Cultura e Lazer

Entre o excesso e o vazio, HORROR VACUI transforma a inquietação em linguagem estética

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No Centro de Arte Oliva, o vazio não é silêncio, é tensão. É precisamente nessa tensão que se instala “HORROR VACUI”, uma exposição que reúne cerca de noventa figuras antropomórficas da Coleção Treger Saint Silvestre

Animais, máquinas, espíritos, humanos, monstros e anjos coexistem num espaço saturado, onde cada elemento parece lutar contra o vazio, como se preencher fosse a única forma de resistir à desintegração. A exposição, patente entre 21 de março de 2026 e 24 de janeiro de 2027, destaca-se como uma experiência sensorial e filosófica que desafia o visitante a confrontar-se com o desconforto do demasiado cheio.
A curadora Marta Jecu sintetiza essa ambiguidade ao sublinhar que “o horror vacui introduziu na história da arte uma estética que, talvez primordialmente desvinculada da necessidade de ornamento, está sobretudo ligada a uma forma de experienciar o mundo: uma mistura de liberdade intensa e tormento agudo”. E é precisamente essa dualidade que atravessa toda a mostra.
Mais do que um conceito formal, o “horror vacui” é aqui entendido como uma estratégia psicológica e existencial. Como se preencher o espaço com imagens, símbolos, corpos e fragmentos, fosse uma forma de proteção contra o desconhecido. “Preencher o vazio torna-se uma estratégia de estabilização existencial”, lê-se no enquadramento conceptual da exposição, onde o excesso funciona como uma resposta à incerteza ontológica.
Mas essa resposta não é linear. O mesmo impulso que liberta pode também aprisionar. A saturação, quando levada ao extremo, dissolve fronteiras e cria um universo onde os elementos se tornam indistintos, quase caóticos. Nesse sentido, o horror vacui revela também o seu lado mais inquietante, entre a ansiedade do vazio transformada em compulsão, numa tentativa incessante de controlar o incontrolável.
“A própria disposição das obras parece reforçar essa ideia. As figuras, densas, materiais e intensamente expressivas, ocupam o espaço com uma presença quase agressiva. São corpos que insistem em existir. Pesados, artesanais, marcados pelo tempo e que, ao mesmo tempo, parecem conter em si uma dimensão simbólica.”
Para a curadora, este conjunto de obras constitui um território onde o visitante é confrontado com múltiplos “outros”, “uma aproximação aos infinitos ‘alter egos’ dos artistas”, que falam através destas figuras híbridas e inquietantes. O resultado é uma experiência quase corporal, onde o olhar não promete e é necessário atravessar o espaço, sentir a densidade e deixar-se afetar pela proximidade das formas.
A exposição posiciona-se também como uma resistência estética às tendências dominantes da arte contemporânea. Longe da contenção minimalista ou do silêncio espacial, “as obras afirmam a acumulação, a veemência e a desordem como formas legítimas de expressão.” Trata-se de um território que desafia a lógica moderna da síntese, abrindo espaço para o excesso como linguagem.
Nesse sentido, “HORROR VACUI” é uma afirmação contra o vazio entendido como ausência, e a favor do vazio entendido como possibilidade. Uma afirmação de que o excesso pode ser tanto um problema quanto uma solução.
Durante a inauguração, a diretora do Centro de Arte Oliva, Lara Soares, destacou precisamente o caráter transformador do projeto. “É muito importante para mim… estamos a iniciar um novo ciclo”, sublinhando a chegada da primavera como metáfora para renovação institucional e artística. Para a responsável, este é também um espaço de reencontro com o público, onde o corpo assume um papel central na experiência artística.
A exposição surge ainda integrada num conjunto mais amplo de programação cultural, com visitas guiadas, conversas e atividades educativas, assegurando a dimensão participativa do espaço. Entre os destaques está o envolvimento do escritor Gonçalo M. Tavares, que contribui com um texto original apresentado como peça sonora. A sua intervenção acrescenta uma camada conceptual à exposição, de maneira a funcionar como um eco contínuo que acompanha o visitante ao longo do percurso.
Também um dos colecionadores António Saint Silvestre sublinhou a importância deste diálogo entre coleções e linguagens, afirmando que “na arte não há concorrência”, mas antes uma convivência entre diferentes expressões que se complementam. A presença simultânea de arte bruta e arte contemporânea criaria, assim, um campo de tensão produtiva, onde o excesso e o vazio coexistem como forças criativas.
No fundo, “HORROR VACUI” não procura respostas. Procura inquietar. E, ao fazê-lo, devolve ao espectador a consciência de que o vazio não é ausência, mas sim “um campo de possibilidades.” E igualmente, um espaço que, quando demasiado temido, pode levar ao excesso.
Entre o cheio e o vazio, entre o ser e o não ser, a exposição instala-se como um limiar. E é nesse limiar que tudo acontece.

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