Desporto

A paixão pelo futebol no ADN da família Sousa

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De pai para filho, o futebol corre nas veias da família Sousa. António Sousa, antiga glória do FC Porto e Beira-Mar – onde venceu uma Taça de Portugal como treinador, numa final decidida pelo golo do seu filho –, e Ricardo Sousa

Jornal ‘O Regional’ – São uma família de atletas e desportistas. Considera que a sua carreira, enquanto atleta e treinador, influenciou de alguma forma os seus familiares?
António Sousa – Influencia pelo facto de o contacto ser constante; talvez mais por isso. De qualquer das formas, o ADN está na família. O meu surgiu por parte do meu pai; na altura, pelos vistos, acho que era um jogador e peras. Depois, houve uma sucessão normal de continuidade por parte dos filhos. Neste caso, dos meus irmãos também, em que o mais velho tem uma carreira excelente, embora na época as coisas fossem mais complicadas. Teve a possibilidade de dar o salto e não o deu porque não quis deixar a família. Mais tarde, surgi eu; tive a felicidade e a sorte de ter o dom virado para mim. Felizmente, consegui – através de uma superação constante e permanente, com trabalho diário e com uma vontade enorme de querer ser alguém no desporto –, julgo eu, conquistar uma carreira muito boa e brilhante no futebol.

Referiu que o seu pai era “um jogador e peras”. Acha que a paixão pelo futebol surgiu do seu pai?
Não consegui ver o meu pai a jogar porque ainda não tinha, provavelmente, nascido quando ele era jogador, mas a informação que as pessoas antigas passavam é que ele era muito bom. À exceção do meu pai, acho que não houve mais ninguém que se distinguisse no desporto no resto da árvore genealógica.

Conseguiu motivar os seus filhos e até netos a abraçarem o desporto?
A família está toda inserida no mesmo contexto como sequência normal de quem consegue estar no auge no desporto; neste caso, no futebol. Isso motiva, naturalmente, todos os familiares. Conseguem e têm de fazer companhia [uns aos outros]. Talvez, por isso, a paixão seja enorme e obrigue a família, de forma natural, a ver e a entrar dentro do próprio futebol.

O António ainda joga nos tempos livres?
Não. Desde que deixei de jogar, passei a treinador e, mesmo assim, pouco ou nada fiz em termos de jogo e de correria. Parei completamente e dediquei-me só à vida pessoal. Estava mais que na altura, sem dúvida.

Atualmente, o Ricardo é treinador do Vizela. Uma vez que o António também já foi treinador, alguma vez o seu filho lhe pediu algum conselho nesse sentido?
Não. São ideias que estão na mente das pessoas. Ele gosta e adora, naturalmente, o futebol e o desporto. Depois de ter abandonado [enquanto jogador], espreitou a possibilidade de querer prosseguir a carreira no próprio futebol. Teve e tem a capacidade mental de conseguir superar a possibilidade de poder ser alguém, também como treinador, no próprio futebol. Penso que tem condições e características que permitem, realmente, que o Ricardo vá muito mais além. Tem dado passos certos, aqui ou acolá com algumas oscilações, mas a superação e a mentalidade que ele tem fazem com que, efetivamente, neste momento, esteja numa fase bem mais positiva. Penso que as equipas por onde ele tem passado – e não o digo pelo facto de ser meu filho – têm uma qualidade de jogo brutal. Agora, é necessário um pouco de sorte no acompanhamento; tem de ter um pouco de fruta boa para poder fazer algo de muito positivo. É isso que o Ricardo tem procurado e que tem feito.

“A família está toda inserida no mesmo contexto como sequência normal de quem consegue estar no auge no desporto; neste caso, no futebol”
António Sousa

De que forma é que a carreira desportiva de António Sousa influenciou o seu gosto pelo futebol?
Ricardo Sousa – Normalmente, quando somos miúdos, olhamos para os nossos pais como os nossos ídolos. Penso que todos nós olhamos para o pai da mesma forma. Por exemplo, eu olhava para o meu pai e gostava de fazer aquilo que ele fazia. Como ele estava ligado ao futebol, comecei a gostar de futebol e a ir aos jogos, a brincar mais com a bola… isso acabou por me trazer um bocadinho para o mundo do futebol.

Recorda-se da idade que tinha quando se apercebeu, direta ou indiretamente, que o pai o influenciou para seguir as pisadas do progenitor?
O meu pai nunca me influenciou. Até aos dias de hoje, nunca falamos muito de futebol. Na altura, como ele estava ligado ao futebol, eu gostava de o acompanhar; muitas vezes, ia aos treinos quando o meu pai jogava no Porto. Recordo-me de ir aos treinos quando tinha quatro, cinco anos; isso acabou por me ligar, de forma efetiva, ao desporto e ao futebol.

Enquanto jovem, há algum momento que tenha ficado marcado na sua memória até aos dias de hoje?
Há alguns momentos. Recordo-me de estar magoado de um pé, andava de muletas e acabei por ver um treino dele no estádio das Antas. Uma vez, o meu pai teve um problema numa orelha; foi suturado e eu estava no balneário com ele, depois de um jogo. Ainda era pequenino, mas existem algumas recordações que perduram. Recordo-me, sem margem para dúvidas, do golo que o meu pai marcou na final das Taças das Taças em 84 na Suíça; fui de avião com a minha mãe. A minha mãe não se apercebeu quem tinha marcado o golo e eu comecei a gritar, da bancada, «foi o meu pai!». Lembro-me disso como se fosse hoje e, na altura, tinha seis ou sete anos.

À semelhança do seu pai, começou como jogador na AD Sanjoanense, ingressou em vários clubes de renome e há largos anos que é treinador. Como surgiu essa transição?
Ao longo da minha carreira e a partir dos 25/26 anos, comecei a ter a certeza absoluta que um dia mais tarde, depois de acabar a carreira, gostaria de ser treinador, porque me revia em algumas coisas. Comecei a tomar as minhas notas e a tirar as coisas boas e más de outros treinadores que tive; aprendemos com o bom e com o mau. Quando acabei a minha carreira aos 36 anos, o meu intuito era ser treinador de imediato porque me sentia preparado. Tive propostas para começar num patamar mais acima, mas senti que precisava de experiência. Tive a proposta da Sanjoanense e acabei por começar a minha carreira de treinador no mesmo sítio onde comecei também a minha carreira de jogador. Foi muito positivo e orgulho-me muito disso.

“Normalmente, quando somos miúdos, olhamos para os nossos pais como os nossos ídolos. Penso que todos nós olhamos para o pai da mesma forma”
Ricardo Sousa

Atualmente, é treinador do Futebol Clube de Vizela. Como está a correr a época até ao momento?
É um projeto difícil, não pela qualidade do plantel nem pela ideologia do próprio clube, mas pela alteração do plantel de um ano para o outro. Saíram sete jogadores titulares; a equipa, basicamente, é nova. O clube é exigente e, se no ano passado o objetivo já era subir, este ano, com aquilo que se fez na segunda parte da época no passado, o objetivo acaba por se manter o mesmo, mas com um plantel basicamente novo, o que dificulta muito o trabalho. Até agora, penso que o trabalho tem sido feito de maneira positiva. Sabemos que a Segunda Liga é competitiva, onde existem muitos candidatos à subida, mas nós queremos percorrer o nosso caminho, fortes e coesos, para no final podermos ter aquilo que desejamos.

Mediante o seu percurso profissional desportivo, considera que a sua família tem um bom gene de atletas?
Sim; acho que já não vem do meu pai, mas sim de gerações antigas, principalmente do meu avô. O meu tio Carlos também foi jogador, os meus primos Zé e Rui também foram, depois o meu pai, eu, o Afonso… não sabemos se vem mais alguém, mas o que é certo é que, com tanta progressão de futebol de geração para geração, é normal que os genes sejam fortes e que nos encaminhem para o desporto.

Como pai de duas meninas, acha que este gosto pelo desporto vai passar, ou já passou, para as suas filhas?
Sem margem para dúvidas. Acho que o gene do desporto está bem patente na família Sousa. A Laura [sete anos] e a Leonor [15 anos] também estão no desporto; ambas jogam basquetebol no Beira-Mar. É bom gostarem do desporto porque acho que o desporto coletivo acaba por moldar as pessoas, fazendo-as crescer e entender as dificuldades. Acabam por se ajudar mutuamente nas vitórias e nas derrotas e isso acaba por ser positivo para o seu crescimento pessoal.

 

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