A nossa relação com as árvores

A nossa relação com as árvores

Em boa verdade, podemos dizer que todas as pessoas gostam de árvores, contudo, a relação da humanidade com o arvoredo, que sempre lhe deu abrigo e conforto, é complicada e contraditória.
O agricultor gosta de campos abertos com terra arável conseguida depois de um árduo trabalho de arroteamentos de árvores, remoção de touças, despedrega e, a não ser nos pomares, as árvores não lhe deixaram grandes saudades. O pastor ao longo dos séculos faz queimadas para ter terreno limpo onde germine pasto para o rebanho. Actualmente o urbana hominis vacila entre o culto da natureza e a relação emocional de quase amor e ódio com o arvoredo: Se a árvore do vizinho lança um ramo para fora do alinhamento da propriedade, essa “invasão” pode dar motivo a conflito. Se o município não poda severamente as árvores dos arruamentos e praças, deixando-as estropiadas com a forma caricata de um tronco desramado é criticado por desleixo. São frequentes na Primavera pedidos para se cortarem árvores a pretexto do seu pólen ser a causa de alergia, há também quem receie que os ramos das árvores entrem pelas janelas. Há ainda o problema do levantamento dos pavimentos pelas raízes, as folhas no chão, o risco da árvore e dos seus ramos tombarem com ventos e tempestades, o excesso de sombra, a perda de vistas e enfim tudo o que é natural que aconteça por termos a companhia amiga de uma árvore.
A reconciliação do homem com as árvores exige uma compreensão arquitectónica do desenho urbano, uma escolha acertada das espécies a plantar em cada sítio e um cuidado trabalho de manutenção. Se num jardim ou num parque é possível plantar uma ampla paleta de espécies arbóreas, já nas praças ou arruamentos as espécies apropriadas são em número relativamente escasso e têm de ser resistentes às condições menos favoráveis que vão encontrar no meio urbano – pouco espaço para as caldeiras e para as raízes, solo menos arejado, poluição atmosférica e podas sistemáticas, ao longo do seu crescimento, que limitam a longevidade. Entretanto, nas últimas décadas, têm evoluído as técnicas de plantação e manutenção do arvoredo urbano.
É impensável Roma sem os pinheiros, Lisboa sem os jacarandás e em São João da Madeira há um expressivo arvoredo de carvalhos, tílias, áceres e outras espécies que já fazem parte da sua identidade urbana. A percepção deste arvoredo faz parte do nosso equilíbrio emocional. Acontece que as árvores, como todos os seres vivos, têm um ciclo de vida e é quando são mais imponentes e admiráveis que surge o receio de que se quebre um majestoso ramo, ou que a ventania a derrube e esse risco amplia-se, transforma-se num medo obsessivo, partilhado nas redes sociais até ao ponto de, com grande desgosto e magoado alívio, se abater a árvore e isto faz parte da estranha natureza da vida.
Os plátanos que estavam na Praça Luís Ribeiro faziam parte da identidade daquele sítio que agora está em obras de renovação urbana. Ao longo das suas vidas e todos os anos, Documento de Trabalho, não citar nem divulgar aqueles plátanos foram sujeitos a podas severas que lhes deixaram grandes feridas expostas a infecções que os debilitaram e deformaram, a ponto de a sua substituição ser um acto sensato e recomendado pelas boas práticas da manutenção do arvoredo urbano.
Qualquer transformação do lugar onde vivemos interfere com hábitos e memórias e, naturalmente, é sempre motivo de inquietação e de incertezas que só se apagam com um bom resultado das obras, restabelecendo o conforto e a normalidade da vida quotidiana.
A consolidação do tecido urbano é, geralmente, um processo lento de justaposição de construções e desconstruções ao longo dos tempos. São João da Madeira há um século atrás ainda não existia como município e é hoje uma jovem cidade com qualidade de vida e que vem investindo na arborização do espaço publico “ruas, avenidas, praças, jardins e parques”. Mas deve também promover os espaços exteriores privados cuja arborização é relevante para o conforto dos moradores, valorização dos activos imobiliários e na composição paisagística da cidade no seu conjunto.
De ora em diante seguramente que as novas árvores a plantar nesta praça irão ser bem tratadas, dando-lhes boa e farta terra para os seus raizames e espaço para o crescimento das suas copas que se querem frondosas e com a forma natural. As podas devem limitar-se a limpezas de ramos secos ou mal orientados.
A propósito de preconceitos, implicâncias e desinformação sobre as árvores, atrevo-me a contar um caso que se passou comigo: Lembro-me de em criança admirar com espanto as tílias que estavam no largo da entrada do antigo hospital, edifício distinto na sua sóbria beleza, bem implantado e que não merecia ser demolido.
Creio que eram seis árvores alinhadas, três de cada lado com as suas copas cordiformes e vetustas que anunciavam a Primavera com um intenso perfume. Qual não foi a minha surpresa ao ler em múltiplos artigos da especialidade, publicados desde 1913, que acusavam a tília ter um néctar tóxico para as abelhas devido à presença de um açúcar chamado manose. Daí em diante muitas vezes evitei plantar tílias e aquelas que plantei, por motivos estéticos, pesavam-me na consciência por pensar que estava a fazer mal às abelhas. Eis que em 2017 a respeitável “Royal Society” publica um artigo subscrito por dois cientistas Hauke koche e Philip Stevenson onde dão conta de que não existe prova daquela toxidade, pelo contrário a tília dá um farto farnel às abelhas para um saboroso mel. As tílias, depois de injustamente destratadas durante mais de um século, merecem retomar o seu lugar como excelente árvore urbana dando-lhes espaço e tempo para crescerem, pois, precisam de uns bons vinte anos para se tornarem adultas.
Os platanus têm crescimento mais rápido, copa aberta e um ensombramento menos austero que a tília. O tulipeiro (Liriodendron tulipífera), com a sua copa ligeiramente fastigiada, não abre tanto como o plátano. A selecção do arvoredo urbano é um acto de composição arquitectónica que atende à singularidade de cada espécie. O coberto arbóreo deve ser composto por várias espécies, com idades diferentes, criando biodiversidade e, no Documento de Trabalho, não citar nem divulgar conjunto, contribuir para estruturar espaços dimensionados com generosidade para dar desafogo e harmonia ao tecido urbano.
A perturbação e tristeza causada pelo abate de árvores são maiores quando se abatem muitas em simultâneo e no mesmo lugar, alterando de forma repentina e temporária a imagem do sítio. Para não termos de enfrentar estas ropturas no futuro é necessário providenciar para que as árvores sejam saudáveis e com diversas idades. Nestas circunstâncias, a sua substituição pode ser feita gradualmente, uma a uma, com tempos muito espaçados, sem que a operação de abate e replantação seja perceptível no conjunto.
Apesar do apreço pelos jardins e pelas árvores, na sua expressão simbólica, remontar às origens da civilização, a manutenção do arvoredo urbano só agora começa a ser sistematicamente estudada e considerada como parte integrante da gestão corrente do meio urbano.
Seguramente que vamos ter mais e melhor arvoredo nas cidades, sendo para tal necessárias boas práticas, de modo a manter os copados nas suas formas naturais e fazer replantações sem ferir a percepção da imagem dos lugares.

Sidónio Pardal

  • Professor, Doutor, Jubilado da Universidade de Lisboa, Urbanista, Eng. Agrónomo e Arqt.º Paisagista

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