Sociedade

“Basta tocar à campainha e não nos viram as costas”

• Favoritos: 137


Pela primeira vez na sua história, a Casa Azul promoveu uma Semana Aberta à Comunidade entre os dias 24 e 28 de junho.

‘Maria’, chamemos-lhe assim, tem uma história de vida intensa e resiliente. Ex-toxicodependente, casou-se em Braga e acabou por regressar à terra natal: São João da Madeira. Foi nessa altura que precisou de apoio. Nunca teve uma relação próxima com os pais, pelo que recorreu ao ‘Trilho’ quando mais necessitou. Já há mais de 10 anos que conta com esta resposta social para se manter no ‘trilho’ certo. “Quando estava a tentar afastar-me das drogas, vinha à Casa Azul quando precisava de apoio. Infelizmente, tive uma recaída… Isso levou-me à cadeia; fiquei sem casa e sem tudo o que tinha”, resumiu ‘Maria’, em entrevista ao jornal “O Regional”. “Agora, praticamente, vivo aqui. Esta é a minha casa”, acrescentou.
A sanjoanense enfatizou o apoio que lhe tem sido prestado, até pela “envolvência” do mesmo. “São incansáveis”, afirmou, referindo-se à equipa da Casa Azul. “Até na procura de trabalho! Não é que eu não queira trabalhar, mas, devido à minha idade e historial, é muito difícil”, lamentou. ‘Maria’ tem 47 anos e, além das dificuldades impostas pela vida, também ultrapassou um cancro da mama. “Já passei por muito. Fiquei sem pai e sem mãe e elas [equipa] sempre estiveram lá para me apoiar”, contou. Pela antiguidade na casa, ‘Maria’ recorda-se dos tempos em que os projetos ‘Trilho’ e ‘Trapézio Com Rede’ não existiam. “O ‘Trapézio’ ajuda-me a procurar trabalho e o ‘Trilho’ ajuda-me no que eu preciso”, completou.
Se não fossem estas respostas sociais, ‘Maria’ não teria ninguém do lado dela. “Ia ficar completamente desamparada. Esta é uma grande casa; basta tocar à campainha e não nos viram as costas”, enfatizou. “É fantástico; [a casa] não pode fechar”, declarou. A ex-toxicodependente referiu que sente um grande carinho pela equipa, existindo “amizade” e “respeito”. Já assistiu a situações em que outros utentes não têm estes valores como base, o que ‘Maria’ considera errado. “Somos todos diferentes, mas o respeito tem que existir. Considero que tenho uma personalidade forte, mas sou ‘equilibrada’. Sou uma pessoa calma e normal”, descreveu-se, entre risos. “Mudei ao longo dos anos com esta experiência. Vai também da educação que os pais nos dão; não me deram tudo, mas, nesse aspeto, não me posso queixar”, considerou a sanjoanense.
Da mesma forma que a equipa da Casa Azul ajuda ‘Maria’, esta também tenta ajudar no que lhe é possível. Tenta ser “apaziguadora” em momentos de conflito com outros utentes. “Entendo o que estas pessoas estão a passar, mas não têm o direito de ser mal-educadas. Para sermos ajudadas, temos que admitir que temos um problema. Eu sempre admiti o meu”, exemplificou. “Existem várias situações, desde pessoas alcoólicas até pessoas que perderam o seu trabalho e tudo o que conquistaram na sua vida. A minha vida está má, mas, com a orientação que recebo aqui, já não me leva ao desespero”, observou. ‘Maria’ tem medo de ter uma recaída e de não encontrar trabalho em breve, apesar de se esforçar nesse sentido. Já foi a várias entrevistas. Até agora, ainda não foi chamada. “Eu quero e preciso de trabalhar. Quero ganhar o meu dinheiro, ocupar o meu tempo e ter uma rotina”, admitiu.
Até lá, vai ocupando a mente para se distrair. Come no refeitório social ‘Senta.Com’ e à tarde participa nos ateliers fornecidos pela Casa Azul. “Participo em tudo”, reforçou. Deixa, também, um apelo a pessoas em situação semelhante: “Sei que muitas pessoas têm vergonha, desmazelo ou não querem sair da vida que levam, mas devem fazê-lo. Vergonha é não pedir ajuda!”

“Não deixamos de ser técnicas, mas preocupamo-nos com eles”

A assistente social Renata Silva está inserida no ‘Trapézio Com Rede’, projeto esse apoiado pelo ‘Trilho’. São vários os relatos de comportamentos aditivos e dependências. Segundo a diretora técnica do ‘Trilho’ – Unidade de Apoio nos Comportamentos Aditivos e Dependências, Branca Correia, já foram atendidas, desde 1999, 892 pessoas. “Anualmente, são atendidas cerca de 112 pessoas”, informou Branca Correia. Tal como referido por Renata Silva, trata-se de uma problemática que “arrasta outras”. “Por causa de consumo de substâncias, uma pessoa fica numa situação de sem-abrigo ou até ao contrário, arrastando-a para uma dependência”, exemplificou a assistente social. “Quando falamos de jovens, existem problemas relacionados com a família; acabamos por ser nós as figuras de apoio”, admitiu.
A equipa está presente em muitos momentos-chave dos seus utentes. Por exemplo, ao pequeno-almoço, embora seja um momento de satisfação de uma necessidade básica, a assistente social vê uma oportunidade para criar ligações com os utentes. “Não deixamos de ser técnicas, mas preocupamo-nos com eles e queremos saber como estão. Assim, conseguimos intervir de forma mais informal”, explicou Renata Silva. Uma das intervenções é relativa à procura ativa de emprego. “O mercado de trabalho tem muitas lacunas que não vão de encontro a este público. Os empregadores não estão sensibilizados para a questão da integração de uma pessoa que já vem com um ‘rótulo’, digamos assim”, lamentou. Entre os utentes apoiados, os casos de sucesso têm acontecido. “Não muitos; mas os [casos] que acontecem, são uma vitória”, garantiu Renata Silva. “Mesmo as pessoas que ouvem «não» consecutivamente nas entrevistas de emprego continuam a procurar ativamente; não deixam de ser resilientes e não deixam de fazer coisas extraordinárias”, afirmou, convicta.

Poderá ter acesso à versão integral deste artigo na edição impressa n.º 3996, de 11 de julho de 2024 ou no formato digital, subscrevendo a assinatura em https://oregional.pt/assinaturas/
137 Recomendações
632 visualizações
bookmark icon

Farmácias abertas

tempo