
No sábado, dia 10 de janeiro, a Biblioteca Municipal de S. João da Madeira foi cenário da apresentação do livro “Que Cidade Queremos”, da autoria do arquiteto Mário Pessegueiro numa sessão que aliou pensamento crítico, cidadania e reflexão.
Concebido como um exercício de questionamento coletivo, o livro propõe 30 perguntas diretas sobre a cidade, desde a habitação à mobilidade, do comércio de proximidade à participação cívica, procurando estimular uma leitura acessível, sem recorrer a excessos de linguagem técnica, mas sem abdicar do rigor conceptual. “Não é um livro técnico, nem um livro para críticos ou especialistas; é um livro para a sociedade em geral”, sublinhou Susana Machado, arquiteta e assessora da Ordem dos Arquitetos, durante a apresentação, acrescentando que muitas das questões colocadas são “simples à primeira vista, mas de desenvolvimento complexo, porque tocam diretamente o quotidiano urbano”.
Na sua intervenção, Susana Machado destacou a cidade como um organismo vivo, moldado por decisões coletivas e omissões sucessivas, lembrando que “a cidade não é apenas um conjunto de ruas e edifícios, é o resultado das escolhas que fazemos, ou que deixamos de fazer”. Referindo temas como a pressão do turismo, a crise habitacional e a mobilidade urbana, alertou para o risco de perda de identidade dos centros urbanos, defendendo que “uma cidade sustentável não se constrói com proibições, mas com alternativas”, sob pena de afastar moradores, esvaziar o comércio tradicional e transformar ruas em meros corredores de passagem.
A sessão contou também com a intervenção de Francisco Mário Gouveia, dirigente intermédio do Instituto da Segurança Social e ativista na área da deficiência, que trouxe para o debate a dimensão da acessibilidade e da inclusão. Para o orador, o livro evidencia que “a cidade não é neutra, podendo incluir ou excluir”, sublinhando que a mobilidade urbana vai muito além dos transportes, sendo antes “a possibilidade real de chegar ao trabalho, à cultura, à participação cívica”. Nesse sentido, afirmou que “quando uma pessoa não consegue circular sozinha, a cidade está apagada”, lembrando que a exclusão urbana não afeta apenas pessoas com deficiência, mas todas as fases da vida.
Ao intervir, Mário Pessegueiro explicou que “Que Cidade Queremos” nasceu da observação atenta do território e da vivência concreta das cidades, incluindo São João da Madeira, que inspirou os primeiros capítulos e várias ilustrações da obra. “Direcionei o livro para questões amplas e não intelectualizadas, para que fosse verdadeiramente acessível ao leitor”, explicou o autor, defendendo que a reflexão sobre a cidade deve ser um ato cívico e participado. Para o arquiteto, o caráter “indisciplinado” do tema justifica que as 30 questões agora publicadas possam vir a multiplicar-se.
“As interrogações sobre a cidade são potencialmente infinitas, mas é fundamental que despertem nas populações o desejo de participar e exercer o seu poder de cidadania”.
Licenciado em Arquitetura pela então ESBAP, atual FAUP, Mário Pessegueiro reside em São João da Madeira e tem conciliado a prática profissional com a escrita regular em vários órgãos de comunicação social, onde aborda, com frequência, as problemáticas das cidades contemporâneas.
Ir para o conteúdo

