Música

Bruno Santos enche auditório Marília Rocha

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Ser intérprete é ser responsável da transmissão de uma obra criada pelo compositor, é ser, de certo modo, um ator que encarna um papel criado por outro, afirmou recentemente Maria João Pires numa entrevista televisiva dada à RTP3 no passado dia 21 de Fevereiro. Esta afirmação não é incompatível com o facto de, ao longo da história da humanidade, terem sido, muitas vezes, os intérpretes o mote para o processo de composição, seja através de encomendas de obras, seja por desafios aos criadores para desenvolverem repertório específico para instrumentos em desenvolvimento e afirmação.
Stage é o nome do novo trabalho de Bruno Santos, um conjunto de encomendas realizadas pelo intérprete, Bruno Santos, a jovens compositores, com o intuito de desenvolver repertório para um instrumento muito específico e especial, o saxofone barítono, explorando várias das facetas sonoras que o instrumento apresenta, unificado em torno de uma temática: o estado mental e as emoções que uma obra musical pode despoletar perante a audição de uma determinada obra. Foi este o mote para o concerto de março do ciclo AcáMúsica, do passado domingo, dia 4.
Num Auditório Marília Rocha praticamente lotado, Bruno Santos, acompanhado ao piano por Eugénia Lameiro, e apoiado pelos comentários de José Luís Postiga, (investigador integrado do Instituto de Etnomusicologia – centro de estudos de música e dança), trouxe à plateia um programa completamente novo, pleno de estreias nacionais e mundiais, repleto de frescura e agregador no seu propósito: o multiestilismo e a policulturalidade que marcam cada uma das obras como veiculo para fazer chegar a todos os tipos de público quer o timbre do saxofone barítono, como uma reflexão sobre a mente, os seus estados, a sua saúde. Para isso muito contribuiu a escola do repertório, com obras de compositores portugueses escritas especificamente para o efeito, com o desafio preparado pelos comentários, em antecipação à execução de cada tema, de propor à mente de cada ouvinte a associação a um estado. Da reflexão sobre a personalidade proposta por “As I am” de Steve Banks, à exaltação do prazer em “Tango Suave” de Jean Matitia, peças que abriu e fechou o concerto, respetivamente, o público foi convidado a entrar na melancolia dos “Ostinati” de José Martins, a sentir a transformação proposta por “Veneno” de Diogo Santos, a excitação da liberdade de “Otter” (lontra) de Diogo Cordeiro, a exaltação da beleza feminina na “Balada p’ra Maria” de João Milheiro.
Virtuosos são aqueles que desafiam o presente, projetando e definindo o futuro com os seus passos firmes. A música de hoje marca quem somos, é o resultado de quem fomos e como tal define como seremos. Não precisamos nunca de renegar ao passado para integrar um presente, mas temos o dever de marcar o passado dos que nos sucederem no futuro. Com Stage, Bruno Santos cumpre a sua parte: promove a composição de novas obras a jovens compositores; desenvolve a linguagem para um instrumento cujo repertório específico é ainda limitado. Desafio cumprido.

José Luís Postiga – Inet-MD

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