Música

Um fagote luxuriante a abrir o mês da folia em São João da Madeira

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O calendário gregoriano é claro – fevereiro é um mês único: porque se transforma a cada quatro anos; porque, ainda assim, é sempre mais pequeno que todos os outros; porque ajusta o ritmo da humanidade à rota celeste do planeta; porque se veste de um antagonismo de quem celebra a folia com todo o esplendor, para logo de seguida se recolher na penitência. O concerto do passado domingo, dia 1, continuando o ciclo AcáMúsica, trouxe a palco o virtuosismo da fagotista oliveirense radicada em Viena, Francisca Bastos, e da brilhante pianista catalã-mais-portuguesa-do-mundo, Isolda Crespi Rubio. O programa, composto exclusivamente por obras compostas nos últimos 25 anos, por compositoras nascidas na segunda metade do século passado, apresentou as diferentes facetas emocionais e contrastantes que a música pode ter. Por um lado, a celebração do vigor, do ritmo marcado, vivo, vibrante, presente nos andamentos rápidos da sonata da norte-americana Nancy Galbraith e o balanço os ritmos argentinos propostos por Noelia Escalzo. Por outro o lirismo e a melancolia da Ária de Lera Auerbach. No intermédio, o desafio ao pensamento, à interpretação emocional, à linguagem mais contemporânea proposta pela compositora portuense Ana Ataíde Magalhães. Nas mãos de Francisca Bastos, o fagote apresentou-se como um instrumento luxuriante, capaz de recortes sonoros e articulações que o aproximam de sonoridades percussivas, assim como de amplas e sustentadas melodias que o colocam numa relação de ligação extrema com a voz cantada. Suportada pelo brilhante suporte harmónico, rítmico e estético que Isolda Crespi Rubio proporciona aos inúmeros instrumentistas que acompanha, os sons feitos em música pelo sopro de Francisca estrearam obras nunca ouvidas em Portugal, propondo ao público presente novas formas de escuta, de vibração, de compreensão musical. Com os habituais comentários de José Luís Postiga, o concerto abriu as portas à folia, relembrando que, como dizem os mais sábios, se a vida tem dois dias e o Carnaval são três, então que impere a alegria antes que o tempo se encarregue de a fazer acabar – ou não fosse o tempo a unidade vital da música. Afinal, como mostra fevereiro, da festa ao recolhimento vai apenas um virar de dia.

 

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