
Em entrevista exclusiva, ao jornal ‘O Regional’, o sanjoanense abriu o coração sobre motivações, estratégias e obstáculos que enfrenta.
“Estive na Sanjoanense como atleta durante cerca de 10 anos. Ganhei medalhas, cresci, e devo ao clube o homem que me tornei.
Voltar é uma forma de retribuir, de transmitir aos miúdos o que me ensinaram. Não é apenas ginástica, é formação de caráter”, afirmou o mais recente treinador da secção de ginástica do clube, com voz firme.
O treinador deixou claro que o regresso não é apenas simbólico, mas igualmente, um compromisso com a qualidade, o crescimento e a sustentabilidade da secção. “Se não crescer, abandono o barco. Vim para Sanjoanense para desenvolver e para criar algo sólido. Mas é preciso dedicação e alma de todos”, alertou, revelando a sua frustração com a falta de continuidade e investimento que encontrou ao retornar ao clube.
Entre os desafios imediatos estão a escassez de equipamentos e a adesão dos atletas. “Os materiais são caríssimos. Um mini trampolim de competição custa entre 6.500 e 7.500 euros.
Não é fácil começar uma modalidade assim, e precisamos de apoio financeiro e logístico”, explicou Vítor Monteiro. Apesar do obstáculo, ele já iniciou o trabalho com cerca de 14 jovens, um menino e treze meninas, e prepara uma classe especial para os meninos da Santa Casa da Misericórdia. “Vai ser uma vertente diferente, onde eles vão conseguir experimentar e aprender, mas não competir. Quero que participem em exibições e que cresçam sem pressão, sentindo que podem alcançar mais do que imaginam”, detalhou.

O desmembramento da ginástica em várias modalidades, entre ginástica rítmica, trampolins, tumbling e desportos acrobáticos, exige atenção individualizada. “Estou a desenvolver três modalidades ao mesmo tempo, dedicando tempo e atenção. Ensinar movimentos complexos como mortais exige segurança e acompanhamento constante. Não é apenas técnica, é formação, confiança e responsabilidade”, afirmou.
Vítor Monteiro acredita que os jovens precisam de aprender a confiar em si mesmos, e não depender exclusivamente do reconhecimento dos outros. “Às vezes, a primeira pessoa em que tens de acreditar és tu. É isso que tento transmitir aos meus atletas”, reforçou.
O treinador não esconde a sua frustração com o passado. Ao regressar, sentiu que parte do investimento e dos equipamentos que teria deixado no clube já não existia. “Chego e noto que os aparelhos desapareceram, o dinheiro que lá havia, já não existe. A nova direção conseguiu recuperar algum, mas é pouco. Fica um sentimento de pena. Para crescer, o clube precisa de pessoas que se entreguem de corpo e alma”, criticou.
Para o treinador, cada treino é uma batalha silenciosa contra a desmotivação, a falta de recursos e o ceticismo que ainda paira sobre a modalidade. “Chego ao ginásio e sinto a pressão de ter que fazer mais com menos. Cada aparelho, cada salto, cada exercício é uma prova de que é possível, mas exige entrega total. Não é só ensinar ginástica, é ensinar perseverança, coragem e acreditar que o impossível pode tornar-se realidade. Se os miúdos sentirem isso, vão levar para a vida o que aprenderam aqui”, afirmou.
Além dos desafios estruturais, Vítor Monteiro quer apostar na integração entre treinadores e modalidades, trabalhando em equipa com os seus colegas, para garantir que todos os jovens beneficiem de acompanhamento adequado. “O intercâmbio é fundamental. Cada movimento, cada ponte, cada flick, exige atenção. Comigo, eles têm assistência individual; com outros, pode ser diferente. Queremos que todos cresçam”, afirmou.
O treinador também defendeu a importância de uma maior ligação entre o clube e as escolas, com a colaboração de pais e professores, para criar uma rede de desenvolvimento desportivo e educativo. “Se fizermos um trabalho sério, alinhado, podemos gerar uma evolução real. Mas não há trabalhos fáceis, e tudo exige dedicação”, sublinhou.
Apesar da tensão, das dificuldades financeiras e da resistência inicial de alguns atletas a abandonar outras modalidades, Vítor Monteiro mantém-se confiante. “Estão a caminhar, vão crescer. Mas para isso, alguns hábitos precisam de mudar, algumas formas de trabalhar também. Segurança, compromisso e confiança são palavras de ordem”, concluiu.
O regresso de Vítor Monteiro à ADS vai além de um simples retorno físico, sendo um gesto simbólico de compromisso com a ginástica, uma oportunidade de inspirar a nova geração e demonstrar que, mesmo frente a obstáculos, é possível criar, ensinar e transformar. O treinador pretende elevar a secção de ginástica da ADS a novos patamares, enfrentando limitações financeiras e estruturais, ao mesmo tempo que confia na força de cada atleta e na essência de formação do clube.
Ir para o conteúdo

