Cortadoria reúne 75 anos de história e memórias em livro

Cortadoria reúne 75 anos de história e memórias em livro

Para assinalar os seus 75 anos, a Cortadoria Nacional de Pêlo está a reunir as memórias, estórias e testemunhos daqueles que integram esta história, sejam ex-trabalhadores, sejam pessoas que têm algo a contar sobre a empresa e o papel que esta teve também na evolução industrial, económica e social do território. Todo este espólio será compilado num livro comemorativo, num trabalho que está a ser desenvolvido através do projecto «Memória para Todos», coordenado pela investigadora Fernanda Rollo.

Foi a 21 de Dezembro de 1943 que foi constituída a Cortadoria Nacional de Pêlo. 75 anos volvidos, a empresa, que é hoje líder de mercado dentro do indústria da chapelaria, está a reunir os testemunhos e histórias que assinalam este percurso, que dará origem a um livro comemorativo.
Neste sentido, a Cortadoria Nacional de Pêlo e o Instituto de História Contemporânea organizaram, nos dias 23 e 24 de Março, os «Dias da Memória». Nestes dois dias, ex-trabalhadores em particular e todos os cidadãos em geral foram convidados a partilhar as suas histórias, memórias, documentos, objetos e fotografias relativos à história e património da empresa.
O evento decorreu entre a Torre da Oliva e o Museu da Chapelaria, tendo sido recolhidos os testemunhos de 38 pessoas.

História e património

Em declarações a ‘O Regional’, Nuno Oliveira Figueiredo, administrador da Cortadoria Nacional de Pêlo, explicou que o aniversário foi assinalado a 21 de Dezembro último, num jantar de comemoração que juntou todos os funcionários.
2019 será agora “o ano das comemorações, com algumas iniciativas para comemorar e reflectir sobre estes 75 anos de história”. Uma dessas iniciativas passa pela edição de “um livro que retrate o que foi o panorama nacional da constituição da empresa, o enquadramento do contexto económico e político da altura” e aborde ainda “como é que a Cortadoria prosperou num ambiente em que o chapéu foi retraindo no meio urbano e foi-se mantendo em algumas geografias onde as pessoas usam o chapéu como um elemento de distinção e de identidade cultural, religiosa ou institucional”, explica Nuno Oliveira Figueiredo.
De S. João da Madeira para o mundo, a Cortadoria trabalha “no mercado global, no mundo inteiro”, continuando a ter na Fepsa “um óptimo paceiro”, desenvolvendo em conjunto “um trabalho notório ao longo das últimas décadas quando, de facto, pela Europa e Estados Unidos, há cada vez menos produção”.
Um “mercado global, mas de nicho”, ressalva Nuno Oliveira Figueiredo, ao sublinhar que, apesar da actual estabilização do sector, “muitas empresas ficaram pelo caminho” a nível mundial. Hoje a Cortadoria assume uma “quota de 40 por cento do mercado mundial, o que é significativo”.
Os «Dias da Memória» do último fim-de-semana visaram precisamente dar início a essa construção da história, “chamando as pessoas para virem ao Museu [da Chapelaria] para começarmos a recolher também as sensibilidades de cada um”. “Pessoas que trabalharam na empresa, ou têm alguma história ou recordação relativamente à Cortadoria”, explica Nuno Oliveira Figueiredo, partilhando ter ficado surpreendido pela adesão e envolvimento que o evento registou e acreditando que esta “é também uma homenagem às pessoas que lá trabalharam e aos chapeleiros da cidade”.
Esta iniciativa insere-se na perspectiva de “reunirmos o máximo de história e criarmos um arquivo na empresa e em partilha com o Museu da Chapelaria, que tem dado um apoio inestimável, assim como o Turismo Industrial e a Câmara Municipal”.
“As pessoas estão a reviver momentos do passado e a contribuir para fazer história” desta empresa que “é um património da cidade e nacional”.
Este trabalho está a ser coordenado pela investigadora Fernanda Rollo, do Instituto de História Contemporânea (da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa) e fundadora do Programa Memória para Todos.
Nuno Oliveira Figueiredo explicou ao nosso jornal que a ideia de convidar Fernanda Rollo surgiu aquando da sua visita a S. João da Madeira, enquanto secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Na altura, a então governante visitou também o Museu da Chapelaria e o empresário reconheceu a sua “paixão e admiração” pela história e percurso da Cortadoria, pelo que Nuno Oliveira Figueiredo considerou que “era a pessoa indicada para nos ajudar a escrever estes 75 anos”.
“Desafiamo-la para escrever a história”, concluiu Nuno Oliveira Figueiredo. Um desafio que Fernanda Rollo aceitou de imediato.
“Há muitos anos que estudo e observo a história da Cortadoria que é muito singular no nosso país”, disse a investigadora em declarações a ‘O Regional’, acrescentando que esta empresa sanjoanense tem “um espaço único e muito singular” na “história da industrialização do país” e que sempre lhe “interessou muitíssimo”.
“Quando surgiu esta oportunidade disse logo que sim que teria imenso gosto”, confessa.

“Um projecto de afectos”

Para Fernanda Rollo, iniciativas como os «Dias da Memória» da Cortadoria são sempre “surpreendentes”, até porque, à semelhança do programa «Memória para Todos» no qual se insere, este é um “projecto de afectos”.
“Queremos olhar para as pessoas, ouvir as suas histórias e pedir às pessoas comuns que partilhem connosco as suas recordações, memórias e fotografias, ajudando-nos a valorizar o nosso património e a nossa identidade, que são únicas e inestimáveis”, afiança, reconhecendo que, no caso da Cortadoria, “já imaginava que pudesse ser assim tão interessante porque é a forma das pessoas nos ajudarem a contar o outro lado da empresa”.
Até porque a investigadora acredita que “a história das instituições, das empresas e das indústrias é sempre a história das pessoas”.
Destas conversas informais, sempre carregadas de sentimento, Fernanda Rollo destaca as “pessoas incríveis que começaram a trabalhar muito jovens, algumas ainda crianças, e que contam o andar dos tempos durante 10, 20, 30, 40, 50, 60 anos…” e as “senhoras que olham para estas máquinas [no Museu da Chapelaria, onde decorreu a conversa com o nosso jornal] e dizem que as conhecem como as próprias mãos”.
“A Cortadoria desempenha papel importante nesta comunidade”, refere a investigadora, considerando que “só ouvir a história das pessoas vale sempre a pena”.

Memórias de todos e para todos

Mesmo quem não teve oportunidade de participar nos «Dias da Memória», pode ainda dar o seu contributo relacionado com a história da Cortadoria, seja através de contacto directo com a empresa, ou através do programa «Memórias para Todos». Podem partilhar testemunhos, objectos ou fotografias.
Fernanda Rollo fez questão de deixar uma palavra especial à comunicação social, que “tem sido um sempre parceiro muitíssimo importante” no âmbito do programa «Memória para Todos», ao qual ‘O Regional’ se associou dentro do projecto de levantamento da história da Cortadoria. “Ajudam a divulgar e a mostrar que é um projecto de afectos e de confiança”, traduzindo-se também numa “forma de agradecermos às pessoas e reconhermos o seu papel” junto das “gerações vindouras para ajudar a contar o nosso território e a nossa história”.

Joana Gomes Costa

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