Luísa Guerra vence Bolsa Amélia Rey Colaço com espetáculo sobre intimidade e prazer na era digital

O espetáculo parte de uma situação familiar: uma pijama party entre três amigas. Mas rapidamente esse cenário transforma-se num campo de investigação poético e político sobre crescimento, desejo, vergonha, consentimento, e construção da identidade sexual na contemporaneidade.
O palco é um quarto em escala oversized, espaço simbólico que acolhe a tensão entre o conforto da intimidade e o confronto com a autodescoberta. É nesse contexto que emerge uma pergunta central: “É mais íntimo convidar alguém para o nosso quarto ou dar-lhe a palavra-passe do nosso computador?”
Mas, segundo Luísa Guerra, a pergunta central do espetáculo não é a que os teatros divulgaram. “A verdadeira pergunta é: Será o futuro da sororidade sobre prazer?”, explica. “É uma resposta ao movimento #MeToo, onde o prazer pode ser a base da felicidade e não da violência. Prazer sexual, social, político, tecnológico, lúdico…”
A artista vê a pijama party como “uma alusão à resistência e união entre pessoas femininas.” Um conceito demonizado pelas regras do patriarcado, anti-feministas e anti-femininas, que “se atropelam a tentar erradicar a simpatia e a sororidade entre amigas, a intimidade, o desejo e, claro, a iconografia do cor-de-rosa, dos peluches, da cultura pop, que são sempre vistas como subcultura, vazia e de entretenimento”, mas que, na verdade, têm (ou podem ter) um papel potenciador de emancipação e uma base discursiva política.
A peça cruza experiências biográficas e referências feministas, transfeministas e não-binárias. “As nossas vivências são o ponto de partida para encontrar a teoria e vice-versa. If you do not unlearn misogyny, transphobia, homophobia or racism, you’ll probably miss the best sex of your life”, afirma a criadora.
Durante o processo, a equipa adotou um código de consentimento diário. “Todos os dias de ensaio fazemos um check-in emocional, para perceber que temas podemos abordar. Esse cuidado é o princípio dramatúrgico do projeto.”
A atribuição da Bolsa Amélia Rey Colaço, promovida por instituições como o Teatro Nacional D. Maria II, o Centro Cultural Vila Flor, O Espaço do Tempo e o Teatro Viriato, vem com um apoio financeiro de 24 mil euros, residências artísticas e a apresentação da peça nos teatros parceiros.
Mais do que um espetáculo, “TOSHiiB4” é uma proposta estética e política, que reimagina o prazer e a intimidade como forças de transformação na era digital.
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