
O sanjoanense Hélder Teixeira Aguiar venceu a 18.ª edição do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís com o romance «Na Tua Mão».
“Receber um prémio com o nome da nossa grande Agustina Bessa-Luís é uma honra que acarreta uma enorme responsabilidade”. A frase é de Hélder Teixeira Aguiar, Médico de Família na USF São João e elemento da equipa de Cuidados Paliativos do CHEDV, agora distinguido com o galardão atribuído pela Estoril Sol.
O autor recorda, em declarações a `O Regional´, o momento em que soube da decisão do júri. “Quando o professor Guilherme d’Oliveira Martins me telefonou, num domingo à noite, fiquei sem palavras”. Explica que sentia “uma barreira quase mítica entre o escrever e o conseguir publicar”. A distinção marcou uma rutura no seu percurso – “Foi como que um encantamento que a quebrou e isso tem um significado profundo para mim”, enfatiza.
O romance nasceu de uma investigação sobre o estreito do Darién, “um gargalo geográfico, 100 quilómetros de selva hostil entre a América do Sul e a Central”, percorrido anualmente por mais de meio milhão de migrantes. O escritor sublinha que o impacto maior foi a “dimensão humana” da travessia. “Uma proporção assustadora são crianças e jovens. Em média, nove menores atravessam aquela selva sozinhos todos os dias. São os esquecidos, expostos à perfídia humana sem filtros. Com esta obra, procurei dar-lhes voz”.
Os protagonistas – dois irmãos luso-descendentes que escapam da Venezuela – foram construídos a partir dessa realidade. “Os episódios que os marcam na selva não são invenções. Basearam-se em descrições reais que retirei de relatórios, entrevistas, vídeos e até do contacto direto com estas pessoas”.
Numa leitura mais ampla do contexto venezuelano, Hélder Aguiar explica que o início do romance parte da diáspora venezuelana, “uma realidade que transbordou para o nosso país”. Indica que há “um diálogo tenso entre o que empurra estes jovens – a repressão a opositores e suas famílias, a pobreza, a censura, as prisões arbitrárias – e o que os espera na selva”. Acrescenta que o romance “não foge a essa dureza, mas recusa o voyeurismo da violência”. Refere ainda a “simetria trágica” entre gerações – “Os avós destes jovens emigraram de Portugal para a Venezuela à procura de futuro quando o nosso país vivia uma ditadura; agora, os netos fazem o caminho inverso pelas mesmas razões, mas em condições extremas”.
O peso das origens sanjoanenses
Sobre a arquitetura do romance, o médico assinala que o maior desafio foi “cruzar um limiar de público-alvo”. Sublinha que a obra “aborda e reflete temas sérios e contemporâneos, mas entrega o protagonismo, e a própria narração da história, a dois jovens”, podendo cativar leitores com perfis distintos. Considera que o livro “não subestima a capacidade dos mais jovens de poderem alcançar reflexões profundas sobre temas adultos e universais como a migração”, ainda que surgindo “de forma mais sequencial, fragmentada e, por vezes, dissimulada”.
Do ponto de vista estrutural, destaca a polifonia – “Outro aspeto que define a obra é a dupla narração. Rúben e Gonzalo contam os seus lados da história através das suas vozes distintas”. O cruzamento de línguas – “o português, o espanhol, o jargão dos videojogos, a língua dos outros personagens e até os sons da natureza, que funcionam como ‘língua do instinto” – acompanha o estado emocional dos protagonistas. “À sua maneira, cada um deles envereda nessa busca da portugalidade, porventura idealizada nas suas mentes jovens, escondida pelo véu da memória”, revela ainda a ‘O Regional’.
“Um romance de aventura, aprendizagem e superação”
A edição pela Gradiva resulta do prémio. Questionado sobre o impacto na circulação da obra e na projeção cultural de São João da Madeira, o autor afirma que a publicação por “uma das editoras mais prestigiadas do país” representa “um sonho tornado realidade”. Acrescenta que fazê-lo “carregando a identidade de São João da Madeira é um orgulho”. Sublinha o peso das origens – “A herança de labor e resiliência dos meus avós, operários e sapateiros, está impregnada neste romance”. Lembra também que a cidade tem “uma alma única”, retratada no Unhas Negras do João da Silva Correia. E conclui que apresentar o livro na “sua” cidade será uma forma de retribuir. “Trazer a apresentação pública do meu primeiro romance a São João da Madeira será uma forma de devolver à cidade que me formou”.
De salientar que em ata, o júri presidido por Guilherme d’Oliveira Martins descreveu «Na Tua Mão» como “um romance de aventura, aprendizagem e superação de dois irmãos de 11 e 17 anos, de nacionalidade portuguesa, mas vivendo nas regiões conturbadas da Venezuela. Perseguidos por carteis da droga por causa da mãe, jornalista, ‘entretanto desaparecida”.
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