Cultura e Lazer

1. - Subsídios para a História da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira

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Um livro de José António de Araújo Pais Vieira

Aqueles que por obras valorosas
Se vão da lei da morte libertando.

Luiz Vaz de Camões – Os Lusíadas

O panorama da literatura histórica desta cidade acaba de ser enriquecido com mais uma obra da família Araújo Pais Vieira. Digo da família pela razão singela de que Manuel Pais Vieira Júnior (pai de José António e seu exemplo de acção e dádiva) durante trinta e seis anos dedicou o seu tempo à Instituição da Misericórdia – o que vale por dizer que tantas obras de bem-querer e bem-fazer foram levadas a cabo por via de um sentimento de alma-e-coração.
Um dos mais seguros avatares desta obra marcante é que não se limita a falar de factos e situações dignos de nota, chama também à narrativa gente de preito e de prol como Sidónio Pardal e o seu bom-dia de todos os dias (estou a ouvi-lo neste preciso momento): ``Faça-me o favor de ser feliz.``
Essa e muitas outras personagens atentas aos valores Sanjoanenses alimentam o vasto friso de gente prestimosa como Nídia Lamas, Urgel Martins, Fernando Tavares de Almeida, Manuel Castro Almeida, António Soares Vilarinho, Vítor Gonçalves, Alberto Manuel de Aguiar Pacheco, José da Silva Pinho, Urgel Ricardo Santos Brandão Horta Martins – assim como os irmãos Durbalino e Duarte Gonçalves que me permito trazer à colação.
Uma vez que fomos ao encontro de tantas personagens de preito e de prol, seja-me permitido também uma oração votiva em memória de um colega de Coimbra e confrade na advocacia, Manuel de Jesus Guerra, tão cedo apartado dos seus devotados amigos. Na apresentação do livro aqui memorizado encontrámos a sua esposa e também colega de Coimbra, agora entregue às suas orações e a um dos maiores milagres da natureza: duas pessoas que envelhecem juntas nunca envelhecem.

2. – Nunca digas adeus, faz as tuas despedidas com lenços brancos a acenar
Oh tempo, tempo passado / Vida de tão poucos dias,
Tu me trouveste enganado / E me mentias.

Gil Vicente, fala do Lavrador.

Quando se vai a Santiago sem uma fé de raiz, pouco importa ao romeiro a escudela, a cabaça de água e o cajado. Se porém essa fé existe, todas as portas estão abertas às orações do Lavrador e do Pastor de Gil Vicente: 1.- Que seja pecador / O lavrador / Não tem tempo nem lugar / Nem sequer para limpar / As gotas do seu suor. 2. - Assaz avonda ao pastor / crer em Deus e não furtar.
Portas abertas de boa mente, por todos os motivos e mais porque nos encontramos num tempo de vésperas, sem que se saiba ao certo se são vésperas do antes ou do depois. Ao Homem tudo foi dado: discernimento e desrazão, amor e ódio, guerra e paz. Dádiva suprema, aos humanos foi oferecido um planeta em que se pode viver, amar, sorrir, criar – mas o homem parece divertir-se a atirar sobre si próprio: Ele bem vê que por sua culpa, sua máxima culpa, as calotas polares se estão a derreter; continentes inteiros separam-se do gelo polar, mergulhando nas águas dos mares e rompendo o equilíbrio terreste, a favor do aquecimento global que de infalível levará ao ponto de não retorno se no imediato não houver mudança de rumo.
Tudo visto e levado ao torno, o que se impõe é regressar ao tempo dos ``Campos de Feno com Papoilas`; aos ares abertos que não nos envenenem cada dia que passa; ao dar de mãos dadivosas; à pisa de amoras silvestres – no fundo ao espírito de Misericórdia sem o qual o Homem fica sozinho num deserto de sal. No fundo tudo vai de sabermos o que tem nas mãos o semeador na hora da sementeira. À primeira vista o que o semeador tem nas mãos é a semente; se no entanto pensarmos melhor, logo percebemos que o semeador não se contentaria com tão pouco. Perguntem ao comum amigo José António, também ele cuidando da sua lavra cultural. Aposto que de exacto o que nos dirá é que na hora da sementeira o que o semeador tem nas mãos (como não?) é a Seara.

 

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