por cento. Só no ano de 2018 atendemos no Serviço de Urgência do Hospital de S. João da Madeira mais de 38 mil utentes.

As novas áreas do Serviço de Urgência já estão a ser utilizadas desde o passado dia 12. Os trabalhos decorriam desde 2017 e vêem agora concluída a primeira fase destes trabalhos de requalificação deste serviço, que se foram arrastando no tempo. Estas obras tiraram-lhe o sono?
Confesso que tem sido um processo com mais dificuldades e contratempos do que esperava. De qualquer forma, sinto que estamos no caminho certo e a muito curto prazo o Serviço de Urgência de S. João da Madeira terá excelentes condições para os profissionais e utentes, aliando os meios logísticos à boa qualidade do atendimento.

Que obras decorrem neste momento e o que é que ainda falta fazer?
Está em marcha a criação de espaços de balneários e áreas de repouso para profissionais e áreas de espera, dentro do serviço, para doentes e acompanhantes, que permitam que o serviço tenha mais conforto.

O certo é que, poucos dias depois da abertura das novas instalações da Urgência, as críticas começaram a surgir por parte dos utentes. Reclamam da sala ser fria, da porta estar sempre a abrir e a fechar, entre outras. Que medidas tomou já o Hospital para revolver estes assuntos?
Como em todas as obras, há detalhes que vão sendo ajustados à medida que o uso dos espaços vai acontecendo e será isso que vai acontecer também com esta obra. Deixe-me dizer-lhe que prefiro receber críticas por aquilo que fiz do que ser criticado por nada fazer para resolver os problemas.

“Qualidade e confiança da população no serviço de urgência”

O ano passado, o Serviço de Urgência deste Hospital recebeu mais de 38 mil utentes, uma média de 104 doentes por dia. Estes números provam a confiança que a população tem no Hospital?
Os números do volume de procura, mas especialmente os números relativos ao cumprimento dos tempos de espera, em que cumprimos em cerca de 90 por cento dos utentes, mostram claramente a qualidade e a confiança da população no serviço de Urgência.

Num sector tão dinâmico como é a saúde, há sempre espaço para se fazer mais e melhor. O que gostava ainda de alterar nos três hospitais?
Na saúde há sempre muito a fazer e projectos não nos faltam. Neste ano temos a implementação do Centro de Responsabilidade Integrada de tratamento cirúrgico da obesidade, um desafio enorme no qual nos estamos empenhados fortemente e que irá transformar-nos num dos maiores centros da Península Ibérica e mesmo da Europa nesta área. Este projecto, por exemplo, só será possível com a utilização do bloco operatório do Hospital de S. João da Madeira, algo que esperamos comece a acontecer ainda na primeira metade do ano, fruto dos investimentos que estamos a fazer em equipamentos.
Outro projecto em fase de concretização neste momento é a construção de uma nova sala de RX no Hospital de Oliveira de Azeméis, o que, para além de melhorar o apoio à urgência, permitirá que os doentes daquela zona deixem, em muitas situações, de ter de se deslocar às outras unidades para realizar exames de acompanhamento da sua situação clínica.
Temos ainda dois grandes sonhos, que são a requalificação do Serviço de Urgência do Hospital de S. Sebastião e a construção de uma unidade de internamento de saúde mental para os doentes da nossa região. Actualmente, estes doentes são internados no Porto, no Hospital Magalhães Lemos, o que causa grande transtorno às famílias.

Mas o Hospital central continua com muitas reclamações por parte dos utentes…
Essa é uma ideia errada. É verdade que há algumas reclamações, mas onde tem havido mais alteração é no número de elogios. Poucas pessoas falam disto, mas somos o hospital público do SNS que recebe mais elogios em todo o país. Quando iniciei funções, recebíamos um elogio por cada 10 reclamações e hoje essa relação é de um para cinco, o que mostra bem a evolução muito positiva registada a este respeito.
Sobre reclamações, há algo que gostava de realçar. Na urgência, que é o serviço que gera mais reclamações, temos algumas reclamações de doentes com situações de menor gravidade, mas raramente temos uma reclamação dos doentes que recorrem aos nossos serviços com situações verdadeiramente graves ou em risco de vida. Ao contrário, desses recebemos muitos elogios.
De qualquer forma, reconheço que nem sempre somos perfeitos e há sempre margem de melhoria. Mas quando temos mais de 200 mil episódios de urgência por ano, fazemos 270 mil consultas, internamos 17 mil pessoas ou realizamos 17 mil cirurgias, é humanamente impossível garantir uma taxa de sucesso de 100 por cento, pelo que algumas situações podem gerar insatisfação dos utentes.

“Também na consulta externa o ano foi excelente”

Em Janeiro de 2018, assumiu que 2017 tinha sido, provavelmente, “o melhor ano do Hospital de S. João da Madeira”, desde a integração no Centro Hospitalar. Que balanço faz de 2018 e como descreve atualmente a unidade de saúde de S. João da Madeira?

Miguel Paiva assumiu a presidência do conselho de Administração do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga há quatro anos


Em termos de actividade foi um ano extraordinário. Depois de termos tido em 2017 o melhor ano cirúrgico de sempre desde a criação do CHEDV, no ano 2018 conseguimos ainda crescer mais a actividade, superando pela primeira vez os 5.000 doentes operados, crescendo 17,4 por cento. Isso resulta das excelentes condições da unidade e da aposta que vários serviços cirúrgicos fizeram, operando muitos dos seus doentes em S. João da Madeira.

Mas existe lista de espera para cirurgia?
O CHEDV tem lista de espera, sendo contudo importante referir que nos procedimentos passíveis de ser realizados em ambulatório ela respeita integralmente os tempos de resposta garantidos.

E relativamente à consulta externa?
Também na consulta externa o ano foi excelente, pois crescemos nove por cento, superando as 37 mil consultas realizadas, o que foi possível com algumas apostas que fizemos aqui, como foi o caso da oftalmologia, em que equipamos a unidade em nível equiparado à unidade de Santa Maria da Feira. Em termos de Hospital de Dia, mantivemos a actividade com quase 7.500 sessões, tendo tratado mais 12,6 por cento de doentes.
O Serviço de Urgência manteve a sua boa resposta e, mesmo com os constrangimentos das obras, continuou a respeitar os tempos de espera.
Sinto que a unidade tem evoluído muito positivamente, reforçando a sua importância no contexto do CHEDV e sendo um esteio importante na resposta assistencial que oferecemos aos doentes da toda a área do Entre Douro e Vouga. Os dados mostram que, não só cumprimos os objectivos que estavam previstos no Plano de Revitalização iniciado em 2016, como os superámos em várias áreas.

“Qualidade clínica reconhecida como de excelência por várias avaliações”

Quer com isso dizer que este Hospital se destaca como uma das melhores unidades de Cirurgia de Ambulatório do país?
Seguramente que sim. Desde logo, pelo extraordinário número de cirurgias que temos conseguido, com números que poucos hospitais conseguem, mas principalmente pela qualidade clínica, reconhecida como de excelência por várias avaliações independentes, pela inexistência de reclamações e pela grande satisfação expressa pelos utentes.
Actualmente em S. João da Madeira operamos doentes das Geral, Ortopedia, Otorrinolaringologia, Cirurgia Plástica, Urologia, Oftalmologia e Ginecologia.

Relativamente às consultas externas, destacam-se as consultas de Obesidade, Diabetes, Pediatria e Pedopsiquiatria. Ao todo, estamos a falar de cerca de 10 especialidades, confirma?
Actualmente temos consultas de 14 especialidades, nas quais se incluem as áreas médicas, cirúrgicas e a psicologia. Como já referi, o ano 2018 foi muito bom de um modo geral no CHEDV, com crescimento de actividade, mas a Unidade de S. João da Madeira teve um crescimento de nove por cento, o que deu um excelente contributo para esse desempenho.

Que investimentos estão previstos para esta unidade de saúde?
Como já referi, iremos brevemente concluir o projecto de requalificação do Serviço de Urgência que, após esta intervenção, ficará muito bem apetrechado e dotado de condições muito melhoradas para utentes e profissionais. Outra aposta será a de intensificarmos ainda mais a área cirúrgica, sendo a realização de actividade no âmbito da obesidade uma evolução muito significativa.
Neste momento, o nosso intuito é o de consolidar a enorme evolução dos últimos dois anos e ir investindo essencialmente na melhoria dos equipamentos afectos às várias especialidades.

O CHEDV tem em funcionamento desde Novembro do ano passado um projecto que interna doentes nas suas casas. Os doentes e as famílias estão sensibilizados para este tipo de internamento?
Ainda há algumas resistências, que esperamos possam diminuir com o tempo. Um dos principais problemas é a resistência que sentimos, em muitas situações, por parte dos familiares/cuidadores que, por razões várias, acabam por não assumir o regresso a casa do seu doente. Os critérios de admissão são muito rigorosos e só quando sabemos que o risco de fazer a convalescença no domicílio é baixo é que propomos esta solução.

Esse internamento já chegou aos sanjoanenses, uma vez que tinha sido anunciado para 2019?
Este projecto inovador tem vindo a fazer o seu caminho com grande solidez. Nos primeiros dois meses, tratámos 27 doentes no domicílio.
Uma das situações que verificámos foi que seria possível alargar um pouco o raio de acção da nossa equipa, pelo que começámos, logo em Dezembro, a ter doentes de outros concelhos, com alguns casos em S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis e até um doente de Arouca.
O nível de satisfação dos doentes tratados é excelente e temos intenção de alargar a capacidade deste serviço para chegarmos o mais rapidamente possível às 15 camas. O primeiro passo já está dado e deve-se à generosidade da comunidade, pois recebemos a oferta de uma carrinha nova por parte da Liga dos Amigos do Hospital de S. Sebastião e de várias empresas, o que muito nos sensibilizou e mostra a confiança e carinho da comunidade pela nossa instituição.

António Gomes Costa

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