Ainda se lava roupa à mão na cidade por necessidade

Ainda se lava roupa à mão na cidade por necessidade

São muitas as pessoas em S. João da Madeira que ainda recorrem aos tanques públicos com gestão da autarquia. A crise e o desemprego fazem com que, cada vez mais mulheres deixem o conforto do lar e procurem estes tanques, para pouparem, no fim do mês, algum dinheiro. Locais que fazem parte do património cultural e histórico da cidade.

Umas levam a roupa à cabeça numa bacia. Outras, porque a idade já não ajuda, preferem um carro de duas rodas. Detergente, sabão, escova, lixívia. Tudo aquilo que é necessário para “colocar a roupa lavadinha”.
Ao contrário do que se pode pensar, os quatro lavadouros públicos com gestão do município (junto ao edifício da Câmara Municipal, no lugar do Parrinho, nas Travessas e em Casaldelo) são ainda muito frequentados pelas mulheres que ali vão lavar roupa.
O certo é que até pode ser difícil acreditar que, em 2019, existam mulheres que utilizam os tanques públicos para lavarem roupa à mão. Mas, na verdade, há. E, ao que parece, o número tem vindo a aumentar.
“Eu venho cá lavar mesmo por necessidade, para poupar água e luz no final do més”, garantiu-nos Corália Moreira Pinho, que encontramos no «tanque do pedaço», junto ao edifício da Câmara Municipal.
Aos 67, e já com “os filhos criados”, vive sozinha e tem que fazer contas à vida. “Se eu lavar em casa pago em média 30 euros de água. Se a lavar no tanque o valor, por vezes, não chega aos 15 euros”.
A água estava fria. As mãos de Corália geladas. Mas nada disso impediu que lavasse a roupa que tinha trazido de casa. “A vida não está fácil e, se não for assim, o dinheiro não dá para tudo”, garantiu a ‘O Regional’.
Durante a nossa longa conversa, recordou, com um sorriso, a muita roupa que já lavou neste tanque. “Venho a este tanque desde que os meus filhos eram pequenos e, por vezes, tinha que esperar, pois estava tudo ocupado”. O certo é que estes locais públicos guardam memórias e fazem parte da história da cidade. “Aqui fazíamos amizades, cantávamos, existia interajuda, lavávamos a roupa umas das outras” e, confessou-nos: “tenho umas saudades de lavar as fraldas dos meus filhos que não imagina”.
Corália Pinho reclama, no entanto, a falta de manutenção do tanque por parte da Autarquia. “Além de não o limparem, as obras que fizeram não foram bem feitas pois existem aqui vários problemas. Fui lá reclamar mas deram-me um papel para preencher”, diz.

Lavar nos tanques para poupar água e luz

Os tanques públicos fazem parte do património cultural e histórico da cidade.

O tempo ia passando e juntou-se mais uma “lavadeira”. Com uma trouxa de roupa suja à cabeça, Ana Gomes pede ajuda para descer as escadas. “Lavo passadeiras, tapetes e tudo o que são gangas dos meus netos, aqui. Isto para ficar limpo na máquina tem que ter uma temperatura elevada e eu não ganho para a luz nem para a água que gasto”. Aos 70 anos, aponta também o dedo à falta de manutenção deste tanque. “Já antes deste presidente, eu tinha reclamado pela falta de limpeza, mas ninguém nos liga”, alertava.
O certo é que estes tanques públicos não deixam ainda hoje de ter uma vertente social, pois em várias situações acabam por ser mesmo um local de encontro, onde estas mulheres, na sua maioria com idade superior a 60 anos, trazem uma ou outra peça para lavar e acabam por ficar à conversa com quem ali encontram. “Eu sempre gostei muito de lavar roupa no tanque público. Aqui converso, canto” e não tem dúvidas que a “roupa fica muito mais bem lavada do que na máquina”, afirma Ana Gomes.
Por sua vez, Rosa escolhe o tanque do Parrinho para ali lavar a roupa como aprendeu com a sua mãe. Aos 68 anos, diz que o que mais lhe custa neste tanque é subir os degraus. “As minhas pernas já não me ajudam muito”, mas “arranjo sempre alguém que me ajude ou me venha buscar, quando a roupa é mais pesada”. Esta sanjoanense recorda os tempos em que vinha de madrugada lavar roupa e assegura que não existe um segredo especial, recordando “tempos nem sempre fáceis”, em que “mexia a roupa dentro da bacia com os pés, ficava a demolhar com sabão ou em lixívia e colocávamos depois a roupa a soalhar”.
Luísa Pinho veio de carro. “Venho cá muitas vezes durante o ano, pois existem coisas que a máquina não lava”, que é como quem diz “carpetes e passadeiras grandes. Já estou nas lavagens da Páscoa”, graceja. Tem máquina de lavar em casa, utiliza-a, pois o “tempo não dá para tudo” e é outro conforto. Aos 46 anos, assume que, ao contrário do que muitos possam pensar, os tanques públicos em S. João da Madeira são muito frequentados por populares. “Sempre foram. A minha mãe já cá vinha e sempre que venho encontro pessoas que utilizam este método, principalmente, para pouparem nas contas”.
Na zona das Travessas existe um tanque público mas é muito pouco frequentado pois o seu estado não permite a grandes lavagens.
Se uns partilharam as suas histórias e memórias no prazer que encontraram em lavar roupa à mão em tanques públicos, também encontramos populares que não quiseram prestar declarações a ‘O Regional’, afirmando que “depois ficam todos a saber da nossa vida”.
Para o município os lavadouros públicos são “estruturas antigas que, naturalmente, caíram em desuso com o passar dos anos, em especial em meios urbanos por excelência, como é o caso” de S. João da Madeira. Em declarações a ‘ O Regional’ a autarquia assegura ainda que apesar da sua “muito reduzida utilização e da sua antiguidade”, o município tem “intervindo no sentido de manter os lavadouros” referidos em condições que “respeitem o seu uso tradicional, procurando preservar essa marca de outros tempos”.
Quer se queira ou não, estes tanques públicos continuam a fazer parte do património cultural e histórico de S. João da Madeira.

António Gomes Costa

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