Comércio reabriu com “muitos medos e receios”

Comércio reabriu com “muitos medos e receios”

É um retomar a atividade económica de forma gradual. São novas rotinas, novos hábitos e uma desinfeção constante. Existe ainda o medo de contagiar, ser contagiado e de andar na rua. Tudo isto numa altura em que arrancam as obras na Praça Luís Ribeiro, o que para alguns comerciantes “não vem ajudar, em nada”, o recomeçar de uma nova vida para todos.

Foram sete semanas com as portas encerradas, de forma forçada. S. João da Madeira viu, na passada segunda-feira, dia 4, abrirem-se as portas de alguns espaços comerciais, até 200 metros quadrados, que não estavam abrangidos pelo regime excecional das atividades essenciais durante o estado de emergência, por força das medidas de contingência da pandemia do Covid-19.
Paulo Barreira não teve mãos a medir e recebeu logo, pela manhã, os primeiros clientes. Mas as regras mudaram. Limpeza de todo o material, utilização de material descartável, desde máscaras, luvas, viseiras, desinfetantes, penteadores, limpeza extra são algumas das medidas agora em vigor. A marcação é uma exigência. Os seus clientes têm obrigatoriamente que aguardar à porta, e o espaço é todo desinfetado a cada novo corte de cabelo.
João Pinho foi dois primeiros clientes a marcar presença nesta reabertura. “Mal li no jornal que iam abrir portas, fiz logo a marcação, pois imaginei que a corrida ao barbeiro ia ser muita”, confessou a ‘O Regional’. As regras são apertadas. O receio é de ambas as partes também. “Claro que todos temos medo do contacto com as coisas, do contágio, da doença e, ainda, de sair à rua sem pensar nisto”, mostrando-se muito confiante na higienização que está a ser feita neste barbeiro, em pleno Centro Comercial Parte América.
Pedro confessa ainda que já ansiava há muito um corte de cabelo e da barba. Mostra-se a favor desta retoma gradual, até porque considera essencial “sentirmos esta sensação de alguma normalidade, mesmo que ainda não seja como todos desejávamos, mas já nos permite acreditar e ter alguma confiança”.
Neste cabeleireiro, viram-se, ao longo da manhã, vários clientes a tentar a sorte. Mas, ali, neste momento, só existem vagas a partir de 12 de maio. Paulo Barreira não escondeu a satisfação de voltar ao ativo. Com máscara, viseira, luvas, e já vai no terceiro cliente. Confessa a ‘O Regional’ que não vai ser fácil a adaptação a todo este material “não muito confortante”, pois confessa sentir alguma dificuldade na arte de manusear a tesoura, mas “esta é, na verdade, a nova realidade da sua profissão a que terá de se adaptar”.
O cheiro a desinfetante era sentido em alguns pontos da cidade. Além disso, já se viam pessoas em espaços com máscara e a espreitar uma ou outra montra, para compararem tendências e preços em tempo de pandemia. Mas ainda há muitas montras vazias e espaços que esperam melhores dias, e alguns negócios parecem mesmo dar sinais de que, possivelmente, não vão ter condições de resistir às consequências económicas da pandemia que levou a isolamento dias a fio.

“O início das obras não vem ajudar em nada a situação”
Hélder Ribeiro, proprietário de uma loja de vestuário feminino, acessórios e artigos esotéricos, explicou a ‘O Regional’ que “todas” as pessoas que entraram na sua loja nos primeiros dias já utilizam máscara. “Não têm é o hábito de desinfetar as mãos com o gel que está mesmo à entrada da loja”. O dono da loja Sttattus, em pleno centro da cidade, refere que se apercebeu que o receio ainda acompanha os clientes, e que o medo de tocar nos artigos exposto é visível. “Tocam com medo, quer seja de contaminar, quer seja de se contaminarem. Há pessoas que ainda perguntam se podem entrar ou se podem experimentar o vestuário”. Há outras que entram e dizem “não se preocupe que eu não toco em nada”.
Para já, considera que “não há grande movimento na rua”, e as poucas pessoas que se vêem “andam, na sua maioria, com medos e receios e muito contidas nos gastos”.
Tudo ali parece novidade. Mas Hélder garante que algumas pessoas já “interiorizaram que vai haver desemprego, empresas a fechar, perda de rendimento” e, apesar da vontade de comprar, acabam mesmo por se conter naquilo “que não é prioridade”. Hélder teme dias difíceis e também considera que o início das obras “não vem ajudar em nada a situação, já que afastará pessoas do centro da cidade”, rematou.

“Gritos de alerta” em tempos de pandemia
A restauração tem ainda de aguardar até 18 de maio. Quem optou por funcionar em regime de takeway ainda vai chegando a casa dos clientes.
Em tempo de pandemia, as redes sociais servem também para “gritos de alerta”.
José Silvério, proprietário da Taberna do Zé, em pleno Largo de Santo António, mostrava a sua indignação. Na sua página do Facebook, dá conta de que as ajudas ao comércio “não há maneira de serem desbloqueadas”. Já a nível local, alertava as entidades locais que “devemos ser a única família na cidade que, neste momento, tem três casas fechadas, por ordem do Estado. Não fui eu quem quis fechar, pois já lá vão quase três meses com faturação zero e as contas caem na mesma, desde água, luz, rendas, gás, telecomunicações, impostos e alimentação, como tantas outras famílias sem rendimentos”.
Silvério lamenta, ainda, que “não tivesse vindo alguém da Câmara Municipal, da Proteção Civil ou Acão Social ter dito alguma coisa”, e questionando esta família “se necessitavam de alguma coisa”. A juntar a tudo isto, acrescenta que, numa altura como esta, arrancar com as obras na Praça Luís Ribeiro “não faz sentido”. “O comércio já está fechado vai para três meses e, agora, com as obras, quem é que vem ao centro da cidade? Há milhões de motivos para permitir a dor, a mágoa e o sofrimento, mas estes motivos só podem ser entendidos dentro da história de cada um”, en­fatiza.

António Gomes Costa

Paulo Barreira, responsável por salão de cabeleireiro no Parque América

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