
Segundo o autor, “Sob o Olhar do Infinito” poderá ser o romance mais impactante do seu percurso literário, uma obra futurista que projeta um futuro próximo em que a centralidade dos robôs coloca em causa o destino da humanidade.
A convicção foi partilhada durante a apresentação pública do livro, realizada no passado mês de dezembro, na Biblioteca Municipal Renato Araújo, perante familiares, amigos e leitores. O romance cruza ficção especulativa e reflexão filosófica, sem se afastar da ideia de Deus.
Com perto de duas dezenas de livros publicados, entre os quais Viagem ao Fim do Império, distinguido em 2006 com o Prémio Literário João da Silva Correia, instituído pela Câmara Municipal de São João da Madeira, Martz Inura situa a ação do novo romance num futuro próximo. Nesse contexto, os robôs assumem funções cada vez mais centrais na vida social, colocando em causa o próprio futuro da humanidade.
O romance começa e termina num hospital e incorpora uma dimensão satírica que o autor, residente em São João da Madeira há vários anos, define como “uma paródia à política nacional e internacional contemporânea”.
Apesar desse registo, deixa um aviso claro aos leitores. “O que ali se diz é para ser levado a sério”. A obra aproxima a ficção de desenvolvimentos tecnológicos que considera iminentes, evocando declarações públicas recentes de vários especialistas, segundo as quais 2026 deverá marcar a chegada ao mercado da primeira vaga de “robôs humanóides comerciais”.
Essa fase inicial deverá incluir robôs pessoais, destinados ao uso doméstico e à prestação de serviços, e robôs sociais, concebidos para cuidar de idosos e de doentes acamados. “Não vão ser tão sofisticados como nos filmes”, admite, sustentando, ainda assim, que a sua disseminação será inevitável. “A tecnologia, a economia e as necessidades sociais, quer queiramos quer não, vão impô-los”.
Martz Inura frisa, também, que o romance deve ser lido não apenas como um exercício de imaginação, mas ainda como uma reflexão sobre um futuro que, diz, já começou a desenhar-se.
A sessão contou com a presença do Bispo Auxiliar do Porto, Dom Roberto Mariz, que sublinhou a dimensão humana e espiritual da obra, cuja ação se projeta no futuro. “Há literatura que vai para além da espiritualidade e espiritualidade que ultrapassa a literatura, mas a fonte comum é enorme e extensa”, afirmou, salientando que essa relação toca frequentemente “um ponto do real”.
Referindo-se à ação do livro, situada no futuro, Dom Roberto Mariz sustentou que a literatura pode abrir caminhos de inquietação e de procura interior, comparando essa experiência à tentativa de “sentir a existência do mar”. Para o bispo auxiliar, essa abertura permite um alinhamento com a espiritualidade e convoca o ser humano à interrogação e à ação. Acentuou ainda que a obra “não foge a essa lógica”, frisando que o autor constrói, ao longo de todo o livro, uma energia constante e profunda que sustenta a narrativa e lhe confere densidade espiritual.
O percurso literário do autor “honra e prestigia a cidade e a região”
Em representação da autarquia, a vereadora da Ação Social e Inclusão da Câmara Municipal de São João da Madeira classificou o romance como uma obra de forte atualidade cívica, apesar do seu enquadramento futurista. “Num mundo que parece dispensar o pensamento, a literatura assume-se como um espaço de resistência, de interrogação e de liberdade”, afirmou, sublinhando o papel do livro enquanto instrumento de reflexão crítica.
Dulce Santos valorizou ainda o percurso literário do autor sanjoanense, considerando que a consistência e maturidade da sua obra “honram e prestigiam a cidade e a região”, enquadrando a apresentação do romance no apoio municipal à criação cultural. No plano institucional, destacou o papel da Biblioteca Municipal enquanto espaço ativo de divulgação literária e de promoção do pensamento crítico. “Não é apenas um local de consulta ou empréstimo de livros; é um espaço vivo”.
Anunciou, por fim, que a Câmara Municipal prevê no orçamento para 2026 “uma intervenção profunda” na Biblioteca Municipal, investimento que classificou como estruturante. “Será um compromisso com a promoção da leitura, com o acesso ao conhecimento e com a valorização da cultura”.
Editado pela Âncora Editora, o romance soma-se a uma obra vasta e diversificada, que atravessa a crítica literária, a poesia e a prosa.
A apresentação foi pontuada musicalmente pelo grupo Dona Ofélia.
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