“A escrita é, para mim, uma forma de expressão pessoal e também um diálogo com o mundo”

O escritor André Oliveira acaba de lançar “Um Amor para a Vida”, o seu terceiro livro, uma narrativa que mergulha nas raízes portuguesas e tem o Douro como pano de fundo e o Porto como ponto de partida. A obra reflete sobre o amor, o medo e a verdade, explorando a forma como nos relacionamos e como a escrita pode ser um espelho da humanidade. Natural de Milheirós de Poiares, o autor cresceu entre memórias e afetos que moldaram o seu olhar sobre o mundo, mas foi em São João da Madeira que consolidou a sua identidade pessoal e profissional – cidade à qual espera regressar em breve para apresentar o livro e encerrar simbolicamente um ciclo.
Jornal 'O Regional' – Um Amor para a Vida é o seu terceiro livro publicado. O que o distingue das obras anteriores e o que o inspirou a escrevê-lo?
André de Oliveira - Um Amor para a Vida representa uma experiência completamente diferente de tudo o que publiquei até agora. Os meus dois primeiros romances pertencem ao género thriller de espionagem e, embora neles exista sempre uma componente emocional e humana, o foco principal está em acontecimentos de grande escala a nível político, militar ou criminal. Neste novo romance, o centro da narrativa é outro: o relacionamento entre duas pessoas que não se conheciam, mas que, ao cruzarem-se, despertam um no outro aquilo que de mais profundo existe em si – os medos, as feridas e também a capacidade de amar de forma verdadeira.
Aqui, o conflito já não é externo, mas interior. Um Amor para a Vida mergulha no mundo emocional de Miguel Ângelo e Ana Lilith, explorando como cada um reage às verdades e vulnerabilidades que uma relação íntima inevitavelmente revela – sobretudo quando essa ligação nasce com uma intensidade quase arrebatadora. É um romance sobre amor e autodescoberta, mas também sobre o confronto com aquilo que tentamos esconder de nós próprios.
Por que escolheu o Douro como cenário central da história?
Escolher o Douro foi, acima de tudo, um gesto de amor. Para mim, toda a região do Alto Douro Vinhateiro é uma das mais belas paisagens do mundo, um lugar onde o tempo parece abrandar e a natureza conversa com o silêncio. Nos meus romances anteriores, explorei cenários internacionais, cidades e países que me fascinavam por diferentes razões. Mas, desta vez, senti a necessidade de regressar a casa.
O Um Amor para a Vida nasce desse regresso, de uma vontade de escrever uma história enraizada em Portugal, com o Douro como pano de fundo e o Porto como ponto de partida. São lugares que conheço, onde já vivi momentos intensos e que, de certa forma, refletem o espírito dos protagonistas: a força das vinhas, o mistério das margens do rio, o romantismo das colinas. O Douro, para mim, é mais do que um cenário; é uma personagem silenciosa que observa, acolhe e transforma tudo o que toca.
Miguel e Ana são personagens marcadas pelo trauma e pela perda. Quis refletir sobre a forma como o passado condiciona o amor?
Sim. Um Amor para a Vida nasce exatamente dessa reflexão: como é que o amor sobrevive quando o passado ainda pesa? Tanto o Miguel como a Ana são marcados por perdas profundas, e cada um traz consigo feridas que o outro acaba por espelhar. Quis mostrar que amar verdadeiramente exige coragem, não apenas para sentir, mas para enfrentar o que fomos e permitir que o outro nos veja por inteiro.
O livro mergulha nas profundezas da alma, explorando até onde estamos dispostos a ir para escapar ao passado e o que somos capazes de arriscar por um futuro que pode não existir”. O livro combina dor, mistério e esperança. Como procurou equilibrar esses elementos na narrativa?
Procurei que a dor, o mistério e a esperança coexistissem como partes inseparáveis da experiência humana. A dor revela a verdade, o mistério mantém-nos em movimento e a esperança impede-nos de desistir. No fundo, quis que a narrativa refletisse esse equilíbrio natural entre luz e sombra – que o leitor sentisse o peso do passado, mas também a beleza de acreditar que, apesar de tudo, o amor ainda pode salvar-nos.
O título sugere, inicialmente, uma relação fugaz e depois aparece um amor redentor. Acredita que o amor pode realmente salvar as pessoas?
Acredito que o amor, quando é verdadeiro, tem um poder transformador. Não elimina a dor nem apaga o passado, mas dá-lhe um novo significado. O amor pode ser um espelho que nos obriga a confrontar o que há de mais frágil em nós e, ao mesmo tempo, uma força que nos empurra para a cura. Talvez não salve todas as pessoas, mas acredito que pode, sim, mudar o rumo das suas vidas.
Há traços autobiográficos em Miguel Ângelo, o escritor desiludido que protagoniza a história?
Acredito que todo o romancista deixa muito de si em cada personagem, seja herói ou vilão. Quando alguém diz que a sua escrita não é autobiográfica, está, de certa forma, a mentir. É inevitável que fragmentos da nossa verdade se revelem através da ficção. No entanto, isso não significa que contem a nossa vida, mas apenas que, por vezes, a melhor forma de dizer a verdade seja através da mentira que a ficção é.
O que mais o desafia no processo de escrita – a construção das personagens, o ritmo ou o final?
O final é sempre o maior desafio. Criar personagens e definir o ritmo da narrativa são processos mais instintivos, mas encerrar uma história de forma satisfatória exige precisão e alma. Um bom final deve deixar o leitor em silêncio por alguns segundos - não por falta de palavras, mas porque algo dentro dele se moveu. É esse toque quase invisível que transforma um romance numa experiência que fica para sempre.
Que autores ou livros o influenciaram na criação deste romance?
Um Amor para a Vida nasceu de várias influências, literárias e humanas. Sou leitor de autores que exploram a profundidade emocional e o conflito interior, como Haruki Murakami ou Milan Kundera. Também me inspiro em cineastas e músicos que traduzem o amor e a solidão de forma intensa e brutalmente honesta. Procuro sentir o que cada história me ensina sobre a alma humana e deixar que isso se revele nas páginas.
Quanto tempo levou a escrever Um Amor para a Vida e o que mais mudou entre a primeira versão e a edição final?
Um Amor para a Vida levou cerca de dois anos a ser escrito. Foi um processo intenso, com várias pausas e reescritas, porque quis que cada momento soasse verdadeiro. Entre a primeira versão e a final, muita coisa mudou: o tom tornou-se mais maduro, os silêncios mais significativos e as personagens mais humanas. No fundo, o livro cresceu comigo e acredito que essa evolução é o que o torna tão autêntico.
Este é já o seu terceiro livro. Sente que encontrou a sua voz literária?
Sinto que estou cada vez mais próximo. A voz literária não é algo que se descubra de repente, mas um caminho que se constrói livro após livro, experiência após experiência. Com Um Amor para a Vida, percebi que a minha escrita ganha força quando se aproxima da verdade dos personagens. Talvez ainda esteja a afinar essa voz, mas hoje escrevo com mais consciência e liberdade do que nunca.
“Em São João da Madeira vivi muitas experiências ligadas à comunidade, e isso criou laços fortes”
O livro vai ser apresentado em Milheiros de Poiares, dia um de novembro no Centro Cultural de Milheiros de Poiares e mais tarde em São João da Madeira. Que significado têm para si estas duas localidades?
Têm um significado muito especial. Milheirós de Poiares é o lugar onde cresci, onde dei os primeiros passos e aprendi a olhar o mundo com curiosidade e respeito. São João da Madeira representa a fase adolescente e adulta, a formação e o crescimento profissional. Apresentar o livro nestes dois locais é uma forma de fechar um ciclo, regressar às origens e, ao mesmo tempo, celebrar o caminho percorrido até aqui, com as pessoas que o tornaram possível.
Em São João da Madeira, onde já teve uma intervenção cívica, sente que o público o reconhece mais como escritor ou como cidadão ativo?
Talvez um pouco dos dois. Em São João da Madeira vivi muitas experiências ligadas à comunidade, e isso criou laços fortes. Mas sinto que, cada vez mais, as pessoas me reconhecem pelo trabalho literário e isso enche-me de gratidão. No fundo, o escritor e o cidadão ativo nunca se separam: ambos procuram compreender o mundo e transformá-lo, cada um à sua maneira. A escrita é apenas a forma mais íntima que encontrei de o fazer.
A sua formação em Medicina Tradicional Chinesa influencia a forma como escreve e observa as emoções humanas nas suas personagens?
Bastante! A Medicina Tradicional Chinesa ensina-nos que muitas das nossas doenças têm origem no desequilíbrio emocional, como a Psicologia e a Neurobiologia têm vindo a revelar em tempos mais recentes. Então, sim, esse background de formação nesta área da saúde ajuda-me a ver o ser humano de forma mais holística, ajudando-me a desenvolver personagens também mais complexos e interessantes.
Entre consultas e páginas, como concilia o rigor da prática clínica com a liberdade criativa da escrita?
São dois mundos que se completam. A prática clínica exige rigor, escuta e presença, qualidades que também aplico à escrita. Já o ato de escrever dá-me liberdade, profundidade e um espaço para refletir sobre aquilo que observo todos os dias nas pessoas. Uma alimenta a outra: tratar e escrever são, no fundo, formas diferentes de compreender e cuidar do ser humano, algo fundamental para mim. Costumo dizer que adoro o que faço e faço o que adoro e é isso que me equilibra.
O contacto diário com pacientes em busca de equilíbrio inspira de alguma forma as histórias que cria?
Sim, sem dúvida. O contacto com os pacientes é uma fonte constante de inspiração. As pessoas confiam-me as suas dores, medos e amores - histórias reais, muitas vezes mais intensas do que qualquer ficção. Ouvir essas confidências faz-me compreender melhor a alma humana e a sua capacidade de se reinventar. Não transporto essas histórias literalmente para os meus livros, mas elas alimentam a empatia e a verdade emocional que procuro em cada personagem.
Vê paralelos entre o ato de curar e o ato de escrever – ambos como formas de compreender e transformar a vida?
Vejo muitos paralelos, sim. Tanto curar como escrever são formas de compreender e transformar o que nos habita. Na clínica, procuro restaurar o equilíbrio do corpo e da mente; na escrita, procuro compreender e libertar as emoções. Para mim, escrever é, em si, uma forma de terapia - um espaço onde posso traduzir em palavras o que muitas vezes não sei explicar de outro modo. Escrever cura-me, e talvez por isso as minhas histórias também falem de cura.
“A escrita é um dos meus maiores prazeres”, afirma. A literatura tem sido também uma forma de expressão pessoal e social para si?
Sempre. A escrita é, para mim, uma forma de expressão pessoal e também um diálogo com o mundo. Através dela, consigo explorar os meus pensamentos, crenças e emoções, mas também refletir sobre a sociedade e os tempos em que vivemos. Gosto de criar histórias que tocam o íntimo de cada leitor, que sejam tão íntimas que se tornam universais. Mas que também levantam perguntas sobre o amor, o medo, a verdade e a forma como nos relacionamos. Escrever, no fundo, é partilhar humanidade.
O que espera que os leitores retirem desta história quando fecharem o livro?
Espero que sintam algo verdadeiro. Que ao fecharem o livro fiquem em silêncio por um momento, talvez a pensar em alguém, ou em si próprios. Um Amor para a Vida fala sobre recomeços, perdão e vulnerabilidade, temas que nos tocam a todos. Gostava que os leitores percebessem que o amor não é apenas um sentimento, mas também uma escolha diária nas suas mais diversas formas. Se essa ideia ficar com eles, então o livro cumpriu o seu propósito.
Já está a pensar no próximo projeto literário? Pode revelar alguma coisa?
Sim, já estou a trabalhar no próximo romance. Será uma história mais sombria, no cruzamento entre o thriller e o drama psicológico, passada na cidade do Porto. Quero explorar o lado oculto da mente humana, da fé e da corrupção, com o regresso de Miguel Ângelo como protagonista. Depois de Um Amor para a Vida, este novo livro mergulha nas sombras da alma humana, onde a verdade e a redenção raramente vêm sem um preço.
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